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WEB SÉRIE: NOSSAS ESCOLHAS


Olá, obrigada por ter encontrada esta web série. Escrevi nossas escolhas entre 2014 a 2016, foram dois longos anos a escrevendo e por isso, repensei melhor no contexto da história.

 Anteriormente, a deixei completa em vários capítulos dispersos, mas achei melhor reuni-las em um só post. "Nossas Escolhas" foi escrita em uma época em que eu era uma pessoa leiga e sem grandes perspectivas sobre minha própria maneira de escrever. Com o tempo, minha escrita evoluiu, modificou-se, mas está longe de ser perfeita. No entanto, não tocarei no conteúdo original desta Web Série, exceto por seu final, que este sim, precisei modificar.
O que começou com uma grande paixão, logo fora esfriando até extinguir-se, contudo, nunca desejei deletar minha história, pois por mais iniciante que seja, ela é parte de mim, completamente feita com carinho e amor.
Erros poderão ser encontrados ao longo do caminho, denunciando meu lado amador e sem qualquer tipo de experiência.
Boa leitura.



CAPÍTULO 1



Como posso me descrever? Começo com um singelo "Era uma vez", ou será que começo com uma breve apresentação? Tudo que posso dizer sobre mim, é que, durante o percalço da minha vida, tomei decisões e escolhas, para agradar outras pessoas e às vezes não me sentia feliz... Tudo que queria era viver uma vida de romances igual aos filmes, mas meu pai que era pastor, queria que eu fosse uma missionária. É lógico que gostava muito da igreja, e das minhas amigas, do grupo de louvor, mas, queria algo a mais... Quando olhei pela primeira vez aqueles olhos cheios de encanto... Foi aí que a minha história deu uma guinada... Quem sou eu? Me chamo Clara, e esta é a minha história!

Sou Clara Maria da Silva, tenho 15 anos, e me considero bastante animada! Minha cor favorita é rosa, e gosto de amarrar meu longo cabelo louro em dois rabos de cavalo. Sou alegre o tempo todo, pois não vejo motivo para chorar, já que tenho um Salvador na minha vida que é o  Senhor Jesus.

Sou levita da igreja, onde congrego, e o meu pai é o pastor, e por ser filha de pastor, tenho que dar bons exemplos. Nada de ficar até tarde na rua, nada de namoricos, e nada de desobedecer. Tenho uma amiga de escola que também é da igreja, chamada Mila, ela tem a minha idade e é minha confidente. E tenho uma irmã bem chata que pega no meu pé, chamada Júlia. O meu aniversário estava bem pertinho, faltava só algumas semanas, e eu estava ansiosa para ele chegar! Estudo no Centro de Ensino Estadual, faço o 2º ano do ensino médio.

Sexta-feira. Último dia de aula na semana. Queria ver a Mila, e conversar sobre o filme que passou na tv no dia anterior: "Um Amor para Recordar". Como a gente não enjoava desse filme, acho que era porque eramos românticas natas. Adolescentes do 2º ano ver amor em tudo:

— Amiga tentei conversar com você pelo Facebook. O que houve?
— Xi, Mila, a net lá de casa, tá só caindo, mas, cá entre nós, falar pessoalmente é melhor!  Papo vem, papo vai e o sinal de entrada toca. Hora de entrar, mas, o papo não encerra.
— Ai, amo aquele filme, pena que o final é tão bobo. Queria que eles ficassem juntos!
— Você que é boba Mila. tá na cara que antes eles passariam por um divórcio.  rimos juntas até que ela me interrompeu.
— Ei Clara, soube que vem um novato para cá!
— Sério? Mas, é estranho alguém mudar de escola no meio do ano letivo.

Nesse momento entra a professora de biologia. O primeiro horário era dela:

— Silêncio, classe! Espero que todos tenham feito o dever que passei para casa. Mas, antes de cobrar a lição, vou apresentar o aluno novo. Pode entrar, senhor Felipe.

E entrou um menino magro, alto, com os olhos mais tristes porém encantadores que eu já vi:

— Sou Felipe Nascimento e acabo de me mudar para cá.  Foi só isso que ele disse, e se sentou bem do meu lado. As patricinhas estavam empolgadas para falar com ele. Apesar de triste, ele era bem bonito, tinha um certo charme. Não era como os jogadores do time da escola, que eram esnobes. Ele se sentou abriu os livros e começou a estudar sem olhar para os lados, ou para trás. Deu para perceber o quão mal vestido ele era. Camisa xadrez, tênis all star surrados, custava vim arrumado para o seu primeiro dia de aula? Na hora da saída, ele passou com tanta pressa por mim que derrubou os meus livros, e nem os ajuntou. Que cara convencido! Que raiva!

— Grosso! - Mila berrou
— Deixa Mila. - Que cara ignorante, pensei.

O sábado passou como nuvem. Fiz minhas tarefas de casa e lições da escola e a noite teria Encontro de jovens, com muito louvor e pregação. Voltei para casa feliz da vida. No dia seguinte, teria EBD, seria bom dormir mais cedo. Coloquei o despertador para 6:00h da matina.

O despertador tocou, o galou cantou, o dia chegou. Domingo de manhã. Dia de Escola Bíblica Dominical. Hoje meu pai ia dar uma lição sobre luxúria, ele ficou falando sobre esse assunto no café-da-manhã, almoço e jantar, decorando o tema para minha irmã mais velha, Júlia e para minha querida mãe, dona Luíza. Meu pai, o pastor César, era um homem justo, e sempre ajudava os irmãos da igreja. Ele lia a Bíblia todos os dias, e quando terminava, lia de novo. Para ele, um cristão deve sempre ter a Palavra na ponta da língua e a Bíblia como guia em todas as ocasiões.

Minha irmã, Júlia era muito esforçada e era professora das criancinhas da EBD, sinceramente, não sei como ela aguentava! Tinha uma paciência de Jó! Puxou para o papai. Já eu era muito zangada, pavio curto. Se pisasse no meu calo, ah, sai da frente! Minha mãe puxava minhas orelhas quando tomava ''certas'' atitudes:

— Clara, esta saia esta muito curta!
— Clara, você passou maquiagem demais!
— Clara, que nota baixa é essa?
— Clara, sabe que horas são?

 O engraçado é que ela também era meia esquentadinha, mas mesmo irritada, aspirava elegância. Nunca conheci uma mulher tão bem vestida como minha mãe... Acordamos cedo, tomamos o nosso café de todas as manhãs, e antes de sair de casa, papai fez uma oração em família. Sempre fazíamos. Éramos uma família unida. Entramos no carro, um gol bem simples e com a pintura desbotada. Júlia estava com fones nos ouvidos escutando Fernanda Brum, pela milésima vez:

— Júlia, você não cansa de escutar uma mesma faixa?
— O que eu me canso é de ouvir você reclamar! E você? Porque não escuta essas músicas hein, Clara?
— Não é da sua conta sua chata! — Nesse momento, papai interrompeu:
— Que feio. Duas servas de Deus, discutindo picuinhas no carro! Júlia der exemplo. Você tem 21 anos, e você Clara, já é uma mocinha. Comportem-se ou eu corrijo as duas.
— Sim papai!  falamos juntas.

Mocinha! Argh! Como eu tinha raiva dessa palavra. Ela marcou o dia mais vergonhoso da minha vida, foi quando tinha 13 anos e acordei com a cama ensopada de sangue. Minha primeira menstruação. Fiquei assustada. Para minha mãe foi uma alegria. Mais uma "mocinha" em casa. Para meu pai, ele via como um problema. As meninas daquela idade só pensavam em namorar... Para meu desgosto, nunca tive namorado e nem ficante até hoje, não por causa da severidade do meu pai, mas porque não valia a pena namorar esses meninos cabeça vazia, que só pensavam em vídeo game e pornografias. Eu escolhi esperar meu príncipe e sentia que este dia estava perto...

 Chegamos na igreja, e todos os irmãos começaram a nos saudar. Era bastante legal esta confraternização. Eu gostava muitíssimo! Até que apertei a mão dele...


— Você aqui?  Falamos juntos.


CAPÍTULO 2



— Então vocês dois já se conhecem? — Perguntou a minha mãe.
— Sim mãe este é...  Acabara de esquecer o nome dele. Vendo meu esquecimento, ele mesmo respondeu:
— Sou Felipe, senhora. Estudo no mesmo colégio que a sua filha. - Para quem era mudo há dois dias, até que ele conversava bem com gente mais velha.
— Por favor, me chame de Dona Luíza. Então, jovem, de onde você é? – Ai, mamãe quando começava a falar...
— Vim do interior, tratar de assuntos importantes.
— Ah, e pretende ficar na igreja?
— Claro. Não há melhor coisa do que servir ao Senhor Jesus.
— Então seja bem vindo. Pode sentar perto dos jovens da igreja.
Minha mãe era ótima em fazer visitantes se sentirem como se fossem de casa.

Mila apareceu na igreja, com aquele vestido super meigo, lilás, e me abraçou:
Ei amiga, quase cheguei atrasada. Clara, você viu quem tá ali?
— Sei é o novato da nossa sala. Felipe.
— Ah! Até que hoje, ele venho bem vestido, hein?!
— Nem reparei! –Mas, realmente, ele estava bem vestido. Camisa social azul, sapatos engraxados e calça jeans preta bem passada. Ele viera bem arrumado para o culto.

Felipe não falou com os outros jovens. Apenas sentou-se, abriu sua bíblia e começou a meditar...  Todos os jovens que estavam com celular na mão acessando Facebook, e com fones nos ouvidos, olharam de imediato para ele como se ele fosse um bicho do mato, e logo começaram a cochichar entre eles:

— Quem deixou o novo convertido sentar aqui?
— Ele nem faz parte do grupo de louvor.
— Como ele se acha certinho! Lendo a Bíblia só para não conversar com a gente...
— E vestido desse jeito? É claro que ele é metido!

Mal o conheciam, e já estava falando mal dele, mas, em minha opinião, dava para ver que ele não tinha nada de convencido. Papai fez uma ótima pregação. Estava mudando de ideia a respeito do novato, até que, no fim do culto, quando fui falar com ele, simplesmente foi embora em disparada, e nem confraternizou com os irmãos da igreja. Meu pai ainda tentou falar com ele:

— Espere jovem. Nem tive tempo de conversar convosco.
— Desculpe pastor, mas, tenho coisas importantes para fazer. 
— Entendo. Vejo você a noite?
— Ok!  E andou apressadamente. 
Meu pai apenas disse: — Que a paz esteja contigo meu filho. E se virou para mim:
— Esse menino tem um grande pesar no coração. Seria bom se você conversasse com ele em vez de ir atrás dos outros e julgá-lo.
— Pai, eu não...  Ele me interrompeu:
— Você não filha, mas, eu vi o comportamento dos outros jovens. Muito feio da parte deles.

Se fosse apenas os jovens... As irmãs da igreja Tereza e Marta, começaram a fofocar. Elas eram as fofoqueiras "oficiais" da igreja, e por causa de gente como elas, a igreja tinha uma má reputação lá fora. Falaram que ele era um rapaz esquisito e como novo convertido, logo, logo iria se desviar:

— Ai Tereza esse menino me parece ser mal companhia.
— Com certeza Marta. Novo convertido não dura muito. Basta sentir cheiro de cachaça que já larga a igreja.
— Hum! E quando dá a vontade da carne de fornicar, Tereza. Deus me livre!
— Será Marta?
— Conheço um fornicador de longe menina. Se eu tivesse filha Tereza, deixaria bem longe dele!
— Verdade amiga! Só vem pra igreja pegar as irmãzinhas.

Nossa! Que línguas de cobra! Maior cara de pau. Eu bem ali escutando tudo e elas nem tiveram vergonha em está fofocando na casa de Deus.

Mila venho falar comigo:
— Você viu isso amiga? A mesma reação na escola.
— De sair correndo como se tivesse sendo perseguido.
— Ele pediu desculpas por ter derrubado os seus livros?
— Não. A única coisa que ele fez foi ter apertado minha mão no início do culto.
— Nossa, que menino estranho. Mas, mesmo assim é tão gato!
— Mila se comporte! Você é uma filha de Deus.
— Hihihihi! - Riu toda sem graça.

Pra falar a verdade, ele tinha certo charme, apesar de seu semblante triste. Parecia que guardava um segredo, uma grande tristeza, como meu pai falara.
Júlia estava me chamando e entregou para mim, e para Mila, um monte de folhetos:

— Hoje tem evangelização, viu mocinhas? E nada de desculpas esfarrapadas.
— Sim Júlia! – Dissemos Mila e eu
— Quero ver os jovens entregando folhetos para a vizinhança. Vamos trabalhar!

Mila e eu passamos a tarde toda, na evangelização entregando folhetos, e a noite, logo no culto de domingo, ele não compareceu. Fiquei imaginando o que um rapaz tão jovem deveria está fazendo de tão importante assim. Com certeza estava na internet vendo besteiras, ou na casa de algum amigo jogando no Xbox. Não sei por que estava perdendo tempo pensando nele. É óbvio que ele era estranho. Ai não! Eu já estava o julgando que nem o pessoal da igreja. Deve ter sido por isso que ele foi assistir o culto. Deve ter escutado aquele povo julgando ele, e resolveu não ir...

Ai o despertador tocou. Não acredito que a segunda-feira chegara tão rápida. Tomei um banho bem demorado, lavei meus longos cabelos com um xampu com cheiro de morango. Em seguida vestir meu uniforme escolar, organizei minha mochila e desci para tomar café:

— Tchau mãe! Tchau pai.
— Tchau filha. Vá com Deus e volte com Ele. -Disse meu pai. Minha mãe me deu um beijo na testa. Mesmo tendo 15 anos, eu gostava desse tipo de carinho. Meu pai era pastor, mas, não tinha salário. Ele rejeitara. Dissera que pregar a Palavra de Deus, não é um comércio. Ele trabalhava consertando móveis antigos. Minha mãe também se virava. Era uma ótima costureira e no tempo livre, vendia perfumes pela revista. Júlia trabalhava em uma loja de roupas no centro da cidade e, era uma ótima atendente. Tratava seus clientes super bem. Mesmo não tendo luxo na minha casa, e nem meu pai sendo um pastor milionário (como certos por aí) eu podia dizer que tinha uma vida abençoada. É claro que sempre corriam boatos na igreja a respeito do trabalho do meu pai, mas, ele nem ligava, pois sempre dizia que a recompensa dos justos é um imenso galardão.

Como gostava desse caminho de casa. Vendo as árvores, as flores, as borboletas no caminho: uma obra perfeita de Deus. Passei na casa de Mila para podermos ir juntas para a escola. A mãe dela atendeu a porta:
— Paz do Senhor dona Flor. A Mila não vai hoje?
— Não querida. Ela está com febre deste ontem a noite.
— Puxa, mas, na igreja ela parecia tão bem.
— Agora ela está dormindo. Mas, vou dizer para ela que você passou aqui.
— Diz que mandei um abraço e assim que chegar da escola eu ligo para ela.
— Tá bom querida. Paz.
— Paz do Senhor.

Era estranho não ter a Mila ali perto tagarelando. Cheguei na escola, e Felipe já estava lá. Sentei perto dele. Meu pai disse para conversar com ele, e não o julgar... A professora de espanhol, Srtª Rita chegou e foi logo saudando a todos em espanhol. Ela sempre fazia isso no começo de cada aula, e eu adorava:
— Buenos dias, clase.
— Buenos dias, profesora! — Todos respondíamos.
— Meus amados alunos, tem una tarea para usted fazerem em duplas! Usted irão cantar una canción em español ¿Qué tal? Todos coloquem seu nome em pieza de papel e coloque aqui nesta caja. E eu irei sortear as duplas.  Todos se alegraram. As patricinhas logo falaram:  Espero pegar o novato gatinho. Eu não tava nem aí, desde que a Shirley a menina mais fútil da sala, fosse minha parceira. 

Coloquei a mão dentro da caixa, e retirei um papel com um manuscrito com o nome "Felipe".

Felipe? 


Felipe era meu parceiro! Agora ele não poderia me ignorar. Íamos que ter que fazer esse trabalho juntos. 


Na hora do intervalo, fui até onde ele estava. Estava lendo um livro na biblioteca. Cheguei até ele e disse:
— Oi Felipe, sou Clara e somos parceiros de espanhol.
— Eu sei quem você é. É a filha do pastor.  Engoli em seco.
— Então... não vou ter falar muito de mim. 
— Eu também não gosto de tagarelar. Olha se for para o seu bem, é melhor apenas se focar no dever, e tentar parar de falar comigo.
— O quê? Do que está falando?




— Não posso ser seu amigo Clara, já tenho vários problemas. 

 Pegou a mochila que estava no chão e saiu da biblioteca me deixando sozinha..


CAPÍTULO 3 



Que cara mais estúpido! Como ele pode me ignorar dessa maneira, ali na biblioteca, na frente de todo mundo? Fiquei tão sem jeito! Não sabia nem o que fazer depois desse corte. Fiquei tão desajustada! Como eu queria que a Mila estivesse ali. Ela teria dado uma boa bronca nele. Mais agora eu precisava me concentrar no meu dever de casa, com ele ou não! Não precisava da ajuda dele e nem dele, esse ignorante, brutamontes, sem noção!  De uma coisa eu tinha certeza, ele era ótimo para magoar os sentimentos alheios.

Comprei meu lanche na cantina, um sanduíche e um copo de suco de maracujá. Sentei na mesa perto da janela. Gostava de ver os bem-te-vis no seu ninho.
A aula de matemática passou como vapor. Ainda estava chateada com Felipe, com sua grosseria. Já ele parecia nem ligar...

Tivemos aula de arte, alguma coisa sobre Arte Moderna, não prestei atenção. Estava muito focada em como falar com o Felipe na hora da saída. O sinal tocou e novamente ele fugiu de mim. Eu já não o achava estranho, mas, em meu coração sentir que ele precisava de ajuda. Se fechar de tudo e de todos não ia adiantar. E pela expressão dele quando falou comigo na biblioteca, algo grave tinha acontecido, mas ele preferira guardar para si. Hoje meu dia não estava indo tão bem. O engraçado é que ele começou tão bem, mas tava indo para um rumo de mal a pior...

Depois do festival de gelo de Felipe, tive que aguentar as fofoquinhas maldosas da Shirley, e para piorar na hora da saída, caiu um temporal daqueles. Peguei uma chuva tremenda, e nem tinha levado guarda-chuva. E ainda no caminho, um carro cheio de mauricinhos, jogou aquela água suja em cima de mim. Ah, só Jesus na causa.

Cheguei em casa parecendo um pintinho molhado. Meus pais mão estava em casa, apenas Júlia, que estava sentada no sofá, costurando umas camisas para as criancinhas da EBD. Assim que entrei em casa, ela me olhou com uma cara e prendeu os risos. Nem liguei, fui direto ao banheiro tomei um bom banho, depois coloquei meu uniforme na máquina de lavar, pois ele tava cheio de lama, por causa daquele bendito carro. Finalmente almocei: frango, salada e purê de batata, meu almoço predileto e de sobremesa, um sorvete de chocolate. Quando subo as escadas, Júlia veio logo me perguntando:

— Aconteceu algo na escola? Você está bem estranha maninha! — Ai, como ela era sarcástica. Eu também sabia ser.
— Tirando o fato da minha melhor amiga não ter ido, de ter sido ignorada pelo meu colega de classe, aguentar os sarros da Shirley, e pegar um temporal daqueles, tá tudo numa nice. Não aconteceu nada.
— Certeza Clara? Só isso? Parece que teve um dia cheio...
— Tá bom. Sabe que eu não consigo esconder nada de você...  — Apesar de Júlia e eu batermos boca, na maioria das vezes, ela era uma boa amiga.
— Sabe o Felipe?
— Sei o novo convertido da nossa igreja.
— Pois é! É que somos parceiros de espanhol e temos que pesquisar uma música e apresentar para a professora. Mas, acho que ele não se interessou muito pelo trabalho, então vou fazer a minha parte.
— Porque não disse antes? Aqui tenho um CD perfeito para você.
— Tá bom... Valeu irmãzinha!  Dei um abraço nela e subi para o quarto para fazer uma enxurrada de dever de casa.

Mamãe estava na vizinha vendendo perfumes da revista e meu pai viajou para um congresso de pastores. Acho que por esses dias, a igreja iria ficar na mão do pastor auxiliar. Ele fazia a maior falta, principalmente na hora do jantar, quando vinha com seus discursos.
Subi as escadas bem rápido. Queria logo fazer as atividades e conversar com a Mila e saber como ela tava de saúde.

Acabei ficando exausta com todas essas tarefas, estou com um pouco de soninho. Matemática cansa os neurônios. Vou tirar só um cochilo...Ainda são 15:30h, dá tempo de sobra de fazer outras coisas. Olho para o relógio 19:45h. 19:45h? Fala sério! Essa não! Eu tinha que ligar para Mila. Ela deve tá super chateada, ainda mais agora que ela tá doente. Vai pensar que eu abandonei ela...
O telefone só chama. Até que...

— Alô?  Disse uma voz bem rouca do outro lado da linha.
— Mila é você?
— Clara, você me abandonou! - Sabia que ela ia falar isso.
— Não é nada disso amiga. É que o meu dia hoje foi meio louco. Mas, não falemos de mim e sim de você.
— Eu tô com muita febre. Deve ter sido aquele sol forte que eu peguei ontem de tarde, na hora da evangelização.
— Sua mãe já chamou o médico?
— Já! E ele disse que eu tô desidratada. Pra você ter uma ideia Clara, até minhas bochechas estão rosadas de tanta febre.  Enquanto escovava meus cabelos, Mila perguntou:
— E na escola? Teve alguma avaliação hoje?
— Não. Só um trabalho de espanhol pra ser feito em duplas.
— E eu sou sua parceira certo?
— Infelizmente, não.
— Você me abandonou Clara.
— Para de ser dramática. A professora mandou a gente colocar nosso nome num pedaço de papel e colocar em uma caixa. Foi um sorteio, um tiro no escuro pra ser exato.
— E quem é sua parceira? Não vai me dizer que é a Shirley?
— Não... é o caladão do Felipe.
— Felipe? Que sortuda hein?!
— Sortuda? O cara é o maior grosso. Fui falar com ele sobre o trabalho e ele me destratou na frente de todo mundo da biblioteca.
— Ah, mais que sem noção! Se eu tivesse lá.
— Deixa pra lá Mila.
— Como assim pra lá? Não se deve tratar uma dama como se não fosse nada. Mulher é que nem flor querida...
— Lá vem você.
— Amanhã é outro dia, e já estarei melhor pra ir para a escola.
— Ainda bem. Aguentar o dia sem a sua tagarelice é uma tortura!  Rimos as duas. É como ela mesma falou. Amanhã é outro dia...

Acordei no mesmo horário, penteei meu cabelo do mesmo jeito e vestir meu uniforme escolar. Tomei café e me despedir da mamãe. Passei pela casa de Mila, que novamente não pode ir pra escola. Agora sua garganta estava inflamada. Mas, nem conversamos muito ontem?

Entrei na escola, sentei na minha mesa e Felipe sentou perto de mim. E falou:
— Bom dia, Clara. — Eu estava louca ou ele falou "bom dia, Clara"? Para não ser mal educada, respondi imediato.
— Bom dia. — Era bom ver que hoje ele acordara de bom humor.
 Na hora do intervalo, comprei meu lanche de sempre e sentei na mesa de sempre e por incrível que possa parecer, Felipe passou por mim, colocou a sua bandeja na mesa, sentou e falou algo que eu não esperava:
— Desculpe pelo que disse ontem. — Fiquei perplexa e resolvi o desculpar:

— Tá tudo bem. Eu o desculpo. O Senhor Jesus nos ensina a perdoar não uma vez, mais 70x7. 
— E a sua amiga como ela está?
— Com febre e a garganta inflamada. — Queria ir para outro ponto. — Felipe porque você foi grosso daquele jeito então?
— Clara, é que tenho passado por problemas pessoais. As pessoas não entendem. Acham que só porque sou jovem, não tenho uma vida com problemas.
— Então, porque não fala para mim? Olha somos da mesma sala, da mesma igreja e do mesmo bairro. Você tem que confiar em alguém.
— Só Deus dirá... Quer conversar sobre o dever de casa? Estou mais calmo agora.
— Hum, hum!  Afirmei.  É pelo visto, ele não era tão ignorante assim. Felipe só precisa desabafar sobre sua vida e esse dia teria que chegar, mais cedo, ou mais tarde.

Não conversamos muito, apenas fizemos projetos e sugerir  algumas músicas do CD da minha irmã, que poderíamos utilizar na tarefa. 
— Então, você toca algum instrumento?  Perguntei.


CAPÍTULO 4



— Gosto de tocar violão, apesar de saber só algumas notas.
— Legal. Na igreja o grupo de louvor tá precisando de alguém que saiba tocar violão. Porque não disse que sabia?
— Eu ouvi o que disseram de mim Clara. Só não deixei de ir a igreja, porque meu compromisso é com Deus, e não com as pessoas.
Ele não era uma pessoa ruim. Não era nada daquilo que as irmãs Tereza e Marta falaram dele. Não sei porque as pessoas levantavam calúnias contra ele. Só porque a vida dele não era um livro aberto? Ai meu Deus! Agora eu estou o defendendo na mente!

— Gostei de falar com você.
— Por que?  Perguntei toda boba.
— Você é a única pessoa desse bairro, que não me olha torto e nem me julga.
— E porque eu faria isso.  Ele permaneceu calado, olhando para o copo de suco de acerola. Como se naquele copo, tivesse a resposta para alguma dúvida.

Parece que nesta semana não terei problemas com o Felipe. Ele parecia tão bem, mas, não estava alegre. Parecia um pouco cansado, sonolento. Para alguém tão jovem, porque ele tinha essas olheiras? Cara de quem não dorme há séculos. Porque ele não conta sua situação. Porque será? Durante toda a nossa conversa, Shirley e as amigas dela não paravam de olhar para a gente. Ela tinha uma raiva em seus olhos, que eu decidir não encarar. Ela não tolerava nenhum garoto deixá-la para escanteio:

— Parece que a Shirley tá furiosa por você está conversando comigo e não com ela.
— Quem é Shirley? — Tentei segurar meu riso. No mundo dele, ela deveria ser invisível.

Terminando nosso intervalo, jogamos os copos de suco e guardanapos no lixo e fomos assistir as aulas de Química e uma hilária aula de Literatura com uma professora muito atrapalhada. Mas, apenas Felipe, em uma classe com 35 alunos, não esboçou nenhum sorriso. Seu corpo estava ali, sentado, mas, a mente, parecia vaguear, enquanto a mão trabalhava no automático e escrevia tudo que estava na lousa.

Na hora da saída, me despedir pela primeira vez:
— Eh, tchau Felipe.
— Tchau Clara.
— Felipe, vejo você na igreja?
— Talvez.  Disse com um sorriso meio torto, mas não chegava a ser um sorriso. Era raro ver ele sorrir...

Papai já havia chegado de viagem. Meio cansado, mas com muita energia. Sentou na poltrona, onde pode aliviar as costas. Dei um abraço nele e perguntei como foi a viagem:
— Cansativa minha filha. Evangelizamos lugares que realmente necessitavam de Jesus. Teve vários batismos, registramos até em fotos.
— Puxa pai que legal! Queria poder ter ido.
— E aquele menino, o novo convertido?
— O Felipe?
— Ele mesmo. Como ele está?
— Ele está bem, eu acho. Parece que está sempre cansado na escola.
— Ora filha, ele deve ter algum emprego. Muitos jovens trabalham na idade dele. Amanhã falarei com ele na igreja e vou visitar em sua casa.
— Ele é meu parceiro na tarefa de espanhol. Se quiser, pode conversar com ele aqui mesmo.
— É uma boa ideia, filha.
— Cadê a mamãe e a Júlia?
— Estão escolhendo a decoração da sua festa de 16 anos. - Falava enquanto bocejava.

Deixei papai descansando na poltrona. Eu estava mesmo ansiosa, porque só faltava uma semana para o meu aniversário. Tinha que preparar os convites, o salão, o bolo, a decoração e o mais importante: meu vestido! Mamãe e Júlia debatiam sobre qual cor deveria ser ele. Elas estavam mais ansiosas do que eu! De pontinha de pé, escutei todo o debate:
— Como eu já fiz 16 anos antes, e sei como deve ser, acho que a cor do vestido deverá ser roxo. — Disse Júlia com nariz empinado.
— Ah, não Júlia. Não combina com o tom de pele dela. Deve ser rosa bebê. — Debateu Mamãe.— Além disso todo mundo sabe que o vestido tem que ser em tom suave. — Continuou.
— Nada a ver mãe.  Retrucou Júlia. — Que tal um vestido em azul marinho com babados?
— Mas é claro! Por que não pensei nisso? O vestido tem que ser branco, para combinar com as flores. — Até que eu resolvi me intrometer.
— Dá licença, dona Luíza e dona Júlia, mas quem não decide a cor do vestido não sou eu?  Elas se entreolharam sem graça. E depois começaram a rir:
— Olha só a gente. Discutindo como se a festa fosse nossa. — Falou minha mãe.

Eu tinha que convidar Felipe também. Afinal, quase ninguém conversava com ele. Eu não queria que ele se sentisse um rejeitado.
— Então filha, já sabe quem vem para o seu aniversário?
— Ah, ainda não, mas com certeza a Mila vem!  E por falar em Mila.
— Clara, Mila ligou para você. Melhor retornar a ligação e ver se ela está melhor.
— Tá bem.  Subi as escadas e digitei o número dela no meu celular. Tá dando ocupado. Vou mandar uma mensagem de texto. Pronto. Enviada. Opa. Recebi uma de volta. É da Mila.

*cade vc sua doida? vc me abandonou. :(
*o_0 ?

Incrível como até em torpedo, Mila era dramática:

*Aff, para de drama.já estou indo aí na sua casa. 
*vem rapido senao vou achar que vc tem outra melhor amiga.preciso falar com vc.
*eu tbm.
*sera que vc pode dormir aqui em casa hj? por favor :)
*vou pedir permissao para os meus pais.
*ta ok. bjs.
*bjs S2

Mila me mandou um torpedo querendo me ver. Também queria ver ela, conversar. A tagarelice dela fazia mesmo muita falta! Eu ainda tinha que passar na casa dela para entregar o dever de casa atrasado. E bota atrasado nisso! Avisei meus pais que ia dormir na casa da Mila, e eles deixaram. Fiz minha mochila, e coloquei meu uniforme escolar. Abotoei meu casaco cor de canela, porque lá fora tava frio. Eram 4 da tarde, mas, estava parecendo que era 8 da noite.

Chegando na porta, Dona Flor me atendeu e mandou eu subir. Disse que Mila estava no quarto assistindo filmes. Como era de se esperar. Sempre que ela adoecia, assistia aquelas filmes românticos antigos e chorava como um bebê, acompanhada de todo tipo de petisco.

Entrei no quarto, e vi uma Mila debulhada em lágrimas, rodeada por pacotes de Cheetos, e por lenços de papel, com olhos vermelhos de tanto chorar:
— Que filme é esse?
— "O Vento Levou". Muito tocante.  Dizia enquanto assoava o nariz.
— Trouxe o seu dever de casa atrasado. E a febre? Já passou!
— Estou bem melhor para ir para a escola com você amanhã. Senta aqui. Me fale as novidades.  Sentei na beirada da cama, enquanto ela se ajeitava toda animada, e o cabelo todo emaranhado por passar muito tempo deitada.
— Felipe finalmente falou comigo e me pediu desculpas.
— Nossa, pensei que ele fosse morrer mudo!
— Mila!
— Hehe, foi mal.
— Ele foi muito gentil comigo hoje. Só espero que o humor dele não mude de uma hora para outra...
— Hum. Tá ficando interessada nele.
— Eu-- eu não!
— Até gaguejou. Tá sim, tá sim.
— Argh! As vezes você parece criança. Você sabe que a Shirley ta de olho nele, mas, ele não liga
para ninguém, só para os estudos. Hoje ela me olhou, como se fosse arrancar meu coração. O Felipe tá sempre cansado, com olheiras, e expressão triste.

— Sabe, Clara mamãe ouviu e me disse algumas coisas sobre o Felipe e talvez você não goste.
— O que foi que inventaram agora?
— Não é invenção! Sabia que ele tem 18 anos?
— Não.Não sabia. O que ele tá fazendo no 2º ano? Ele já devia ter terminado os estudos, né?!
— Exato! Ele já ficou reprovado, porque era o pior aluno da classe. Ele já  foi mandado para um reformatório e já foi até preso! Dizem que ele fica até tarde na rua, andando com quem não presta.
Eu não acredito nisso!
Ah, e mais Clara. Ele já até engravidou uma menina na cidade dele, e não assumiu a paternidade!
— O quê? Isso não pode ser verdade!


CAPÍTULO 5

Não dava para acreditar em todas aquelas palavras que saíram da boca de Mila. Eu sei que o Felipe era fechado, até meio estranho, mais tudo aquilo e o fato dele ter um filho na rua, não entravam na minha mente. 

A mãe de Mila venho nos dizer que estava tarde para ver filmes, e que era melhor irmos dormir.
Mila abriu um saco de dormir para mim e dormiu em sua cama abraçada com seu ursinho de pelúcia. Havia me esquecido de que ela roncava alto, mas, eu não estava com nem um pouco de sono. Tudo aquilo que ela falou sobre Felipe, que era reprovado, que foi mandado para o reformatório, que foi preso, e que negava paternidade, giravam na minha cabeça e me faziam crer que tudo o que falavam dele era a mais pura verdade.

O despertador tocou... Nem parece que se passaram onze horas. E olhamos que fomos cedo para a cama: nove horas da noite. Mila desperta toda preguiçosa e me pergunta se eu havia dormido bem. E pela minha cara eu não dormir nada! Só queria manter distância do Felipe. Ele era uma má influência. Escovamos os dentes, nos arrumamos e descemos as escadas para comer as panquecas da mãe de Mila que eram as melhores! 

Chegamos na escola, e Mila narrava todo o filme que a gente tinha visto na noite anterior. Típico dela, mais eu não dava atenção. Felipe estava no banco da escola, lendo um livro com capa de couro, devia ser a Bíblia, quando eu passei por ele, Felipe olhou para mim. Desviei o olhar e continuei a andar do lado da Mila, e ele continuava a me olhar.

Na sala da aula, ele me encarava. Acho que esperava uma atitude minha. Eramos colegas de trabalho. Uma hora eu devia falar com ele, mais não conseguia. Eu estava com raiva por ele ter omitido o passado. Na hora do intervalo, lanchei do lado de Mila e de uma menina chamada Priscila. Ele passou com a bandeja perto de nós e me olhou com uma cara de tristeza. Eu nem liguei para isso e voltei para meu suco de morango, e a tagarelar com as meninas.

A aula de Literatura passou como fumaça. Mas, na hora da saída não teve jeito. Na hora que saí pela porta, ele ficou na minha frente e de Mila e falou:
— Posso falar com você a sós?
— É melhor eu ir! Tchau Clara! — Disse Mila
Esperamos ela ir embora e nos sentamos no banco. 
— Porque você me evitou o dia todo? Fiz algo para você? Achei que quisesse ser minha amiga? 

Então eu desabei:

— Você é tão cínico! Como ousa falar comigo, depois de mentir para mim? Eu sei de tudo!
— O quê??? — Perguntou ele confuso.
Então me levantei e ele pegou na minha mão.
— Clara eu não menti. Mas, também não disse a verdade.
— Me solta. Quero ir pra casa.  Falei alto.
— Quer a verdade? Vou contar a verdade!  Disse ele em tom firme, olhando profundamente em meus olhos.



CAPÍTULO 6

Meus olhos estavam encharcados... Porque Felipe estava fazendo isso comigo? Porquê ele me escondia a verdade? Será que era tão ruim assim?

— Me solta por favor. Quero ir pra casa!
— Deixa eu te explicar!  Ele insistia.
— Não vou te escutar!
— Vou te contar a verdade, mas, antes tem que acreditar em mim. — Eu já estava prestes a chorar. Não conseguia controlar as lágrimas.
— Não chore Clara, eu te peço!
As pessoas passavam por nós e me olhavam como se eu fosse uma louca. Algumas cochichavam algo como "menina boba", "chorona". Enxuguei minhas lágrimas com as mãos, até que Felipe me ofereceu um lencinho azul:

— Vamos para outro lugar. Aqui todos estão reparando em nós.
— Está bem. É culpa minha, eu sou muito escandalosa.
— Não é você. São as pessoas que são metidas e fofoqueiras. Não quero que sujem seu nome. Vamos para uma lanchonete.
— Ok.  Tentava ao máximo falar pouco com ele. Ainda estava magoada. Queria muito que aquela rede de mentiras acabasse.

Fomos a lanchonete do Seu Garcia, que era famosa por ter o melhor sorvete de baunilha da cidade. Nos sentamos e ficamos olhando o menu. Estava envergonhada. Nunca havia tomado sorvete com ninguém, muito menos um garoto...

— Pode pedir, Clara, eu pago.
— Por que está fazendo isso?
— Fazendo o quê?
— Evitando a verdade. 
— Eu contarei Clara, mas, antes quero me desculpar por tê-la feito chorar.

Seu Garcia trouxe um copo imenso de sorvete de baunilha com uma cereja em cima e pela primeira vez, sentir uma coisa estranha no estômago. Felipe olhava para mim, mas, não com cara de tristeza, mas de quem estava prestes a rir.

— O quê foi?
— Você está suja de sorvete. Está muito engraçada;
— Há, há, há.  Debochei. Mas, era bem legal vê-lo sorrir.
— Vai me contar agora?
— Vou. Está pronta?
— Hum hum. — Concordei com a cabeça. Queria começar com as perguntas básicas "De onde era" "Onde estudou" etc. porém, ele começou a narrar sua própria história.

Felipe olhava para o copo de sorvete de baunilha, suspirou e falou:

— Vim do interior da cidade. Meu pai era um homem que jamais assumiu responsabilidade de seus atos. Apenas pagava pensão, e minha mãe já doente, tinha que trabalhar como empregada doméstica. O dinheiro não dava para muita coisa, mas, ela me amava muito, e sempre abria mão de suas coisas, para comprar algo para mim. Comecei a trabalhar em um mercadinho para pagar as contas. Nisso, acabei atrasando meus estudos, e fiquei reprovado. Meu pai cortou a pensão, porque eu já era de maior, então eu trabalhava mais para ter dinheiro. Estudava a noite e ficava extremamente cansado. Tudo piorou quando descobrir que a minha mãe estava com uma doença gravíssima. Minha mãe tinha leucemia... 

Felipe fechou os olhos. Dava para perceber que ele tivera uma vida muito difícil. Era duro ver ele segurar as lágrimas. Pensei em parar por ali, mas ele continuou.

— Viemos para cá, para a cidade, onde sua irmã, a minha tia, nos hospedou em sua casa. As crises eram constantes, ela chorava por causa das dores e vomitava muito por conta da quimioterapia. Comecei a trabalhar em uma oficina para comprar os remédios dela. Meu pai nunca me ligou. E eu constantemente me perguntava: " Onde está Deus? Por que ele não a cura?". Minha tia, que é evangélica, percebia minha agonia e descrença, e quando minha mãe já estava fraca, ela nos levou a uma igreja, e pela primeira vez desde o tratamento, minha mãe sorriu. Ela quis saber mais da Palavra e aceitou Jesus poucos dias depois. Quando ela ficou mais fraca, ficava no hospital com uma Bíblia. Minha tia ficava com ela uns dias, eu ficava outros. Minha tia me matriculou no meio do ano, pois ela queria que eu fosse um adolescente normal. Até que minha mãe descansou em paz... Nunca deixei de ir a igreja. Todos os dias oro a Deus, por ter salvo a minha mãe antes dela morrer. A Bíblia me guia sempre. Falto os cultos porque ainda preciso trabalhar. Minha tia não pode se esforçar muito. Agora cuido da minha tia. Ela é como se fosse minha segunda mãe.

— E o seu pai? — Questionei.
— Eu nem sei se é vivo, e nem quero saber. — Falou com rancor.
— Mas, e o reformatório e as prisões, e a menina que você engravidou?
— O quê? Do que você está falando?
— Bom, é isso que as pessoas cometam de você.
 Ha, ha, ha. — Ele riu bem alto.  As pessoas tem uma imaginação fértil. Sou pai e nem sabia! Ha ha ha. Clara é a primeira vez que eu falo, ou tomo sorvete com uma menina.
— É.. pois é... Eu também...  Fiquei muito sem graça em acreditar em um monte de mentiras.
Tive apenas um amigo, Pedro. Ele fazia coisas erradas, tentei avisá-lo, mas, foi preso várias vezes. Não sei o que aconteceu com ele depois que fui embora...

Já estava anoitecendo, e eu precisava ir para casa, minha cabeça latejava de dor e vergonha, por tê-lo acusado de tantas coisas, sendo que a sua vida fora tão triste... Felipe pediu a conta, pagou os dois sorvetes, e me perguntou:
— Pronta para ir para casa? Te acompanho até lá.
— Obrigada.

Quando saímos da lanchonete, Felipe escutou uma voz que o chamava e uma figura familiar saiu das sombras das árvores, o fez mudar a expressão. Parecia que tinha visto um fantasma:

— Ei, Felipe, lembra de mim?


CAPÍTULO 7

— Quem é você?  Perguntou Felipe
— Sou eu Felipe. Eu sou tio Alfredo! Não lembra de mim?
— Tio Alfredo? Não,acho que não lembro... — Falou Felipe enquanto tentava lembrar
— Ah é. Você era só um bebê quando te vi pela última vez. Agora já é um rapaz. E essa moça? É sua namorada?  Perguntou o tio.
Felipe e eu coramos.
— Não tio, ela é só a minha amiga de escola.  Falou ele rapidamente
— Sim, somos só amigos.  Disse em um tom mais alto
— Ah, tudo bem. Vocês formam um casal bonito.
— Bom, eu estou levando ela para casa. Já está tarde e amanhã tem aula

Imediatamente me lembrei do trabalho.Faltava dois dias para entregar..
— Tem notícias de seu pai? — Perguntou o tio

Felipe ficou calado. Seu semblante mudou completamente. Ele ficou sério. O tio dele percebeu o desconforto que causou e mudou de assunto:

— Então tudo bem meu sobrinho. Eu já vou indo para casa. A gente se ver outro dia Fica na paz de Deus. E proteja essa mocinha viu? Tchau. — Falou o tio Alfredo,e eu fiquei corada de novo.
— Está bem tio. Tchau. -Se despediu Felipe

Depois disso, passamos pela praça e ficamos calados durante nosso trajeto para casa. A lua cheia estava linda, e eu senti uma enorme vontade de apertar mão de Felipe. Resolvi puxar assunto para quebrar aquele clima tão esquisito.

— Então o trabalho de espanhol... como vamos fazer?..  Tentei puxar assunto

Felipe olhava para frente. Então puxei a camisa dele para ele olhar para mim:
— Alô? Terra para Felipe! Você ouviu o que eu disse?
— O que? Desculpe Clara. Acho que to no mundo da lua.  Se justificou ele. Amanhã na escola conversamos. Chegamos na sua casa
— Já chegamos??? Nem percebi!
— Então tchau Clara.  Ele ia se virando então falei bem alto por impulso
— Espera Felipe!!!
— Sim?
— Quer vim para a minha festa de 16 anos? Vai ser daqui a uma semana
— Vou vim com certeza. Até amanhã.

Enquanto  ele caminhava, a luz do luar,o iluminava. Ao abrir a porta de casa, Júlia começou a me interrogar:
— Como foi o encontro?
— Não foi encontro. Só tomamos sorvete.
— Clara tá namorando! Clara tá namorando! Clara tá namorando! Clara tá namorando! Clara tá namorando!  Repetia Júlia. Nossa! Como ela era irritante.

Subi as escadas. Tranquei a porta do meu quarto. Não ia deixar ela estragar minha noite. Logo agora que finalmente Felipe se abriu comigo,e conseguimos conversar... Já era um passo dado. Amanhã a gente ia se falar mais na escola. Apenas queria entender porque meu coração estava tão acelerado...


CAPÍTULO 8

Tive um sonho tão bom... Estava em um campo de flores brancas, e Felipe estava lá. Ele pegava minha mão e a gente começava a dançar valsa. Depois o despertador tocou.

Acordei  alegre e bem cedo, mais cedo que o normal e meditei na Bíblia.

Abri o livro de Eclesiastes e comecei a lê-lo. Senti uma paz ...“Há tempo para tudo...” Será que eu estava no tempo de mim apaixonar?

Hoje era sexta, amanhã eu não veria o Felipe. Precisava  caprichar na make. Nada muito vulgar. Sombra rosa claro, um gloss nos lábios e um pouco de blush  para dar um ar de saúde. E pus lacinhos nos meus cabelos.

Tomei meu café, despedir dos meus pais. Júlia já havia saído para o trabalho. Ufa! Eu não teria que escutá-la como ontem, com aquela riminha sem graça “Clara tá namorando! Clara tá namorando! Clara tá namorando!” Ela me tirou do sério.

Passei na casa de Mila e bati na porta:

— Oi amiga. Nossa você tá chique!
— Que nada Mila, eu só fiquei com vontade de me arrumar, só isso...
— Ah tá. Sei...Ai por falar nisso, me conta tudo. Como foi ontem?
— Nada demais ... Felipe e eu só conversamos um pouco e depois tomamos sorvete.
— Então foi um encontro?
— Não foi um encontro! Affs! Você tá parecendo a Júlia agora! — Falei um pouco irritada
— Desculpa Clara não precisa se zangar.
— Tá. Desculpa também.

Eu não conseguia ficar de mau com ela.

Na sala de aula, Felipe ainda não havia chegado, mas, Shirley e suas seguidoras já estavam lá fofocando como sempre.  Shirley venho em minha direção, e falou:
— Não pense que vai conseguir tudo o que quer. A guerra só começou. — Desafiou Shirley
— Do que ela está falando?  Perguntou Mila
— Eu sei lá. Ela deve ser louca.

O primeiro horário era de matemática. Oh matéria detestável!
Depois do primeiro horário, Felipe chegou e sentou-se no lugar de sempre perto de mim.

— Bom dia, Clara.
— Bom dia, Felipe.

Por alguma razão, meu coração disparou. Ele sempre sentou perto de mim, porque só agora isso foi acontecer???

Era aula de química e Felipe estava super concentrado em todos os elementos da tabela periódica. Ele era tão inteligente... Porque eu estava tento esses pensamentos estranhos sobre ele?
Tocou o sinal. Acabou a aula. Felipe saiu da sala. Mila veio falar comigo, sobre um livro que ela pegou emprestado na biblioteca:

— “Para Sempre”?  Perguntei
— Nossa, o romance é super fofo. É sobre um casal....
— Não dá spoiler. Qualquer dias desses, eu leio esse livro tá?
— A história pode ser muito ''complexa'' pra você.  Debochou Mila.
— Tá me chamando de "loira burra"?  Rimos juntas.


— E a propósito, quem é seu parceiro do trabalho de espanhol?  Perguntei.
— Ah, sim. É Priscila. Priscila vem cá.  Chamou Mila.


Priscila estava sentada no fundo da sala. Tinha um cabelo castanho-escuro e usava rabo-de-cavalo com um laço rosa na cabeça.  Seus olhos eram verdes. Ela era mais alta que as garotas da idade dela, e mesmo assim, eu nunca havia reparado nela. Tentava me lembrar dela...:


— Priscila? Ah, sim. Lanchamos juntas ontem. Oi!  Falei
— Oi...! – Ela era alta, mas era muito tímida.
— Ei vamos lanchar juntas de novo?  Convidei
— Tá...tá bem! – Ela era muito tímida, mas, ao mesmo tempo fofa.
— E o Felipe? Qual canção vocês escolheram? — Perguntou Mila
— Ele só me deu bom dia. Nem reparou nos meus lacinhos de cabelo...
— Homens são assim mesmo amiga.  Disse Mila

Na hora do intervalo, fomos lanchar as três juntas. Priscila comprou um sanduíche vegetariano com suco de laranja e Mila comprou milk-shake de baunilha. Eu estava em dúvidas...

— Anda amiga. O intervalo tá acabando! – Apressava Mila
— Calma. Eu não estou com fome. Queria encontrar o Felipe para falar do trabalho. É pra terça que vem e eu não sei onde ele está.
— O trabalho... agora... será escrito. Não precisa... ser cantado. — Falou timidamente Priscila
— Menos mal, né amiga?!  Falou Mila
— Você tá procurando o Felipe? — Perguntou Otávio,  um dos meninos mais inteligentes da sala. Percebi que Priscila ficou corada quando olhou para Otávio.
— Estou sim. Sabe onde ele está?
— Está na biblioteca Clara.
— Obrigada Otávio. Meninas eu vou lá.

Andei bem depressa, ajeitei meus lacinhos e a minha saia abarrotada. Queria que Felipe dissesse que eu estava bonita. Novamente pensamentos estranhos...

Mas, ao entrar na biblioteca me deparei com uma cena que partiu meu coração. Shirley e Felipe estavam sentados juntos,  bem juntinho, e ela estava passando a mão em seus cabelos, ele estava deixando.

Não conseguir segurar minha angústia. Enquanto ele me ignorava, a Shirley ele tratava bem?

Sai correndo. Passei pelas meninas tão rápido, que nem ouvi o que elas me disseram.
Entrei no banheiro. Tranquei a porta. Só queria chorar em silêncio. Não queria que ninguém me visse... Por que meu coração doía tanto?


CAPÍTULO 9


Novamente, lágrimas desciam pelos meus olhos. Lágrimas:

"Porquê? Porquê meu coração doía? Porquê isso importava tanto?"
O dia estava tão bem, e tinha virado aquele desastre. Eu não queria sair daquele banheiro, não importava o que ia acontecer. Será que eu o amava? Porquê Senhor? Porquê?... Alguém está batendo na porta... "Por favor, me deixem chorar sozinha..." pensava.
— Amiga, você tá aí?  Mila batia na porta com um tom de voz preocupado.
— Clara pelo amor de Deus, o que houve? Você passou pela gente como um raio! Anda abre essa porta!  Insistia ela.  Se não abrir a gente vai arrombar!!!

Abrir a porta, mas, sem um pingo de vontade de encará-las. Não queria dizer o motivo. Estava confusa, tonta, sem chão... Priscila segurava uma bolsinha rosa com florzinhas. Mila começou a me dar bronca:


— Eu sabia que você estava chorando. Por isso pedi para a Pri trazer o estojo de make. Olha só, você tá toda borrada.  Dizia enquanto passava um lencinho no meu rosto. Priscila pegou pó compacto e um batom rosa claro e me deu.

— Acho.. que combina com você Clara. — Falava mansamente.
— Obrigada. — Falei
— Agora, me conta: o que diabos você viu pra sair correndo que nem uma louca daquele jeito? Foi o Felipe? Ele bancou o grosso de novo?

— Aí, quem dera... Ele, estava na biblioteca com aquela vulgar da Shirley. Não entendo. Ele me ignora, troca poucas palavras, mas, quando eu o vi, dando toda a atenção do mundo a ela, eu não sei o que deu em mim. Eu queria fugir, me esconder. Não queria que ele me visse chorando.

— Clara.. Você o ama? — Perguntou Priscila timidamente, enquanto Mila e eu a encarávamos.
— Só pode né Clara! Isso é nada mais e nada menos do que amor!  Afirmava Mila.

— Não pode ser Mila, eu mal o conheço e eu nunca senti isso por nenhum garoto. Toda vez que eu chego perto dele, meu coração dispara, e quando ele fala comigo, parece que meu estômago  está cheio de borboletas... Na primeira vez que eu o vi, eu o achava metido, depois queria descobrir mais sobre ele, depois fiquei com raiva, depois com pena, e agora meu coração está doendo...


— É amor. Não tem outra explicação. E o que você sentiu ao vê-los juntos, foi um ataque de ciumes, e dos brabos.  Mila falava enquanto mexia na bolsinha rosa.


— Meninas... o intervalo está... acabando...  Priscila parecia nervosa. Não queria chegar tarde na sala.


— Tá bom, deixa eu só terminar a make da Clara. Pronto! Tá parecendo uma princesa. — Eu não estava me sentindo uma "diva", mas, a Mila tinha ótimas mãos para maquiar e quem sabe no futuro, ser uma maquiadora de sucesso.

— Meninas, por favor, não contem nada para ele. Na hora certa, eu digo isso a ele. Prometam! Tenho medo do meu segredo cair em mãos erradas!  Ordenei
— Prometemos! — Elas falaram juntas.
— Mas, Clara se a Shirley já está atacando então, boa coisa não é amore. Você vai ter que agir!  Me incentivou Mila.
— Eu sei, se o Felipe gostar dela, então é sinal de que ele não me merece. E eu saberei perder...

Saímos do banheiro, depois de um longo bate-papo cheio de revelações. Não queria ficar novamente de mau com Felipe, logo agora que no dia anterior, tomamos sorvete e conversamos sobre o passado doloroso dele. Mas, também não queria o perder. De qualquer maneira, eu teria que agir normalmente do lado dele. Não quero que meu ataque repentino de ciúmes estragasse nossa amizade. E se fosse um mal entendido? E se eu interpretei a cena na biblioteca errado? Vai ver, ele só estava ajudando a Shirley em algum dever de matemática ou física, sei lá...


Entramos na sala. Era horário de Física. O professor já estava na lousa quando entramos. Passamos por ele, que nos encarava, e disse:

— Mais vejam só! Chegam atrasadas e nem perdem permissão. Como é que se diz? — Toda a a sala estava rindo de nós três e Priscila estava super vermelha.
— Podemos entrar professor?  Falamos juntas.
— Podem entrar e da próxima vez se entrarem escondidas, vou mandá-las direto para a sala da diretora.  Ai, professor maldito. Não estrague o meu dia!


Sentei do lado de Felipe, depois daquela constrangedora cena do professor de Física. Felipe estava olhando para mim:
— O quê foi, Felipe? Tem alguma coisa no meu rosto? — Perguntei baixinho.
— Não, é só...
— Só...
— Você está linda! -— Meu Deus do céu! Ele não disse isso! Vou ter um piripaque. Estou me sentindo tão quente...
— Clara você está bem?  Perguntou Felipe
— Estou sim, porquê?
— Seu rosto está com um rubor...
— Deve ser febre. — Tentei dá uma desculpa
— Clara onde você estava? Procurei por você para falar sobre o trabalho de espanhol. Fui até no refeitório, mas você e as meninas não estavam lá.  Ele estava me procurando... Meu coração está muito rápido. As batidas estão fora de controle..
— A gente estava por aí. E você?
— Shirley pediu me ajuda na biblioteca. Era uma atividade de matemática. Mais como eu vi que ela é um caso perdido, desistir e deixei ela sozinha lá, e fui procurar por você.  Ele dispensou a Shirley e foi procurar por mim? Felipe, por favor pare de falar, senão, vou desmaiar aqui na sala de aula.

— Em todo o caso, é ótimo conversar com você. A Shirley não é meu tipo de garota.  Falava enquanto se voltava para o livro de Física.   "Shiley não é meu tipo de garota..." Essa frase ecoava na minha mente.


Estava me sentindo tão bem, e ao mesmo tempo arrependida por ter desperdiçado minhas lágrimas. "Shirley não é meu tipo de garota". He he he


Meu coração batia em um ritmo, como nunca bateu igual por ninguém, e Felipe estava fazendo aquilo. Desde o primeiro momento em que olhei para aqueles olhos verdes, nunca imaginei que algo assim pudesse acontecer... Eu queria ajudá-lo a vencer o passado triste, mas agora, eu estava envolvida na sua história e com certeza, eu queria ser o seu futuro! Só não sei se o meu pai ia gostar de ver sua filhinha caçula namorando...


Depois de Física, tivemos aula de Literatura e Mila aproveitou para passar recadinhos:


"O que vocês conversaram?"

"Você não vai acreditar! Ele disse que eu estou linda"
"OMG!!"👅👄


Essa Mila era uma graça. Depois disso a professora tomou o bilhetinho da minha mão, e começou a -lo na mente e ela ficou toda sem jeito e com a cara vermelha e me devolveu. Quem mandou ler o que não deve?


Na hora da saída, Shirley passou por mim, com um rosto de fúria mortal: 

— Não pense que é o fim. A guerra nem começou.
— E eu não vou perder. - Desafiei. Nunca me senti tão bem, e tão enrascada.

Fui com as meninas e Mila falava do professor cabeça de batata (apelido carinhoso do professor de Física) e reclamava que estava com fome, enquanto Priscila ria timidamente. 

Enquanto ríamos as três, uma voz me chamou:
— Clara, espere.  Era o Felipe
— Vai com ele, a gente fica bem.  Encorajava Mila
— Tá bem! — Andei até ele, novamente me sentindo quente...
— O que foi Felipe? É sobre o trabalho de espanhol?
— Não, é que amanhã é sábado... O que você vai fazer amanhã?
— Eu nem sei... amanhã pela manhã tem ensaio com os jovens.
— E a tarde? — Perguntou ele.
— Geralmente fico em casa lendo algum livro. Por quê?
— É que eu não vou poder te ver... Clara, você quer sair comigo?

Oh, Meu Deus!! Meu coração palpitou rápido demais depois desse convite.




CAPÍTULO 10



Estava afundada em meus pensamentos, em meus delírios, imaginando Felipe e eu, em um barquinho pelos rios de Veneza, e de repente Felipe me beijava docemente...

— Clara? Tudo bem? Então, o que me diz? — Perguntou Felipe
— Sobre o que? - Perguntei meio confusa
— Sobre o que acabei de perguntar. O ensaio da igreja. Posso ir junto?
Então, ele não não havia me convidado, eu havia imaginado tudo? Ele só queria conhecer o ensaio da igreja? Meu Deus que vergonha;
— Ah, sim... o ensaio.. eu sempre saio de casa as 6:30h e passo na casa da Mila. Se quiser ir para conhecer a rotina, pode ir, assim você conhece os jovens e quem sabe, faz até amizades né?!
— É quem sabe.. Vejo você lá. Tchau. — Falou Felipe enquanto se virava para ir embora.


Meus pensamentos estavam descontrolados. Eu imaginei que Felipe havia me convidado para sair. Quase que passo um mico ali. Ainda bem que estava só nós dois. 

Logo na frente, perto de uma árvore, as meninas estavam me esperando. Ansiosas e com um sorriso maroto no rosto:
— Então? O que ele perguntou para você? Vão sair em um encontro?  Perguntou Mila.
— Não. Ele só queria ir para o ensaio, para conhecer melhor os jovens da igreja. E eu...
— Eu o quê?— Perguntou Mila novamente.
— Nada não. Vamos andando? Já tá ficando tarde.
— Meninas... Eu posso ir também? — Perguntou Priscila timidamente
— Que legal Pri, você querer ir para a igreja! Claro que pode!  Falei empolgada. Priscila sorriu para mim. Andamos as três, rindo e conversando muito.

Chegando em casa, comecei a ouvir o CD da Aline Barros, que usaria para que os jovens cantassem no domingo à noite. A música seria "Geração Bem Aventurada". E daí lembrei do trabalho de espanhol. Eu já havia concluído e até coloquei o nome do Felipe, apesar dele não ter me ajudado, mas, como eu estava me dando bem com ele resolvi colocar... Toda vez que lembrava do Felipe, meu coração batia forte... Felipe, como eu queria que você soubesse... 

Copiei a letra da música, e falei para minha mãe que ia sair para tirar uma xerox. Fui na livraria, lá tinha uma copiadora. Pedi para a moça tirar umas 10 cópias. Coloquei as folhas na minha pasta cor de rosa para não sujar.  
Enquanto caminhava na rua, vi Felipe em uma oficina com um macacão sujo de graxa. Ele não me viu.  Mesmo daquele jeito, ele continuava bonito "Clara para com isso. Tá parecendo a Mila." 
Resolvi passar para dizer um "Oi" ou qualquer coisa. Estava tão nervosa, que estava rindo sozinha.

 Atravessei a rua. 

— Oi Felipe!  Falei bem animada
— Oi Clara, tudo bem? — Deu um sorriso torto enquanto recolhia as ferramentas.
— Tudo. Acabei de tirar as xerox da música. Você vai ao culto hoje? Papai quer muito ver você lá. sabe tem um tempo que não te vi mais na igreja. E para meu pai, passou dois dias sem ir, já tá desviado.
— Não se preocupe, não estou desviado. Eu vou hoje.
— Parece que você trabalha a beça. Felipe... Eu..  Nisso apareceu um outro garoto, com macacão azul sujo de graxa, e nos interrompeu.
— Ei Felipe, quem é essa belezura aí? É sua garota?  Falou enquanto olhava para mim. Aquilo estava me deixando desconfortável.
— Mais respeito Mike. Ela é a filha do pastor.  Falou Felipe em tom de voz sério
— Então não é sua namorada? E aí gata? Eu to disponível viu!?  Que garoto grosseiro. Será se ele não percebia que eu não estava a vontade com aquela conversa.
— Olha, me desculpe mas não sei que tipo de meninas você conhece ou tem se relacionado, mas, eu me dou respeito e não saio com qualquer um.  Percebi que ele ficou com raiva.
— É o veremos. Já vi muita filha de pastor bancar a santinha, mas no fundo são todas assanhadas.
— Mike, já chega!!! É melhor parar com isso, e respeite a Clara!- Felipe falou em tom de voz que me espantou. Ele me defendeu daquele cara.
— Calma cara. Olha o estresse. Já parei! — Dizia o garoto em um tom de sarcasmo, olhando para mim. Eu não gostava nada, nada dele.
— Melhor eu ir embora. Desculpe por incomodar.  Dizia.
— Vejo você na igreja, Tchau.

Cheguei em casa e papai estava de malas prontas. Ia viajar de novo em uma conferência de pastores e e mamãe ia junto dessa vez. Iam ficar uma semana fora:
— Ah mãe. você não pode ficar. A Júlia sempre quer mandar em mim!
— Ela é a mais velha, Clara, e você tem que obedecer. Prometam que não vão brigar!  Falou minha mãe:
— Prometo.
— Nada de festas na minha ausência e nada de dormir tarde.  Ordenou meu pai. 
— Ok pai, eu vou obedecer.  Falei fazendo continência.
— Filha a Júlia vai chegar um pouco tarde hoje por conta do serviço, então não se atrase para ir a igreja.
— Fica com Deus filha.- Falou papai enquanto beijava minha testa.
Eles entraram no carro e mamãe acenava para mim da janela. Vida de pastor era difícil, raramente meu pai e minha mãe ia ao cinema, ao parque, eles viviam para a obra de Deus e isso me deixava tão feliz.

Tomei meu banho, usei o vestido que mais gostava: rosa. Me perfumei e peguei a minha Bíblia. Júlia chegou cansada do trabalho,  estava com dor nas costas e dor de cabeça, disse que não ia e que era para mim orar por ela.

Passei na casa de Mila, que estava com uma saia jeans linda e camisa preta de gola, e fui no carro com os pais dela que eram super gente fina.

O culto foi maravilhoso. Quem dirigiu foi o pastor auxiliar. Felipe apareceu e estava bem vestido, com uma camisa social branca e calça jeans. Ele sentou atrás. Quando eu fui louvar, ele estava olhando para mim, e eu corei. Teve uma pregação sobre perdão. E depois uma oração maravilhosa.
No fim, todos nós nos confraternizamos, e fiquei surpresa em ver Felipe confraternizando com os demais irmãos, até com as fofoqueiras da igrejas, as irmãs Tereza e Marta, apertaram a mão dele. 
Mila me avisou que os pais dela e ela iam comer em uma pizzaria. Quer dizer que eu ia para casa sozinha?

— Vou acompanhá-la para casa. Ordens do pastor.  Falou uma voz conhecida
— O quê?  Perguntou toda boba
— Seu pai passou na oficina, para reparar o carro para poder viajar e me pediu para cuidar de você.
— Sério?  Estava ficando corada, meu coração estava disparado.  Papai não tem jeito.
— Parece que seu pai confia em mim.
— Você é uma boa pessoa. E sobre hoje desculpa pela má impressão que causei no seu trabalho.
— Meu colega de trabalho é um idiota. Só pensa em beber e em promiscuidades. Vamos indo. 

Da minha casa até a igreja era uns trinta minutos, de carro o tempo era reduzido. Era só dez.
Eu não me importava de andar até a minha casa. Desde que Felipe estive ali do meu lado... 
Ficamos o caminho inteiro em silêncio. Ele ficava lindo sério.
Quando chegamos em casa, Felipe resolver falar.
— Clara, acho bom você não ir mais a oficina, o Mike ficou interessado em você de uma maneira que eu não gostei. Ele não presta.  Ele estava com ciúmes de mim
— Tudo bem Felipe, eu não gosto dele. Não tenho interesse nem por homens com o perfil dele. Eu...
— Boa noite Clara. — Ele me interrompeu. — Amanhã tem ensaio você precisa dormir.
— Boa noite Felipe.  Ele virou as costas e se foi. Aquele menino mexia comigo, me levando em casa pela segunda vez.

Eu queria tanto dizer que o amava... Mas, não queria precipitar-me!

Tranquei a porta da frente. Júlia estava dormindo. Entrei em meu quarto. Vesti minha camisola. Estava sendo uma noite perfeita. Meu aniversário seria daqui uma semana e com certeza queria ver Felipe presente.


CAPÍTULO 11


Depois de despertar de um sono terrível, sou levantada pelo cheiro bom do café da manhã de Júlia. Ela parecia bem feliz, enquanto colocava o café em uma xícara de porcelana, e passava manteiga na torrada. "Cheiro bom" , pensei.

— Bom dia Júlia, que animação é essa?
— Bom dia, minha linda irmã. Deus não é maravilhoso? O dia está lindo, o sol está lindo, o céu está lindo...  Falava com um brilho no olhar.
— Eu sei, está tudo lindo. Agora preciso me arrumar. Hoje temos ensaio com os jovens e Priscila e Felipe vão visitar a igreja.
— Ai, que legal, convide mesmo seus amigos da escola pra conhecer a igreja, é a melhor coisa a fazer.
— Tá certo. Então já vou me arrumando, mas, antes vou tomar esse café-da-manhã que parece gostoso.

O relógio marca 7:00h. Está na hora de ir para a igreja. Júlia ficou em casa assistindo desenhos animados. Parece criança na frente da TV.

Passo na casa de Mila e sua mãe diz que ela foi buscar uma amiga em casa. Deve ser a Priscila.
Continuo andando. A igreja está fechada. Ainda bem que trouxe a minha chave.

Em todo o caso, os jovens só iam aparecer 8:00h ou 8:30h, e eu ainda tinha que varrer o chão, limpar as cadeiras. Os ensaios são sempre fadigantes, porque, com o perdão da palavra, os jovens são umas pestes. Não calam a boca, vivem no celular e não prestam atenção para o que eu digo. Eles simplesmente me enlouquecem. Pedi para o meu pai, dar meu cargo para outra pessoa, mas ele diz: "Cada um carrega sua cruz!". Poxa pai. Alivia para o meu lado!

De longe reconheço uma figura de cabelos pretos espetados: Felipe. Com seu all-star surrados, calça jeans, camisa preta e jaqueta vermelha xadrez. De repente, do nada, fiquei feliz, igual como Júlia estava na cozinha:

— Bom dia, Clara.
— Bom dia, Felipe, está aqui há muito tempo?
— Cheguei as 6:00h.
— E ficou esse tempão aqui fora? Em pé? Me esperando? Porque não me ligou?
— Eu não tenho o seu número.
— Eu sou uma tonta, né?! Como sou idiota. Eu esqueci de repassar o numero para você? Sou muito esquecida!
— De qualquer jeito, eu não tenho celular mesmo. Não sou rico para ter um!  Felipe estava de mau humor. Essa não. De novo não! No céu, nuvens ameaçadoras de chuva se formavam.
— Vamos entrar? Parece que vai chover. — Sugeri.

Coloquei minha pasta rosa sobre o púlpito, liguei o som, coloquei o CD, botei num volume baixo, e comecei a varrer a igreja. Felipe me pergunta:

Tem mais uma vassoura?
— Sim, tem uma vassoura sobrando lá no quartinho dos fundos.  Mais do que depressa Felipe começa a varrer. Alguns jovens começam a aparecer. Ah sim, para você parar com sua dúvida: somos 10 jovens no coral da mocidade, mas, apenas, 5 ou 6 aparecem e geralmente, são os mais bagunceiros.

Mila aparece em seguida com Priscila, que está portando um guarda-chuva:

— Você veio mesmo Pri. Fico feliz em te ver aqui.  Falei com muita alegria.
— Obrigada... Clara.  Disse Priscila timidamente, como sempre.
— Eu disse pra ela não trazer esse troço. Nem vai chover, só tá nublado.  Gritava Mila.
— Deixa Mila. Ela é uma menina prevenida. E porque você tá gritando? O som está baixo!
— Foi mal. Ontem fomos para a pizzaria e em frente, tinha um boteco tocando umas músicas ruins e em volume alto. Por causa disso, fiquei meia surda. Apareceu até a polícia, porque eles estavam incomodando e meu pai achou melhor irmos embora. — Explicou Mila.
— Pelo que vejo.... Felipe está te ajudando né?  Perguntou Priscila.
— Sim, ele veio bem cedinho. Se eu soubesse, tinha vindo mais cedo. Vamos começar o ensaio.

Apareceram mais jovens. Fiz uma pequena oração, para começar bem o ensaio. Coloquei a música para tocar.Distribuir as cópias para todo mundo. Foi aí que começou a baderna. Meninas fofocando, meninos mexendo no celular, fulana se maquiando, sicrano cochilando. Eu não sabia o que fazer... Me senti tão impotente...

— Gente vamos prestar atenção na música. É para domingo. — Mais eles continuavam com a bagunça.
— Por favor, pessoal, vamos prestar atenção. Só um pouquinho.  Mas eles continuavam.

Algumas meninas, estavam falando mau da Priscila, por ela ser muita alta e tímida. Priscila escutou e estava se sentindo péssima, eu pude notar.... Foi daí que uma voz apareceu e colocou ordem.

— Vocês gostam de falar né?! Então vou fazer um desafio aqui! Quantos livros tem a Bíblia no Velho Testamento e no Novo Testamento?  Todos ficaram calados, olhando para Felipe.
— Ninguém sabe. Vou fazer uma pergunta mais fácil: Quem foram os três primeiro reis de Israel? — Continuavam calados, agora cabisbaixos.
— Nenhuma resposta. Vou tentar mais uma vez: Quem escreveu o Salmo 90?  O silêncio predominou o ambiente e agora estavam constrangidos
 Não acredito que ninguém sabe a resposta!  Falou em um tom de sarcasmo.  Mas, vocês estavam tão "falantes", tão empolgados, porque não falam agora?  

Eu fiquei perplexa com a atitude de Felipe. Nunca o vi tão determinado, tão sério...

— Da próxima vez, fiquem de boca calada e prestem atenção ao o que é dito aqui na frente. Deus está vendo tudo o que vocês fazem!  Disse enquanto saia da igreja. Mila ficou de queixo caído, e Priscila ficou idem. Ela sabia que Felipe teve aquela reação porque os jovens estavam falando mau dela. 

Precisava falar com Felipe.

— Mila, continue aqui com o trabalho, preciso falar com ele.
 Tá amiga, pode deixar. Os garotos ficaram mansinhos.

Sair correndo atrás de Felipe:
— Felipe, espere!  Ele se virou assim que ouviu a minha voz.
— O que foi? Voltaram a fazer baderna?
— Não, eu vim agradecer. Obrigada. Essa situação me deixou constrangida. Sou líder de jovens e nem sei lidar com eles, me desculpe pela má impressão Felipe, por favor.  Controlei as minhas lágrimas.
— A culpa não é sua. Não precisa levar a culpa por eles.  Disse enquanto passava a mão na minha cabeça.  Estou tendo um dia difícil. 
— Eu posso ajudar.. podemos conversar, por favor desabafe comigo, não me der gelo como das outras vezes, eu não quero que você fique de mau comigo, eu gosto de falar com você estamos caminhando bem, Felipe eu te...  De repente fui interrompida por um abraço. Felipe em um impulso, me abraçou.

— Só isso me basta, Clara. Você é uma boa amiga.

Ficamos ali um bom tempo. Parados, juntos em um abraço. Poderia até ser um abraço de amizade para Felipe, mas, meus sentimentos eram outros e meu coração estava rápido, disparado. Senti o perfume que Felipe carregava em sua jaqueta.
— Melhor não. Alguém pode ver e falar mau de você. — Dizia enquanto me afastava com um pequeno empurrão.  Preciso ir, tenho que ajudar minha tia em casa. 
— Eu posso ir junto? Visitar sua tia?
— Outro dia eu levo você, Clara. Tchau.  Falava enquanto caminhava pela rua, me deixando sozinha...

Será se íamos passar por momentos difíceis de novo? Será se Felipe não sente o mesmo que eu? Meu coração doía novamente, será a Shirley tem mais chances do que eu? Quando ele vai parar de me ver como amiga?.... Meu Deus, o que eu faço???  

Levemente a chuva molhava meus cabelos... Tempestade estava a vista.


CAPÍTULO 12 (NARRADO POR FELIPE)

Sábado, 4:35h.

Prometi a Clara que ia para o ensaio da igreja, apesar de não está com nenhuma vontade de ir... Minha tia, Vanusa, aparece na porta do meu quarto, me pede para comprar leite e pão, para o café-da-manhã, mesmo relutando em ficar na cama, eu vou, afinal, estou com fome. Levanto da cama, e de repente me vem um pensamento...


— ''Preciso me apressar. Clara já deve estar na porta da igreja. E pela cara desse tempo, logo, logo vai chover.''  Tia Vanusa aparece de novo.
— Felipe, o que você vai dizer para o seu pai?
— Agora não tia. Não quero falar sobre isso.
— Mas, filho, ele é seu pai. Você precisa perdoá-lo.
— Só Deus sabe.  Falei em um tom amargo
— Espero que saiba o que está fazendo.  Falava enquanto se retirava. Ela estava se referindo ao que aconteceu ontem a noite.

Não entendo o que minha tia tinha na cabeça. Perdoar meu pai, era de longe, a última coisa que faria na terra. Só porque tinha o mesmo sangue nas veias. Nem o sobrenome dele eu carregava. Jamais ia perdoar um cara, que nunca quis me ver quando nasci, abandonou minha mãe na pior época, e quando ela ficou com leucemia, não quis saber de sua gravidade e ignorava meus telefonemas. Ele não quis saber de mim, e o único ato que ele realizou, foi suspender a pensão. A única renda que minha mãe tinha. Mas, parece que meu tio Alfredo não estava satisfeito porque meu pai era tão distante de mim, e resolvera parar com essa distância... 

No dia anterior, tio Alfredo telefonou para meu pai que, Deus sabe como, me ligou pelo orelhão da esquina, que era perto do meu apartamento. Eram 18:30h quando a vizinha veio correndo falar que era uma ligação para mim. Um tal de Alberto queria falar comigo.

No começo achei que era algum professor da minha antiga escola, querendo me repassar os documentos que deixei lá, mas, tive uma desagradável surpresa: era meu pai. Fui caminhando em passos leves, desci as escadas, abrir o portão e finalmente tirei o fone do gancho:

Alô?  Minha voz ficou trêmula de repente. Estranho.
— Felipe? É você meu filho?  Dizia uma voz alegre do outro lado da linha. Pude escutar umas risadas de  criança também.
 Me chamo Felipe, mas, não sei se sou seu filho. 
— Oh Felipe, sou eu, teu pai, Alberto. Sei que a gente nunca se viu, mais eu sou teu pai sim.
— Diga logo o que você quer, estou ocupado. — Fui direto ao ponto.
— Quero muito ver você. Tem quantos anos agora? Quinze? Dezesseis?
— Tenho dezoito anos.
— Nossa, já é um homem! Já tem carteira de motorista?
— Não! Olha, pode me ligar mais tarde, preciso sair.
— Tá bom, então me passa o número do seu celular.
— Não tenho celular senhor.
— Senhor não! Me chame de pai. Não tem celular? Mais todo jovem tem celular!
Tenho que ir. Passar bem.  Desliguei aliviado e transtornado.

Cheguei no apartamento. Tranquei a porta. Minha tia estava vendo um programa evangélico, e lógico, veio me perguntar, quem queria falar comigo no telefone:

— Quem era Felipe? — Perguntou preocupada.
— Era meu pai.  Falei com rancor.
— E o que ele queria?
— Dizendo ele, que queria muito me ver. Agora é fácil ele querer restaurar todos esses anos perdidos por culpa dele.
— Felipe, talvez seja melhor você perdoar. Perdoar é esquecer.
— Tia, eu posso ter o sangue dele correndo nas minhas veias, mais o que garante que vou gostar dele como pai? Ele nem sabe quantos anos eu tenho!!!
— Felipe, é assim mesmo, com o tempo você vai se apegar a ele e..
— Apegar?? Desculpe tia, mas onde ele estava quando minha mãe estava morrendo em uma cama de hospital? Onde ele estava quando fiquei reprovado e tive que trabalhar para sustentar a casa? Onde ele estava quando os meninos da rua me batiam? Onde ele está agora??
— Felipe por favor não se exalte! - implorava ela
— Me perdoe, eu...  Minha tia então me abraça.
— Eu te perdoo meu sobrinho...

***

Agora lembrando de tudo isso a caminho da padaria, pude perceber que meu pai é um cara de pau. Fui para a padaria bem rápido comprar leite e pão. Minha tia, estava  me esperando, coloquei o pão na mesa, o leite na geladeira. Olhei para o relógio na parede que marcar 5:45h

— Tenho que ir tia, prometi a uma pessoa que iria para o ensaio da igreja.
— Uma pessoa? É uma garota?  Perguntou minha tia ansiosa.  Já está na hora de arrumar uma namorada né Felipe?! Você é jovem, ou quer passar a vida trancado do mundo?
 Tia, menos né?! Fala como se eu tivesse 80 anos. E sim: é uma garota.
— Ah, eu sabia! Quem é a garota "misteriosa"? Ela é daqui do prédio? Ela é bonita? Vai trazer ela aqui? Eu quero conhecer viu?  Me fazia uma enxurrada de perguntas..
— Vou pensar. Preciso ir. Tchau.  Dei um beijo na bochecha dela. Tomei um gole de café, mordisquei o pão e sair correndo.

Era engraçado como minha tia não se irritava como eu. Ela podia perceber que eu odiava meu pai por tantos anos de ausência e tentava, assim como o tio Alfredo, nos aproximar, mas isso só resultavam em bate bocas, que eram logo, encerrados com outro assunto.

Agora, ela queria ver a tal garota "misteriosa". Na verdade, estava com vergonha de levar Clara para ver minha tia, e ela deduzir que éramos namorados, se bem que eu não ia achar de todo ruim, mas, não sei como Clara reagiria.

Lembro do primeiro dia que pisei naquela sala de aula e me apresentei. Só disse meu nome, enquanto a professora apontava meu lugar. Observei os olhares de cada um. Olhares de julgamento, desprezo, preconceito. Apenas um era receptivo, brilhante, meigo... Apenas uma pessoa me olhava diferente naquela sala e essa pessoa era Clara. Tentei me afastar, inventando desculpas, mas, o bendito trabalho de espanhol nos uniu. Quando a desprezei na biblioteca, me sentir tão mau, tão idiota, tratar mau a única pessoa que falou comigo naquela escola? Precisava concertar meu erro...  E quando ela chorou por ouvir coisas ruins sobre mim... E quando finalmente falei toda a verdade para ela e sobre meu passado triste e sofrido...


Afinal... Ela foi a única pessoa que eu abrira meu coração...


Bom, não todo! 

Ainda queria ficar longe dela, mas, depois que vi Mike dando em cima dela na cara dura, fiquei com vontade de quebrar os dentes dele. Ele só era mais forte pouca coisa. O que ele tava pensando? Que a Clara era alguma safada? Ele era um idiota! E a Clara não merece namorar com idiotas!

Fiquei surpreso, quando o pastor, antes de viajar, pediu para mim, levar a filha de volta para casa, depois do culto, em segurança. Ele confiava muito em mim, apesar de não saber nada sobre meu passado... Apenas Clara sabia.

Ultimamente tenho pensado muito nela, sei que só faz algumas semanas que entrei naquela escola, mas, eu penso demais nela. Fico lembrando do seu sorriso, das suas trapalhadas, e até do seu penteado que me recorda muito a Sailor Moon. Eu gosto desse penteado... Gosto do jeito dela...Nenhuma garota é como ela. Nem mesmo Shirley, essa não faz o meu tipo. Quando eu a ajudei com o dever de matemática na biblioteca, percebi suas segundas intenções e dei logo um basta. Não quero criar expectativas para ninguém!

Cheguei na igreja, mais as portas estão fechadas. Será se ela vai vim hoje? Melhor eu aguardar. Se ela não vier, volto para casa. Olho para meu relógio de pulso, 6:00h. Ok, tudo bem! Ela virá....

Já se passou 1 hora... Devia ter tomado meu café direito...

Vejo alguém se aproximar.. É Clara. Meu coração fica alegra só em vê-la. Sensação estranha. Isso tem acontecido desde a primeira vez em que a vi, mais prefiro não me expôr. De alguma maneira, aprendi a controlar meus sentimentos. Desde a morte da minha mãe, me tornei um garoto "frio". O sofrimento dela deve ter me afetado... Clara estava chegando... Estava com um vestido lilás, e carregava uma pasta rosa na mão. Veio depressa, quase correndo...  Devo falar bom dia? Estou meio chateado, ela não veio na hora que disse que viria. De qualquer jeito, darei bom dia:

— Bom dia, Clara.  Falei

— Bom dia, Felipe, está aqui há muito tempo? 
— Cheguei as 6:00h. 
 Falei um pouco amargurado

— E ficou esse tempão aqui fora? Em pé? Me esperando? Porque não me ligou?
— Eu não tenho seu número. 
 Como assim ela achou que eu tinha um celular?

— Eu sou uma tonta né?! Como sou idiota. Eu esqueci de repassar o numero para você? Sou muito esquecida!
— De qualquer jeito, eu não tenho celular mesmo. Não sou rico para ter um! 
 Fiquei irritado com essa pergunta. Meu pai perguntou a mesma coisa. Não devo descontar minha raiva na Clara. Ela não merece. Notei que ela ficou ressentida. Devo controlar minhas palavras daqui pra frente.

 — Vamos entrar? Parece que vai chover. — Sugeriu ela. Olhei para cima, e o céu estava cinza, apesar de ainda ser dia. Logo, uma tempestade ia desabar...

Clara pegou uma vassoura e começou a limpar a igreja. Queria que ela esquecesse minha grosseria  minutos atrás, e resolvi ajudá-la a varrer a igreja também, depois limpei as cadeiras. Os jovens foram chegando, deviam ter entre 13 a 15 anos, e eu era o mais velho dali. E as amigas de Clara apareceram em seguida.


Quando Clara colocou a música para tocar, de repente, os jovens pareciam que estavam possuídos. Eles não ficavam quietos! Falavam, mexiam no celular, meninas se maquiando. alguns estavam até dormindo. Estava sentado na última cadeira, mas, dava para ver o quanto Clara não tinha o controle da situação. Observei umas meninas, falando mau da Priscila e pensei: "Não deixarei que façam ela se sentir mal, assim como me sentir, na primeira vez que entrei nessa igreja."

Pela primeira vez, me levantei e falei em tom alto, sem tremer a voz, fiz três perguntas básicas da Bíblia, Quantos livros tem a Bíblia no Velho Testamento e no Novo Testamento?, Quem foram os três primeiro reis de Israel?, Quem escreveu o Salmo 90? mas, não obtive respostas. Eles ficaram cabisbaixos, envergonhados, por estarem na Casa de Deus, e não saberem nada sobre a Palavra de Deus. Mila, Priscila e Clara me olhavam com espanto. Dei uma bronca neles, como nunca havia dado em alguém, estava cheio daquilo. Minha paciência havia estourado desde o dia anterior..
Devia ir embora. Clara devia estar me odiando por fazer aquela cena... Vou me retirar..

Assim, que saio da igreja, Clara me chama. Não pude ignorar aquela doce voz. Havia algo naquela menina que me fazia ficar calmo... Ela veio pedir desculpas pelo comportamento dos jovens


— Felipe, espere! — Falou suplicante.

— O que foi? Voltaram a fazer baderna? — Perguntei já voltando para dar bronca neles
— Não, eu vim agradecer. Obrigada. Essa situação me deixou constrangida. Sou líder de jovens e nem sei lidar com eles, me desculpe pela má impressão Felipe, por favor.  Ela estava quase chorando. Percebi que ela estava nervosa. Porque era tão importante assim, me dá uma boa impressão?
— A culpa não é sua. Não precisa levar a culpa por eles.  Dizia enquanto passava a mão na cabeça dela.  Estou tendo um dia difícil.  Meu dia estava uma droga. Tudo culpa do meu pai! 
— Eu posso ajudar.. podemos conversar, por favor desabafe comigo, não me der gelo como das outras vezes, eu não quero que você fique de mau comigo, eu gosto de falar com você estamos caminhando bem, Felipe eu te...  De repente a interrompi com um abraço... Não sei o que ela ia dizer para mim... O abraço falou mais alto.

— Só isso me basta Clara. Você é uma boa amiga.  Falei estas palavras de consolo para ela se sentir melhor.


 Não sei porque fiz aquilo, foi de repente. Pensei no dia anterior, quando minha tia me abraçou quando eu estava nervoso, eu me sentir melhor depois do abraço. Queria fazê-la se sentir bem. Não queria vê-la chorando novamente. Não faria ela chorar novamente... Não sabia se ela ia gostar daquela reação inesperada.  Ela estava muda. Eu devo te-la assustado. É claro. Nenhum menino jamais a abraçou assim, tão impulsivamente. Se alguém da igreja, me ver a abraçando na rua, vai fazer fofocas com o nome dela. Podem falar mau de mim,  dela não! Melhor eu me afastar... Dei um leve empurrão nela, que me olhava com uma cara de espanto. Deus, não. Eu a assustei!


— Melhor não. Alguém pode ver e falar mau de você. Preciso ir, tenho que ajudar minha tia em casa. 

— Eu posso ir junto? Visitar sua tia?  Ela perguntou com um brilho infantil nos olhos.
— Outro dia eu levo você, Clara. Tchau.  Falava enquanto me virava, deixando ela sozinha....

Novamente, Clara invadia minha mente. Tudo o que eu pensava, acabava em Clara. Eu gostava muito dela, e poderia dar até a vida para protegê-la. Não quero que nada destrua aquele sorriso encantador e aquele olhar caloroso. Ela tem um bom coração. É uma boa amiga, mas... Eu não a vejo apenas como amiga... É uma pena que ela me veja apenas como amigo. Deixarei esse sentimento em segredo. Quando a hora certa chegar, eu direi... A voz dela vem a minha mente: "Quer vim para a minha festa de 16 anos? Vai ser daqui a uma semana " Verdade...Ela me convidou para a sua festa de aniversário. Precisava comprar um presente lindo, para que toda vez que ela olhasse, se lembrasse de mim...

Gotas de chuva começam a cair... Coloco o capuz da jaqueta, sobre a minha cabeça e ando mais rápido. 

Passei em uma vitrine e vi um ursinho de pelúcia. Vou entrar nessa loja para fugir da chuva... Pego o ursinho... Perfeito. A Clara vai gostar.

Clara, se você soubesse que eu... te amo.

CAPÍTULO 13

A chuva começa a desabar... Vou entrar na igreja e terminar o ensaio. Todos estão mais quietos depois da bronca de Felipe.

O ensaio termina. Algumas meninas do coral, vem de mansinho, pedir desculpas pelo mau comportamento. Eu as perdoo e desligo o aparelho de som. A chuva começa a parar. Mila pergunta se quer que ela e Priscila me acompanhe até em casa. Eu digo que não, que estou bem. Abraço as duas. Que estranho. O abraço que Felipe me deu, deixou uma sensação tão diferente...

Felipe...

A chuva começa a parar. Não está tão forte. Fecho as portas da igreja e vou embora. Não consigo parar de pensar no abraço que Felipe me deu... Era tão confortante.. aconchegante... Eu quase me declaro para ele.

Não acredito no que eu quase ia fazer! Meu Deus! Se não fosse aquele abraço, talvez agora nossa amizade estivesse perdida... Eu sei que o Felipe não sente o mesmo que eu. Ele é tão frio, tão longe, tão sério, tão maduro. O que ele veria em uma menina boba como eu? Sou sem graça, desengonçada, idiota! Porque tive que me apaixonar por ele? Eu sei que ele não me ama! Essa não eu vou chorar de novo. Pare de chorar Clara. Você não é mais criança! Lembre-se que seu aniversário de 16 anos está perto... Tenho que ser madura. Tenho que parar de ser tão infantil!

Passo em frente à oficina. Essa não! O sem noção do Mike vai querer vim com gracinhas para meu lado! (Ah claro não disse as características do Mike: cabelo enrolado castanho, olhos castanhos claro, alto, magro, um pouco mais forte que o Felipe. Acho que deve ter entre 17 ou 18 anos)

— Ei, menina, não fala mais com os amigos?  Perguntou risonho.
— Pare Mike. Hoje eu não to boa! E quem disse que eu sou sua amiga?  Falei bem irritada
— Calma, se veio ver o Felipe, ele não trabalha hoje.
— Porque se importa com isso? Eu não vim ver o Felipe!  Falei chateada
Ah não? Pois saiba que ele faltou o serviço, só para ir para o ensaio da sua igreja.
— Ele fez isso?  Perguntei espantada
— Fez! Sabia que ele corre o risco de perder o emprego?
— Até parece que se importa com ele. Naquele dia você foi o maior grosso comigo!
— Ei eu sou gente. Desculpe por aquele dia, é que eu não sei tratar bem uma garota bonita.
— Pode ir parando com essas cantadas.
— É brincadeira menina. Eu só queria ver a reação do Felipe.
— Eu e ele somos só amigos...  Falei um pouco baixo demais
— Ah tá... Bom tenho que voltar ao trabalho. Tchau.  Dizia ele enquanto ajeitava alguma coisa no carro.

Fiquei surpresa com o Mike. Ele não era o cara grosso e idiota que se mostrara no dia anterior. Então, todo aquele teatro foi para despertar ciúmes no Felipe? Eu estava mesmo surpresa...
Continuei meu caminho pensativa... Esse era o estado em que eu me encontrava constantemente... Pensativa... Meu celular toca me fazendo despertar do transe. Era Júlia!

— Clara, ainda está na rua?  Perguntou ansiosa
— Sim, mas, já estou indo para casa.
— Não, eu quero que você me faça um mega favor!
 — Fale logo. Acho que vai chover novamente!
— Compre alface, tomate, pepino, couve-flor, para a salada do almoço. Acabei de fazer o cabelo e não posso sair na rua, senão a chuva vai acabar com a minha chapinha!
— Tá, tá. Eu tenho uns R$20,00 na minha carteira. Você tá me devendo viu?!
— Quando chegar em casa eu te pago! Agora por favor, corre logo e compra o que eu te pedir!!  E desliga na minha cara. Essa Júlia não tem jeito!

Entro no supermercado da esquina, e compro tudo o que ela me pediu. Aproveito e compro uns doces para mim... Sou uma formiguinha, rsrsrs. Deu R$13,50. Ufa! Pago direitinho e saio do supermercado.

Essa não! Está começando a chover de novo...  Saio correndo que nem uma louca, e algo vergonhoso acontece: EU CAÍ DE JOELHOS NO CHÃO!!! Ai meu joelho, acho que ralei ele. Tá doendo. Não consigo me levantar... De repente, ouço uma voz:

— Tudo bem com você?  Olho para cima e meu rosto cora de vez... Era... Felipe!
— Não. Eu cai e ralei meu joelho.
— Vem eu te ajudo.  Ele me dá a mão e me puxa em um só movimento, e recolhe a sacola de legumes que havia caído longe.
— Está começando a chover...  Ele fala. Não consigo olha para ele. Estou com tanta vergonha. Me sinto tão boba... Repetir várias vezes que iria parar de ser criança, parar de ser infantil... Não chore. Clara. Engula essas lágrimas.

Felipe faz um gesto cavalheiro: ele me cobre com sua jaqueta vermelha. Acho que vou desmaiar... Percebo que ele está um pouco mais forte. Os músculos na camiseta preta o denunciam.
— Está chovendo. Melhor se proteger senão você pode pegar um resfriado. Eh... Seu joelho está sangrando.
— Ai, nossa. Caramba.  Coloco as mãos no rosto. Isso foi o ápice da minha vergonha
— Clara, você quer ir para a minha casa? Lá eu tenho curativos.
— Sua casa? - Pergunto um pouco confusa. Há algumas horas atrás, ele disse que não me levaria.
— É.. para tratar desse ferimento. Não é muito longe daqui.
— Ok. Eu quero ir sim.  Falo super animada.

Andamos algumas quadras. Era um prédio de apartamentos. Enorme pelo visto. Ainda não acredito que estou vestindo a jaqueta do Felipe... Queria poder me ver no espelho. A jaqueta com o perfume dele... Calma coração. Não me deixe na mão. Chegamos. Felipe conversa gentilmente com o porteiro, que parece ser um senhor de idade bem bondoso. Ele também fala comigo.

— Clara, este é o senhor José. Um grande amigo meu.
— Olá!  Eu digo
— Olá, Clara. É namorada do Felipe? - Nós coramos
— Não somos apenas amigos!  Respondemos juntos, o que é bem estranho.
— Tudo bem, ai ai esses jovens.  Ele sorri.

Felipe e eu continuamos andando para o apartamento:
— Dá para acreditar? Ele pensa que somos namorados. Nada ver.  Felipe fala de um jeito sarcástico.
— Eh... somos só amigos. Nada a ver...  A maneira que ele falou me deixou tão triste.
— Tem certeza que consegue subi as escadas?
— Claro, não foi tão grave assim. É só um arranhão!

Subimos as escadas, e paramos na frente do apartamento 451.
— Tia Vanusa! Sou eu Felipe!  Falava enquanto batia na porta.
— Sim, já estou indo.  Gritou uma voz lá dentro.  Felipe, já voltou? Ora, mais quem é essa linda moça?
— Essa é a Clara, tia. Minha amiga de escola.  Felipe fazia as apresentações, e eu ficava cada vez mais vermelha.
— Ora, mais entre vamos. Sente aqui no sofá. O que foi isso no joelho?  Perguntou preocupada.
— Eu caí na rua e o Felipe me ajudou.
— Acho que eu tenho uma caixa de primeiros socorros por aqui. Acho que está no meu quarto. Volto já, já!
— Não liga não. Ela tem esse jeito "mãezona" Falou o Felipe.
— Tudo bem, já estou acostumada. Ela lembra muito a minha mãe.  Sorri
— Eh... — Suspirou cabisbaixo. Eu sei o quanto a mãe dele ainda fazia falta.
— Felipe, eu não posso demorar muito. Daqui a pouco a histérica da minha irmã me liga, exigindo os legumes para a salada. Que a propósito, estão bem murchos.  Falei enquanto erguia sacola.
— Tudo bem.  A tia do Felipe aparece.
— Ai gente, os curativos acabaram. To indo na farmácia comprar. Beijinhos.  Saiu apressadamente.
— Nossa, que pressa é essa?  Falei sorrindo.
— Ela deve tá pensando que você é minha namorada.
— E você? O que acha dela pensar isso?  Perguntei meio tímida.
— Acho que vi um pacote de curativo na gaveta do meu quarto. Vou buscar.

Ele mudou de assunto? Como ele pôde mudar de assunto? E porque eu ainda estava vestindo a jaqueta dele? Vou devolver para ele e ir embora. Eu sei que ele não sente o mesmo que eu. Fui até o quarto dele com a jaqueta na mão, e o vi revirando as gavetas:
— Achei. Eu disse que estava aqui. O que foi Clara? — Disse se virando para mim.
— Eu já vou. Está quase na hora do almoço... E aposto que a Júlia não fez a salada.
— Está aqui o curativo. Deixa eu colocar no seu joelho...
— Não! Mas, que.. audácia!  Falei enquanto puxava o curativo da mão dele.  Eu mesma coloco! Nenhum homem vai tocar em mim, até eu me casar!
Você confia muito em mim né?!  Perguntou em um tom de voz estranho.
— É lógico! Você não me faria nenhum mal.
— Como pode ter tanta certeza?  Continuou no mesmo tom de voz estranho
— Felipe, você é meu amigo. não é?

Felipe me abraçou contra a parede. Não foi igual ao abraço carinhoso de hoje cedo. Foi mais forte, cruel. Agarrou forte os meus pulsos, e não consegui me soltar. Foi tão repentino... Eu fiquei sem reação...  Eu gelei... Ele olhou profundamente em meus olhos, e eu não conseguia me desviar daqueles olhos verdes... Até que ele sussurrou essas palavras no meu ouvido:

— Você devia ter cuidado em quem confia.
— Felipe... Eu...
— O mundo é um lugar sujo. Nem todos são confiáveis!
— Felipe, o quê...   Estava sem reação... Estava me tremendo!
— Ainda acha que eu não faria mal a você?
— Sim! — Ele se afastou para me ver.
— Clara, você é muito bobinha. Acabei de te dar um susto, e você nem soube reagir. Está reprovada no meu teste. Não pode aceitar um convite de um estranho e ir para a casa dele!  Aquilo foi um teste? O quê?
— Você é meu amigo, não um estranho! E por acaso, perdeu a cabeça? Achei que fosse...que fosse...
— O quê? Abusar de você? — Ele falou sem nem um pingo de medo, enquanto eu ficava vermelha. Observei o quarto dele. Alguns prêmios na estante, livros na mesinha, uma cama arrumada. Um quarto comum. No cantinho, havia um embrulho.
— O que é aquilo?  Perguntei tentando mudar de assunto
— Nada não. É bobagem.  Olhou para o relógio de pulso
Vou te levar para casa. Minha tia demorou muito, e daqui a pouco os vizinhos vão pensar besteiras porque estamos aqui sozinhos.  Felipe era tão maduro e experiente. Será se ele já...havia... Não! Não é possível!

Felipe fez aquilo para me alertar... Devia parar de confiar tanto nas pessoas. Mas, em quem? Eu não tinha amigos tarados. Ele era meu único amigo homem. A tia dele chega da farmácia, e nós já estávamos de saída. Ele explica para a tia que já estava ficando tarde. Ela entende, me abraça e pede para eu voltar de novo para a gente conversar melhor. Eu concordo. Peguei a sacola com os legumes.

Saímos do prédio e nos despedimos do porteiro José.

Durante o caminho, fiquei pensando na cena do quarto. "Será se ele faria alguma coisa comigo? Será se ele seria capaz? Porque ele fez isso?" Ele continuou calado, com as mãos nos bolsos da calça. Apesar do tempo está nublado e o céu cinza-escuro, não estava tão tarde, mas, eu tinha quase certeza que já havia passado da hora do almoço. Olhei para meu celular e vi 5 chamadas perdidas da Júlia. Ela vai ficar uma fera comigo:

— Chegamos na sua casa.
— Olha já é a terceira vez que me deixa em casa. Isso vai acabar virando um hábito. He, he. -Ri sem graça.
— Pois é. Está entregue.
— Felipe, eu quero perguntar uma coisa... Aquilo que você... Sabe, me assustou, e eu pensei tanta besteira de você.. Eu... Pensei que abusaria de mim..e...  Estava me enrolando toda.
— Jamais abusaria de você! Eu sou um homem Clara, mas, acima de tudo sou um servo de Deus e, menosprezo qualquer ato de covardia contra mulheres. Aquilo foi para te testar. Só isso.
— Então, por favor nunca mais faça esse tipo de teste. Eu fiquei com muito medo.  Ele chegou bem perto.
— A última coisa do mundo que eu quero, é que você tenha medo de mim.
— Felipe...
— Se algum dia eu te machucar... Não vou me perdoar nunca... Clara, eu...
— Sim?
— Clara... Eu.. Te.. A--

Nisso, aparece minha irmã histérica:

— Clara Maria da Silva você está frita!


CAPÍTULO 14

— Clara você faz ideia de que horas são? Porque raios não atendeu seu celular??  Júlia estava furiosa, mas, de repente quando viu Felipe, ela disfarçou.
— Quer dizer... Fiquei preocupada com minha irmãzinha querida. Como vai Felipe? Tudo bem com você?
 — Tudo. – Ele disse meio desconfortável depois daquela cena vergonhosa que minha irmã fez.
— Acho que deixei uma panela no fogão, vou ver rapidinho. Mas não fiquem aqui fora. Entrem vai chover.– Júlia estava sendo muito hospitaleira.
— Acho que não devo...  Felipe estava consentindo.
— Por favor Felipe. -Implorei. — Você já me trouxe tantas vezes em casa e eu nunca te convidei para entrar... Por favor, é rápido.
— Er.. Está bem.- Ele concordou. Eba! Meu coração estava pulando de alegria! 

Felipe entra meio acanhado, repara nos móveis, abaixa a cabeça. Peço para ele sentar no sofá, e se sentir mais a vontade. Digo a ele que vou a cozinha.


Júlia estava mexendo com a colher na panela. Ela olha para mim e começa a sussurrar:

— Vocês estão namorando? 
— Não! Ele só veio me deixar em casa!
— Depois quero todos os detalhes.
— Tá bom, sua chata.

Vou até a sala. Talvez o Felipe queira tomar um copo d'agua ou uma xícara de café. O pego olhando e segurando um porta-retratos. Era uma foto antiga. Foi a primeira viagem que eu fiz. Devia ter uns seis anos, estava meio banguelinha. Me lembro como se fosse ontem. Viajamos para Campos do Jordão, pois meu pai ia pregar em uma igreja por lá. Lembro que fiquei resfriada, e passei a viagem toda espirrando e a Júlia tirando sarro comigo. Mas, nesse dia, no dia dessa foto, foi um dia feliz. Foi um dos poucos dias, em que meu pai ficou conosco. Aposto como ele queria ficar sempre com a família, mas, o dever como pastor era sempre maior. E eu tinha orgulho disso!



— Essa é você?  Perguntou Felipe apontando para uma menina sapeca, com casaco cor-de-rosa e banguela. 

— Sim, sou eu. Estava meio resfriada nesse dia, he he.  Ri meio sem graça.
— Era muito fofa.
— Obrigada... 
— Fale mais sobre sua família.
Bom, como já sabe meu pai é o pastor, e ele não recebe salário he he. Minha mãe é costureira e as vezes vende perfumes pela revista. A Júlia trabalha em uma loja de roupas.
— E você? Quais os seus sonhos?
— Bem, eu queria fazer faculdade de veterinária. Amo bichinhos, principalmente gatos e cachorros. Mas, porque você tá me perguntando tudo isso, Felipe? Eu falei meus segredos para você. Nada mais justo que você me falar os seus também não é?
— Justo. Muito justo! Você é tão otimista e alegre, Clara. Você confia tanto nas pessoas.
— Acho que todos nós temos um lado bom.
— Até o meu pai? O cara que abandonou a minha mãe e me abandonou?
— Eh...bem... eu acho que sim Felipe! Já tentou conversar com ele?
— Odeio ele, Clara! Odeio de todo o meu coração!  Falou em um tom de voz rancoroso.
— Felipe, como posso dizer, eu sei que não é da minha conta, mas, você devia perdoá-lo... Ele é seu pai!
— Você tem razão Clara.  Disse olhando para a fotografia.
— Tenho? 
— Tem! Não é da sua conta!  Mas, o que foi isso? Porque de repente ele me tratou tão mal? Que vontade imensa de enterrar minha cabeça em um buraco na terra, ou que pelo menos Júlia aparecesse e quebrasse aquele clima. Ele colocou o porta-retratos em cima da estante, e ficou de costas para mim. Passou a mão na cabeça, como se estivesse preocupado, chateado. Coloquei a mão no peito. Estava magoada. Porque ele não abre seu coração para mim? Porquê? 


Júlia aparece com uma bandeja com sanduíches e sucos de laranja.
— Uhuul. Lanchinho! Vamos comer para ficar fortinho! Acabei de fazer!
— Não precisa Dona Júlia. — Falou Felipe.
— Precisa sim! Você tá tão magrinho. E que história é essa de Dona Júlia? É só Júlia! Sou mais velha apenas três que você! Podem comer a vontade!
— Está bem. Obrigado!  Agradeceu Felipe.

Depois do lanche, continuamos calados na sala. Até que ele perguntou:

— O trabalho de espanhol é terça-feira, certo!?
— Não se preocupe. Já está feito. Eu escrevi sobre a música que você queria.
— Ah tá..

Em nenhum momento Felipe olhou para mim. Alguns minutos depois, ele olhou para o relógio de pulso. E sem olhar para mim disse:


— Clara, estou indo para casa. Obrigado pela hospitalidade! — Girou a maçaneta, abriu a porta. Me posicionei na frente dele, com os olhos olhando para o chão: 

— Felipe...
— O quê?
— Me desculpe por causa mal-estar em você...
— Tudo bem. Já passou.  Acho que ele não estava mais zangado.
— Felipe, o que você ia me contar, antes da minha irmã atrapalhar a gente?
— Tudo ao seu tempo Clara, tudo ao seu tempo...
Felipe se virou lentamente para mim, e com um sorriso no rosto, disse:
— Tchau.
“Tudo ao seu tempo...” O que ele quis dizer com isso? Eu estava morta de curiosidade para saber o que ele ia me falar... Como fui idiota com ele! Porque eu tive que tocar no assunto do passado?

Observo ele indo embora, e lentamente fecho a porta. Júlia estava atrás de mim:
— Detalhes, quero detalhes!
— Agora não, Júlia. To com dor de cabeça. Vou tomar um banho.
— Tá bem senhorita "não conto meus segredos para minha irmã mais velha"! - Segredos... Essa palavra foi bastante problemática hoje.
— Júlia, por favor...Menos tá!  Subo as escadas.

O mais engraçado, é que pela manhã o Felipe já estava meio estranho, zangado. Depois, no início da tarde, quando ele me ajudou quando cair na rua, ele foi super gentil. Depois agiu estranho no quarto, com aquele "teste". Outra vez, foi gentil, me trazendo em casa. Depois mostrou frieza quando mencionei para que ele perdoasse o pai. E novamente, sorriu para mim. É muito difícil acompanhar as mudanças de humor dele. 

Vou ao banheiro. Tomo um banho bem demorado. Queria que aquela água levasse pelo ralo abaixo, todas as minha preocupações. Queria que ela levasse embora o rancor e a frieza de Felipe. Mas, aquilo era apenas água... Nada mais.

Deito na cama. Olho meu celular. Abro o aplicativo do Facebook. Vejo a caixa de mensagens. Mila queria conversar comigo. Depois respondo... Não estou com cabeça para nada... Depois do corte que Felipe me deu, não resta mais dúvidas: Ele não me ama...

Lágrimas descem pelo meu rosto. Coloco o travesseiro no meu rosto. Quero abafar o meu choro...


Sua voz ecoa na minha mente "Não é da sua conta..."  — Ai meu Deus, como eu não queria estar apaixonada por ele!


CAPÍTULO 15

Fui para a cama mais cedo. Júlia até me convidou para assistir um filme e comer pipoca, mas, como minha cabeça estava doendo, resolvi dormir mais cedo. Acabei desabando no choro...

Tive um sonho mega estranho... Felipe estava em um jardim com rosas vermelhas, me esperando. Sentia que aquele era o momento para confessar meus sentimentos. Quando terminei minha confissão, Felipe sorria sarcasticamente, e dizia: "Você acha que eu iria amar uma menina tola e chorona como você! NUNCA prefiro meninas ousadas como a Shirley. E a propósito: eu não te amo!".  Acordei chorando e gritando. Júlia veio até meu quarto:
— Tá tudo bem maninha?
— Júlia, eu sei que a gente não se dar muito bem, mas, eu preciso desabafar...
— Fala Clara, eu to aqui. Prometo que não vou fazer nenhuma gracinha!
— Júlia.... Eu acho que amo o Felipe.
— Eu sabia! Por isso que você trouxe ele aqui em casa! Tão namorando né?!
— Que namorando o que? Ele não gosta de mim! Me trata mau, com frieza, com desprezo. O que eu fiz para ele??
— Ai maninha, se ele é assim, então melhor se afastar.
— Mas, eu o amo Júlia!!!- E começo a chorar de novo. Júlia me abraça. Prometir a mim mesma que pararia de ser chorona, que pararia de ser fraca... Mas, não consigo.
— Eu to aqui fofa! To aqui do seu lado. Ai, ai, o amor é uma dor!

Chorei tanto, que acabei dormindo novamente. Júlia podia ser chata as vezes, mas quando podia, era uma boa irmã e amiga.

Já é domingo de manhã. Hora de ir para a EBD. Não to com nenhuma vontade de ir. Digo para Júlia ir sem mim. Ela entende, afinal, conversamos na noite passada.
Fico até mais tarde na cama. Estou realmente cansada....

De repente, alguém pula na minha cama.
— Ah não mocinha já não basta não ter me respondido no Face?  E nem foi para a EBD! Agora vai dormir até tarde? - Tiro o endredom da minha cabeça e vejo duas figuras conhecidas.
— Mila, Priscila! O que fazem aqui?  Perguntei surpresa
— Ora, viemos te dar um ar de alegria.  Falou Mila ansiosa
— Júlia nos contou...o que aconteceu. — Falou calmamente Priscila. "Júlia sua linguaruda" pensei
— A gente tava pensando em te levar para o passear fazer umas compras, fofocar... Se desligar um pouco do Felipe né?!
— Mas, Mila...  Tentei falar
— Nada de "mas, Mila". Você vai com a gente, então trata de colocar uma roupa bem bonita. Nós vamos ao parque de diversões.
— Parque é?  Perguntei incrédula
— Sim, parque sim! Você anda muito tristezinha amiga. Precisa sorrir mais. Vamos nos arrumar? Olha eu trouxe até minha câmera para a gente tirar umas fotos, colocar no Insta? Que tal?
— Ok, me convenceu! Agora deixa eu me aprontar!!!

Mandei elas esperarem fora do quarto. Vesti uma camisa bem simples, preta, ganhei da minha tia no meu último aniversário. Coloquei uma calça jeans e calcei um tênis all-star. Não coloquei pulseiras, nem colares e nem make no meu rosto. Estava simples. Mila desaprovou meu visual, mas, não falou nada, pois ela entendia como eu estava. Priscila sorriu para mim e disse que ia ser muito divertido. Gostava do jeito tranquilo da Pri. Avisei a Júlia que estávamos saindo, e ela estava na sala conversando com as senhoras da igreja e deu permissão para nós. Disse que não ia demorar muito. Parece que ela já sabia que eu ia sair...

Pegamos um ônibus, mega lotado para chegar no parque, que ficava do outro lado da cidade. Não conseguia parar de pensar no Felipe. "Se distraia Clara, por favor!" Ordenava minha mente. Quando chegamos lá, havia somente brinquedos radicais. Fiquei apavorada só de ver o pessoal gritando no Sky Tower:

— Mila você pirou! Esses brinquedos são muito perigosos!
— Eu disse que a gente ia se divertir né?! — Mila falava com um sorrisinho no rosto
— Divertir? Eu vou é morrer de tanto gritar nesses brinquedos!
— Ah, deixa disso! Vamos Priscila!  Falou Mila.
— Acho que eu vou comer algodão-doce.  Falou Priscila.
— Também vou com você! — Eu disse.
— Suas medrosas. Mais pensando bem, me bateu uma fome. Não é bom brincar de barriga vazia... Vou comer um cachorro-quente. — Disse Mila.
— Vamos fazer o seguinte. Vamos brincar só nos mais tranquilos tá?  Sugeri.
— Tá sua estraga prazeres.  Disse Mila com brincadeira.
— Concordo! — Falou Pri.

A tarde foi realmente muito divertida. Mila não mentiu para mim quando disse que eu ia me divertir muito. Brincamos muito. Fomos na roda-gigante, no carrossel, na montanha-russa, atiramos bolinhas para derrubar o moço na piscina e assim ganhar algum prêmio... Não ganhamos nada, mas, foi divertido! Tiramos fotos perto de cada brinquedo fazendo careta. A tarde passou rápido.

Até que...

— Nossa Mila, eu não me divertia assim há tempos.  Falei sorrindo.
— Eu também... gostei muito.  Disse a Pri.
— E eu sou garota de mentir. hehehe. Eu disse que vocês iam gostar. Só que eu acho que a gente devia ter feito compras também.
— Mila!  Falei
— Que foi? hehehe. Ah, Clara, não olhe agora, mas, o Felipe está bem ali. Encostado no poste.
— Não brinca comigo Mila.  Virei lentamente e Felipe, em carne e osso, estava no parque, olhando para mim.
— Amiga ele tá vindo pra cá!  Alertou Mila
— E agora?  Perguntou Priscila

Felipe veio em nossa direção. Eu não me virei para falar com ele. Estava magoada.
— Posso falar com você Clara?  Falou uma voz atrás de mim.
— Eh.. acho que vamos para a lanchonete. Bateu uma fome. Vamos comigo Pri?
Vamos!  E as duas foram me deixando sozinha.

Me viro para Felipe:
— Está me perseguindo?  Falei em um tom desafiador.
 Por incrível que pareça não! Minha tia trabalha aqui. Na barraca da Maçã do Amor. Só estou dando uma mãozinha para ela.
— Ah.. Felipe é um bom samaritano afinal! - Debochei
— Não entendi.
— Felipe... Eu... Er... Me desculpe. Não estou com cabeça para conversar... Já vou indo.
— Espere Clara.  Ele pega na minha mão para eu não ir, e isso fez com que todos os sentimentos por ele, desencadeasse.  Espere por favor. Tenho muito a falar com você.
— É ? Sobre o quê? — Falei, novamente, em tom de sarcasmo.
— Vamos nos sentar naquele banco. Tenho muito a falar com você...

Nos sentamos no banco. Havia um casal de namorados se pegando perto da gente, e Felipe e eu fomos para outro banco. Felipe senta perto de mim. Passa as mãos na cabeça, igual como fez na minha casa. Parecia preocupado, não sabia como começar.

— Olha Felipe, não precisa fazer isso!
— Preciso sim Clara. Preciso! Sei que não tenho sido um bom amigo, e te trato mal, e mereço ser castigado por isso.  Estava começando a sentir pena dele.
— Felipe que isso, eu também não tenho sido lá essas amigas com você.
— Clara, eu sou um idiota. Eu me fechei tanto das pessoas, que nem ao menos sei como te tratar. Você é uma boa amiga, sempre me escutando, aconselhando... E eu, simplesmente jogo toda a minha raiva em cima de você!
— Felipe, é sério! Não precisa fazer isso...
— Preciso sim! Quero ser um bom amigo para você! Ontem fiquei com um medo imenso de perder sua amizade!
— Felipe...
— Clara, por favor, me perdoa?

A surpresa toma conta de mim...
Felipe está me pedindo perdão pelas suas atitudes?

O que eu faço?



CAPÍTULO 16

Felipe estava ali na minha frente com uma expressão de tristeza, devo ou não perdoá-lo?
— Felipe... eu bem... é lógico que eu te perdoo. O Senhor Jesus nos diz para perdoar não só uma vez, mas setenta vezes sete. E você é meu amigo. Eu te perdoo. Pode ficar tranquilo ☺

— Clara, muito obrigado! Garanto que você não vai se decepcionar comigo! Bom, eu tenho que voltar para a barraca da “Maçã do Amor” da minha tia. Eu disse que não ia demorar.
— Tia Vanusa? Posso ir até ela... Sabe por ontem, por faze-la sair de casa para comprar curativos e eu nem usei.
— Está bem. Vamos. Fica por ali. – Passamos no meio de uma multidão de pessoas alegres, coloridas, se divertindo. Me sentir uma criança de novo. E com Felipe ao meu lado então... Meu coração não sossegava. Era uma batida atrás da outra...

— Oi Tia Vanusa.
— Clara meu amor. O que faz aqui?
— Bom, digamos que minhas amigas meio que me arrastaram para cá.
— Acho que vou deixar as duas sozinhas. Tenho que carregar umas caixas com maçãs.
— Está bem meu amado. – Felipe sai carregando caixas. Ele era um rapaz trabalhador.
— Deus abençoe o Felipe. Ele me ajuda tanto desde que minha irmã morreu. Achei que ele fosse ser problemático ou rebelde, mas não. Ele é bom moço. – Falava a Tia Vanusa. — Só erra quando diz que não perdoa o pai dele. Meu coração fica tão triste. Quero tanto que esses dois se deem bem. Mas e você menina? O que acha do meu sobrinho?
— E--Eu... — Gaguejei, e fiquei com a leve impressão de que corei na hora. — E--Eu--u acho ele um bom amigo... Ele é estudioso e gosta muito da igreja..
— E como gosta! Só não vai todos os dias, porque tem que trabalhar naquela oficina suja. Eu já disse para ele sair daquele emprego, mas, ele gosta tanto de mecânica. Ai, ai. Só ele entende esses troços!
— He he..
— Sabe Clara, quando você apareceu na porta de casa, vestindo a jaqueta vermelha de Felipe, eu pensei: “Finalmente Felipe arranjou uma namorada, e nossa como ela é linda!”. Mas, aí ele falou que vocês são apenas amigos de escola, eu fiquei um pouco decepcionada. É como dizem a “esperança é a última que morre!”. E eu ainda tenho esperanças em vocês ...
— Bem... eu.. Tia...

Nesse momento chega um cliente e interrompe nossa conversa, e eu me sento na mesinha. Novamente, Felipe veem a minha mente. A tia dele também percebeu? Será se ela queria nos dois juntos? Ai, Felipe...

— Uma maçã do amor saindo. – Felipe aparece com uma Maçã do Amor na minha frente
— Não Felipe, eu não posso...
— É um outro pedido de desculpas. Aceita vai.
— Tá bom vou aceitar porque você tá de bom humor hoje.
— E quando é que eu não estou?
— Hum, quer mesmo saber?
— Acho que não. – Começo a dar risadas. Mordo a maçã do amor que estava deliciosamente grudenta.
— O parque nos faz esquecer muitas coisas ruins. A gente se diverte mais. Porém prefiro está na Casa de Deus. A alegria que Deus me oferece não é passageira. – Dizia Felipe
— Lindas palavras Felipe. Tenho uma pergunta: como você me achou no meio de tanta gente?
— Impossível não reparar no seu penteado de ''Sailor Moon''.
— He he he, engraçadinho. Então, a gente se vê na igreja mais tarde...
— Ok. Só vou guardar essas caixas.
— Então é um “Tchau”.
— Acho que sim. Tchau Clara– Disse sorrindo para mim. Dessa vez o “tchau” dele fora bem mais animado do que os outros. Era incrível como a minha relação com Felipe havia evoluído. Conversávamos normalmente, como bons amigos, pena que eu não o via só como amigo... Eu podia contar qualquer coisa a ele. Exceto dizer que estava apaixonada por ele, é óbvio! Ainda não era a

hora. Precisava falar com as meninas! Meu coração estava tão alegre. O dia de hoje estava sendo magnífico!

Vejo elas na lanchonete. Vou aproveitar e fazer uma boquinha também.

— Esse é o melhor hambúrguer que eu já comi na vida!!! — Falava Mila de boca cheia.
— Mila... não fale de boca cheia... É muito feio! – Corrigia Priscila, com seu jeito todo calmo e meigo enquanto sugava o copo de milk-shake com canudinho.
— Hummm, estão comendo e nem me convidam!!!
— Senta aqui, amiga e conta tudo o que aconteceu! — Exigia Mila.
— Vou querer essa batatinha- frita aqui. Aconteceu que Felipe não é o cara grosso que eu pensei que era...
— Ele tem um bom coração né Clara. – Falava Priscila.
— Tem Pri. Ele é um bom rapaz. Eu preciso me confessar pra ele.
— E porque não fez isso? Achei que tinha feito isso! Clara!!! — Berrou Mila.
— Deixa ela, Mila... Tudo tem seu tempo... — Meditou Priscila.
— Foi exatamente isso que ele me disse ontem lá em casa. “Tudo tem seu tempo”.
— É mais o tempo tá passando suas bobas, e a Shirley não brinca em serviço.
— Fica tranquila Mi. Felipe não gosta daquele tipo de menina. Ele mesmo disse.
— Ah tá, Clara. Menos mau. Mas eu quero agora é comer outro hamburgão.
— Mila... assim vai passar mal. –Alertou Priscila.
— Concordo. A gente tem que ir logo para casa, porque daqui a duas horas, começa o culto.— Meninas, eu posso ir para a igreja de vocês? – Pediu a Pri
— Claro que pode Pri. A gente ia ficar super feliz com a sua visita.
— Pri, acho que vou pedir para meu pai te buscar de carro, porque você mora muito longe. - Disse Mila
— Obrigada Mila. – Sorriu Priscila para nós duas. Perfeito. Felipe e Priscila iam aparecer na igreja.
Pagamos os lanches e fomos as três para a parada de ônibus, esperar nosso coletivo.

Assim que desci do ônibus, fui para casa correndo. Encontrei Júlia, engomado a roupa que ela ia usar no culto. Tomei um banho ligeiro, vesti uma blusa azul com uma saia jeans preta, peguei minha bíblia cor-de-rosa, desci as escadas, e esperei a Júlia na sala de estar, que como sempre, era uma lesma para se maquiar:

— Espera só um segundo. Beleza leva tempo tá Clara!
— Anda, Júlia. Você não ficar bonita em um passe de mágica!
— Há há há . To morrendo de rir com essa sua piada! Pronto! Vamos?
— Vamos! Já tá na hora!

Trancamos a porta da nossa casa e fomos à igreja em passos apressados.

Chegamos na igreja, uns 15 minutos atrasadas e todos os irmãos se viraram para nos ver. Como eu odiava isso. Odiava chegar atrasada! Felipe já estava lá. Mila e Priscila também. Estava feliz. O culto foi ótimo. Teve louvor, pregação, oração. No final todos demos as “paz do Senhor” uns aos outros. Estava morrendo de vontade para falar com Felipe, quando um conhecido apareceu na minha frente:

— Ei menina! Não fala mais com os velhos amigos?
— Nelson? Você por aqui?

CAPÍTULO 17

— Nelson? Ruivo? Quanto tempo! – Nelson era um menino mais ou menos do meu tamanho 1,66m, 16 anos, cabelos ruivos, olhos castanho-escuros. Estava vestindo uma camisa social branca com gravata vermelha, segurando uma Bíblia contra o peito. Estava parecendo um pastor. Mau o reconheci... Lembro da última vez que o vi, era bem gordinho.

Dou um abraço bem forte nele.
 Ruivo? Ninguém me chama assim só você “banguelinha”!
— Se não percebeu não sou mais banguela, querido.
— Já ia embora sem falar comigo? Isso é jeito de tratar um amigo de anos?

***

Você deve estar se perguntando quem é Nelson? Vou falar um pouco do Nelson. O pai do Nelson é pastor, e muito amigo do meu pai. Lembra da viajem que fiz quando tinha 6 anos para Campos do Jordão? Meu pai foi pregar na igreja, onde o pai do Nelson era pastor. Nelson era o irmão  menino que eu nunca tive. Brincávamos muito, ele me chamava de banguelinha, e como ele tinha os cabelos avermelhadas como fogo, o chamava de “Pica-Pau” e de “Ruivo”. Éramos amigões do peito. Até que a semana acabou e cada um precisou ir seguir seu caminho. Lembro-me que  o pai dele sempre dizia: “Esses dois nessa brincadeira vão acabar casando!”, se bem que sempre foi o sonho do pastor Jorge, ver seu filho casado com uma filha de pastor.

Um ano depois, quando ele tinha sete anos, se tornou meu vizinho e aí nossa amizade se tornou mais forte. Quando conheci Mila, deixei Nelson um pouco de lado, ela sempre demonstrou um certo carinho por ele. Passado cinco anos, ele e sua família foram embora para outra cidade e perdemos contato. Nisso, me tornei muito amiga de Mila, que ficou triste quando ele partiu...


Algumas meninas da nossa rua, achavam bonitinho, quando eu era criança, Nelson e eu andando juntos, e insistiam que éramos namorados. Eu não pensava assim. Eu via Nelson apenas como um irmão, um amigo. Nunca tive qualquer sentimento além de amizade por ele, igual como sinto por Felipe, que vai além de tudo que já sentir por alguém, não sei explicar. Nelson sempre será um amigo para mim. Nada mais
***
Voltando ao assunto...

— Larga de ser bobão! Eu nem sabia que você estava aqui na igreja. Como você chegou até aqui?
— Seu pai ligou para meu pai para pregar hoje aqui. Era o meu pai que estava no púlpito hoje.
— Era o pastor Jorge que estava pregando hoje? Seu pai? Nossa, eu não reconheci. Onde você estava sentado?
— Lá atrás. Vi quando você entrou. Queria chamar você, mas, nem reparou que eu estava aqui.
— Foi mau. Estava esperando uma amiga minha, que ficou com muita vontade de vim hoje para a igreja. Vai ficar quanto tempo aqui na cidade?
— Na verdade, só vim acompanhar meu pai. Mas, hoje mesmo volto para a minha cidade. Não fica tão longe. Acho que são seis horas de viagem. E amanhã tenho aula. Não posso perder aula de jeito nenhum.
— E a sua namorada? Onde ela está?
— Ainda não estou namorando... Escolhi esperar a minha princesa...  Mila chega perto de nós, e fica surpresa ao ver Nelson.
— Clara, a Pri quer falar com você. Nelson? É você? Ainda se lembra de mim né?!
— Lógico que lembro, Mila. Tirou o aparelho dos dentes?
— E você emagreceu! Há há há. O tempo deu um upgrade na gente!
— O lado bom da adolescência... – Disse ele gargalhando
— Bom, vou deixar vocês dois conversando. Vou ver como está a Pri, ver se ela gostou do culto...
— Tá bom, amiga. – Disse Mila sorrindo.

Converso com a Priscila e ela ficou super animada e me diz que quer acompanhar mais vezes o culto, mas, a pessoa que eu realmente queria conversar, não estava encontrando ali. Onde está o Felipe? Priscila se despede de mim e aproveita a carona que os pais de Mila oferecem.

Júlia ainda estava conversando com as amigas dela do grupo de dança, dava tempo de procurar o Felipe. Nelson me surpreende:
— Me procurando?
— Na verdade, estou procurando o Felipe...
— Quem é ele? Seu namorado?  Pergunta meio decepcionado.
— Quem? O Felipe? – Fico corada – Não imagina. É só um amigo de escola. – Felipe se aproxima de nós dois.
— Clara, estava te procurando...
— Eu também Felipe. Ah sim. Deixa eu te apresentar uma pessoa. Esse aqui é meu amigo Nelson. Ele é o filho do pastor que deu a palavra de hoje.
— Oi, me chamo Felipe. – Ele aperta a mão do Nelson
— Prazer. Sou o Nelson. Bem acho que já vou indo. Meu pai e eu precisamos viajar ainda hoje. Foi muito bom te rever de novo Clara. Até breve. Tchau Felipe. Cuide bem dela, viu?! – Porque o Nelson tinha que falar justo isso “Cuide bem dela”. Ele não é meu namorado. Bom... não ainda!

— Ele parece ser uma cara legal.  Disse Felipe
— O Nelson é muito brincalhão e engraçado. Fazia quatro anos que eu não o via. Queria me dizer alguma coisa, Felipe?
— Bem... os jovens do coral vieram até mim, perdi desculpas por ontem, na hora do ensaio.
— Então, era isso. Achei que você havia ido embora...
— Esqueceu que prometi ao pastor que te deixaria em casa?
— Mas, a minha irmã veio hoje também, acho que não precisa fazer esse sacrifício todo...
— Tudo bem. Eu quero mesmo ir...
— Felipe... Tá. Vamos! Metade dos irmãos já foram embora. Deixa eu chamar a Júlia para a gente poder ir tá?
— Está bem.

Chamo a Júlia, que se despede das amigas. Ela pede para a irmã Gláucia trancar as portas e guardar a chave da igreja. Vamos os três seguindo o caminho para casa. A caminhada é silenciosa e tediosa. Júlia está com fones nos ouvidos. Felipe com as mãos nos bolsos, e eu ali querendo puxar assunto, até que chegamos em casa:

— Obrigada Felipe pela companhia. Bem, já vou entrar. Tchau.  Agradece Júlia e entra em casa.
— Isso já está virando hábito né?! Daqui a pouco vou ter que pagar um salário para você! Meu guarda-costas pessoal.
He he he. — Felipe ri alto. Nunca tinha visto ele ri daquele jeito. – Fica tranquila. Eu até gosto de fazer isso.
— Sério? Disso eu não sabia.
— Estou indo. Está tarde. Não posso demorar. Minha tia está bastante cansada por conta do trabalho de hoje
 — Tá, você precisa ir mesmo ir. Ela pode precisar de você. Vejo você amanhã na escola?
— Pode crer que sim. Tchau... – “Tchau Felipe. Sonhe comigo..” Pensei. Que vontade de dizer aquilo.

Júlia me olha estranho quando passo pela porta.
— Clara, você voltou a falar com o Felipe?
— Júlia, ele já me pediu perdão, tá?!
— Sim, eu sei só que por causa dele você passou UMA noite inteira chorando. Não lembra disso?
— Não, eu não lembro. Eu já esqueci. Perdoar é esquecer! Júlia não acabe com a minha paciência tá?
— Sinceramente, eu sei que você gosta dele e tudo mais, mas, Clara...Todo mundo diz que ele já foi preso e até engravidou uma menina...

Aquelas palavras de Júlia fizeram meu sangue ferver. Ela nem conhecia o Felipe para falar assim dele!


— Júlia, para de julgar ele!!! Parece a Tereza e a Marta falando assim. Vocês nem o conhecem, não sabem nada sobre o passado dele, então para de ir atrás do que os outros falam!
— Tá não precisa gritar. Se me contar eu vou entender....

Conto tudo. O passado sofrido, o trabalho precoce, a morte da sua mãe por conta da leucemia, o ódio que ele sentia do pai. Júlia ficou boquiaberta com cada palavra que eu dizia. De repente, sua consciência ficou pesada, por ter julgado ele por conta da fofoca de outras pessoas:

— Nossa, eu juro que não sabia que esse menino carregava tanto dor. Ele nem parece se importar com as fofocas maldosas que fazem sobre ele.
— Fofocas maldosas e mentirosas. Ele nunca foi preso, foi para um reformatório, ou engravidou uma menina. Tereza e Marta inventaram tudo isso.
— Agora entendo porque você quer ficar perto dele...
— Eu só...só quero que ele esqueça toda a dor que carrega...
— Algumas cicatrizes são para sempre, Clara...
— Mais outras se curam com o tempo... Estou indo dormir. Tenho aula amanhã. Boa noite.
— Clara espere... Me desculpe por ter falado aquelas besteiras sobre ele. Eu sei que você gosta muito dele. Acho bonito o que está fazendo. Ficando perto. Dando um ombro amigo. Queria tanto que ele correspondesse.
— Me promete uma coisa: não conta para o papai ainda. Não quero que ele saiba.
— Prometo. Vem aqui me dá um abraço sua boba.

Abraço a Júlia. Apesar de brigarmos muito, ela sabia ser uma boa amiga... Agora, estava pensando em um outro evento importante: o meu aniversário de 16 anos!

Amanhã seria outro longo dia.



CAPÍTULO 18

Aquele fim de semana se tornou o mais longo, porém o melhor que eu já tive. Agora era um novo dia, e os raios de sol entravam na janela do meu quarto. Finalmente, Felipe e eu estávamos nos dando bem. “Por favor, Senhor, que ele seja bonzinho para sempre.... ”Orei na minha mente.

Voltar para a escola era legal, conversar com as meninas, rever os professores. Só havia me esquecido de um pequeno detalhe sórdido... Teria que enfrentar a fera da Shirley. Ela queria, de uma vez por todas, amarrar Felipe em suas teias. Eu sei que Felipe me dissera que Shirley não era seu tipo de garota, mas, como Mila também falou para mim, ela não brincava em serviço e eu não podia vacilar. Não podia chamar atenção, para que ninguém percebesse que gosto do Felipe, e assim não dá mole, e também não podia perdê-lo para aquela mala. Nossa, que me missão difícil! Deus me ajude!


A primeira aula do dia é Sociologia. Eu gostava dessa matéria. A professora era superlegal e sempre reservava os dez minutos finais da sua aula, para que a gente pudesse conversar a vontade sem bagunça.


Noto que Felipe ainda não chegou. Será se ele virá hoje? Estou tão ansiosa. E também estou sentada sozinha! Mila ver a cadeira sem ninguém e senta perto de mim, a fim de me fazer companhia.


— Que foi amiga? Preocupada?

— Só o meu parceiro que não chegou.
— Então vou sentar aqui por enquanto. A minha parceira também não chegou.

E se o Felipe chegasse? A Mila teria que sair daquela cadeira.


Bate o sinal, e acaba a aula de Sociologia. Essa não. O Felipe não vem mais hoje. Até que ele aparece e a Priscila também. Como Mila estava sentada no lugar de Felipe, ele se senta na cadeira de Mila, perto da Pri:


— Xi! Acho que estamos com os parceiros trocados hoje.

— É, também acho.  Ironizei

A aula a seguir era matemática, com o professor Rubens e adivinha? Prova surpresa em duplas. O conteúdo era Equações do 2° grau e Funções. Ou seja, todo o conteúdo que o professor passou até agora. Essa não! Me ferrei. A Mila e eu somos duas mulas quando se trata de matemática. Até a Shirley, que não é boba, fez dupla com Otávio, o menino mais inteligente da sala. Porque não pensei nisso antes? Ai, como eu queria que o Felipe estivesse perto de mim. Ele era um gênio quando se tratava de cálculos. O professor entrega a prova. Nós duas nos entreolhamos. Os números na prova parecem se mexer e andar sobre a folha, zombando de nós. Olho para trás. Priscila parece estar confiante. Felipe lhe explica as fórmulas matemáticas e ela obediente, escreve no papel. Com certeza, eles vão tirar um 10!


— Mila, você sabe como é uma equação de 2º grau?

— Ai, Clara, eu faltei essa aula. He he he.
— Sem gracinha, Mila. Isso vale nota!
— Sem estresse, Clara, a gente sai dessa.

Trinta minutos depois, a folha ainda está em branco. O professor Rubens anda pela sala, a fim de pegar alunos que estejam colando. Felipe e Priscila lhe entregam a prova. O professor olha e diz que eles podem sair da sala. Até que ele chama Felipe:


— Um momento. Qual o seu nome meu jovem?

— Felipe.
— Felipe! Você é um gênio. Parece que tem um concorrente Otávio. Meus parabéns meu jovem. Queira esperar lá fora o término da prova.

Felipe recebeu os parabéns do professor. O professor Rubens? Aquele cara nunca elogiava ninguém, exceto a diretora bajulando ela pra lá e pra cá, mas um aluno era a primeira vez que eu via isso!

Mila rabisca alguma coisa no papel. O horário da prova estava acabando e a gente não tinha feito nada! Shirley e Otávio entregam a prova e saem. Ela me olha com um olhar de desprezo. Olha para a minha prova toda garranchada e prende os risos. Aquela garota me dava nos nervos. Mila sugere o seguinte:

— Amiga, vamos entrar a prova né?! A gente não sabia que ia ter prova surpresa mesmo.

— Se eu tirar zero minha mãe vai me matar!
— Olha o lado bom. Pelo menos a gente não colou de ninguém!
Só Mila conseguia ver esse lado bom. Derrotada, entrego a prova. O professor nada diz. Mila e eu nos retiramos da sala.

Encontramos Priscila sentada no banco, com fones de ouvido, escutando música no celular. Mila chega perto:


— Oi Pri. – Parece que ela não ouviu.

— Oi Pri!!!  Mila fala mais alto, até que tira os fones dos ouvidos.
— Oh, desculpe Mila... o som estava alto. – Explica Priscila
— Eu quase fiquei sem voz aqui! – Essa Mila era tão dramática. – Porque chegou atrasada?
— Foi mau... O ônibus em que eu estava furou o pneu... no meio do caminho... e por coincidência, Felipe estava nele. Por isso chegamos juntos.
— Está desculpada, bobinha. Como foi na prova? – Pergunto.
— Muito boa! O Felipe é muito inteligente... Se eu tirar 10 é por causa dele. E vocês duas?
— Vou me mudar de escola. Com certeza já fiquei até reprovada! – Diz Mila
— Não exagera. O professor sempre passa trabalhos para recuperação de nota. Preciso da ajuda de vocês duas. Comprei uns convites de aniversário, e preciso distribuir. Estou com o convite de Felipe aqui. Tenho que entregar para ele. –Falei – Viu o Felipe, Priscila?
— Acho que ele... foi para a biblioteca.

A biblioteca. Ali era um lugar de tantas decepções. A primeira vez quando conversei com o Felipe e ele me esnobou na frente de um monte de gente. Quando o flagrei ensinando matemática a Shirley e tive um ataque de ciúmes.


Definitivamente, a biblioteca não era a minha praia.


Entro na biblioteca e vejo Felipe de costas, escolhendo livros na prateleira. Ai, como ele é lindo de costas! Concentração, Clara! Fico escondida, tentando tomar coragem pra falar com ele, mas, outra pessoa vai na minha frente: Shirley. Andando toda sedutora, Shirley se apoia na prateleira, de frente para Felipe, como se fosse o beijar. Tento me segurar pra não encher ela de sopapos e continuo escondida atrás da estante. Felipe se afasta dela. Ela começa a jogar o cabelo para trás, tentando seduzi-lo, os olhos acinzentados emanando malícia:



— Por que nunca vejo você com ninguém? Um cara tão gato como você devia ser o aluno mais popular dessa escola!
— Eu sempre estou perto dos meus amigos. Nunca viu?
— Só vejo você perto da ralé e da sonsa da Clara.
— Olha, Shirley, estou ocupado. Você venho até aqui para ofendê-la na minha frente?
— Não! Eu vim te convidar para minha festa de aniversário. Será no sábado, dia 15 de outubro!

Não posso acreditar! Aquela sirigaita fazia aniversário no mesmo dia que eu? E ela estava convidando o Felipe? Que oferecida! Precisava ouvir mais:


— Anda, vem a minha festa! Vai ser uma balada com um DJ internacional. Só vai ter a galera descolada e meus pais liberaram bebida alcoólica pra todo mundo! Afinal não é todo dia que você faz 16 anos!

— Shirley, eu sou cristão. Eu não bebo álcool e nem participo de festas assim!
— Também vai ter refrigerante, já que você é crente né?! Affs! Ninguém é perfeito. Aqui! O meu convite. Não esquece gato. 15 de outubro! Tchau.

E pisca para ele. Ela sai da biblioteca rebolando com uma saia jeans que não tinha nem um palmo. Que ódio meu Deus daquela piriguete! Que ódio! Saio do meu esconderijo.


– Oi, Felipe.

 Oi, Clara. – Ele esconde o convite no bolso da calça. Se ele soubesse que eu ouvi a conversa toda. Estava feliz por ele não cair nos truques daquela oferecida.

— Prova difícil né?! — Ri meio sem graça

— Achei até fácil. Já tinha visto esse mesmo assunto na minha antiga escola.
— Você é muito inteligente. Mila e eu vamos levar bomba nessa matéria.
— É, mas fiquei reprovado duas vezes e isso consta no meu histórico escolar.
— Mas, foi por uma boa causa, né?! – De repente Felipe abaixa os olhos. Deve ter se lembrado de quando faltava aulas para cuidar da mãe no hospital. Lembrou do sofrimento dela com a doença... Ele põe o livro de volta na prateleira:

— Se quiser, eu posso te ensinar matemática. Não só para você, mas, para Mila também. Já fiz esse favor para Shirley, lembra?

— Me ensinar? Puxa! Felipe estou usando muito você ultimamente.
— É isso que os amigos fazem! Nos encontramos aqui na biblioteca, todos os dias, a partir de amanhã na hora do lanche, que tal?
— Boa ideia. Só não sei se a Mila vai sacrificar a hora do lanche para estudar.
— Eu a convenço.
— Que livro está procurando?
— São uns livros que a professora de Literatura pediu que eu lesse. Como entrei no meio do ano, ela quer que eu recupere conteúdo.
— Me deixa dar uma olhada nessa lista. Posso procurar com você?
— Seria ótimo. Obrigado.
— É isso que as amigas fazem! – Dou um sorriso para ele.

Procuramos os livros, ainda teríamos tempo. O sinal ainda não tocara e o professor ainda estava fazendo a prova. Eu não queria nem me lembrar dessa prova. Estava convicta de que levei um zero redondo. Os livros eram Amor de Perdição, Viagens na minha terra, Iracema, O primo Basílio, e Dom Casmurro.


Encontramos quatro dos cinco livros, faltava apenas um Amor de Perdição. Estava lá em cima da prateleira e precisava subir na escadinha para pegar. Subo na escadinha e agarro o livro. Quando desço os degraus, não percebo que meus cadarços do tênis estavam desamarrados e eles ficam agarrados na escadinha, causando minha queda. Dou um grito estridente e fecho os olhos:

— Clara, cuidado! – Escuto a voz de Felipe chamando meu nome.

Morri? Estou no céu? Espera! Eu tô viva! Mas, porque não cair no chão? Simples: Felipe me pegou em seus braços, antes que eu me estabacar-se no chão. Isso só faz meu coração acelerar mais e mais. Meu rosto cora. Ele me põe no chão. Eu não conseguia acreditar. Felipe me agarrou em seus braços. Eu estava nos braços do Felipe? Ele me salvou de sofrer um acidente.


 — Você está bem? Que susto você me deu!

A professora, responsável pela biblioteca vem ver que tanta gritaria era aquela.
— Mas, o que significa toda essa gritaria hein?! Isso aqui é uma biblioteca, e vocês estão atrapalhando a leitura dos outros alunos.
— Me desculpe professora!  Falei – Achei que tinha visto uma barata!
— Uma barata? Bem, amanhã eu ligo para o dedetizador. Não deveriam estar em suas salas?

Felipe aponta para meus tênis com os cadarços desamarrados. Era melhor eu amarrá-los de novo, senão eu poderia me meter em outro acidente. Saímos da biblioteca. Não conseguia acreditar no ato de Felipe. Me segurou em seus braços. Meu herói. Se ele soubesse como estava meu coração...


Entramos na sala e sentei ao lado de Mila e ele sentou ao lado de Priscila. Era só por hoje. Amanhã ele sentaria perto de mim... Mila nem pergunta nada, pois pela cor das minhas bochechas, ela sabia muito bem qual era a causa: Felipe. O dia passou rápido, aula depois de aula, conversa atrás de conversa.


Quando terminou as aulas, Shirley e suas seguidoras Becky e Fany me param e param a Mila na porta e me entregam um cartão roxo, com uma foto da Shirley em uma roupa provocante:

— O que é isso? – Pergunto
— É um convite da minha festa de aniversário!
— E porque está me convidando?
— Pra você ver como se faz uma festa de verdade. Há há há. –Sai gargalhando igual a uma bruxa.
— Amiga, aqui no cartão diz que a festa é no sábado, dia 15 de outubro. É no mesmo dia que a sua festa. As 19:00h.

Olho o cartão novamente. Não acredito que aquela piriguete ia fazer a festa dela no mesmo horário da minha!

— Mila, essa daí quer guerra e ela vai ter guerra!
Priscila chega até nós com o cartão roxo da Shirley:
— Vocês também receberam?
— Eu não vou! Olha o que eu faço com esse cartão brega!  Mila rasga o cartão  deixando ele em picadinhos.
— Também não vou... a amizade da Clara é importante para mim! – E Priscila joga o cartão na lixeira.
— Quer saber? Eu não ligo. Desde que minhas melhores amigas venham a minha festa! Vocês são as melhores amigas desse mundo todo! A Shirley jamais saberá o que é amizade! – Dou um abraço apertado nas duas.
— Ou o que é amor né?! Vou te contar, oh bichinha invejosa! – Provocava Mila
— Gente, eu me esqueci de dar meu convite para Felipe. Se eu correr ainda consigo encontrar com ele. Me esperam tá?!

Vou correndo na direção oposta. Encontro ele. Impossível não reconhecer aqueles cabelos negros espetados:

— Felipe!!! – grito sem fôlego – Espera!
— Clara? O que foi algum problema?
— Não, eu vim agradecer, por me salvar na biblioteca! Obrigada. Se não fosse você talvez teria me machucado seriamente. Obrigada mesmo!
— Eh... Não sei lidar com elogios! – Dar um sorriso torto
— Ah, e eu me esqueci de te dar isso. – Dou para ele um cartão rosa com uns desenhos de flores brancas. – É meu cartão de aniversário. Vai ser no sábado, 15 de outubro. Eu já te convidei antes, mas, com o convite fica mais oficial.
— Clara é muita gentileza da sua parte, mas...
— Mas...
— Não vou poder ir a sua festa. Desculpe-me.

O quê? Mas... O quê foi isso que acabei de ouvir?



CAPÍTULO 19


O que eu acabei de ouvir? Felipe não vem para minha festa?


— Entendo. Então, você vai para a festa da Shirley, é a festa vai ser mais legal, vai ter mais gente... – Felipe me interrompe

— Clara, o que está falando? Eu não vou para a festa da Shirley. Até rasguei o convite! Eu não posso ir a sua festa, porque tenho que resolver uns assuntos pessoais... Quando tudo se resolver, eu explico melhor. Tudo bem?
— Tudo bem. Só de saber que você não vai para a festa da Shirley já fico feliz.
— É? Por quê? 
— Porque ela tá louquinha por você e, vai fazer qualquer coisa para você gostar dela!
— Mais você sabe que ela não faz meu tipo. Além do mais, meu coração já tem dona.
— Hum, e eu posso saber quem é a sortuda?
— Tudo ao seu tempo, Clara.
— Você já me disse essa mesma frase, outro dia...
— Foi? Nem me lembro. Preciso ir, Clara. Vou ter que trabalhar em hoje. E não esqueça: amanhã na biblioteca, começa minhas aulas, ok?

Observo Felipe ir embora. Continuo meu caminho e me encontro com minhas amigas:


— Então, Clara, ele vai na sua festa? – Pergunta Mila.

— Não, ele não vai poder ir.
— Então, ele... vai na festa da Shirley?  Perguntou, com curiosidade, Priscila.
— Também não. Segundo ele, vai passar lá em casa, para conversar melhor.
— Hum, sinto cheiro de declaração de amor!  Brincava Mila
— Pára, Mila. Ele só me ver como uma amiga, nada mais. Ele não é como a tonta aqui, que criou altas expectativas. Hoje vi a Shirley dando em cima dele na biblioteca.
— Cara, essa menina é uma sem-vergonha! – Falou Mila
— Mas, quer saber, ela pode até tentar. Nenhum homem gosta de mulher fácil desse jeito. Essa menina parece não ter amor-próprio! Vamos para casa?

Júlia ainda não havia chegado do trabalho. Era tão estranho ver a casa vazia. Papai e mamãe faziam tanta falta, mau podia esperar para que a viagem deles acabasse logo. Meu aniversário estava chegando e eu queria muito eles presentes em minha festa.


A tarde passa calma e silenciosa. Preparo o almoço, carne com arroz e salada e vou para meu quarto fazer a lição. Ainda estou preocupada com minhas notas e estou com medo de ficar reprovada.

Logo, a noite cai. Júlia chega exausta do trabalho, porém com um sorriso no rosto. Jantamos juntas. Abrimos exceções e comemos o que mais gostamos: batatas-fritas com refrigerante. Em seguida, vou para o meu quarto dormir. 

Assim que fecho os olhos, já amanheceu!


Vou correndo tomar café. Não quero chegar atrasada na escola. Passo na casa de Mila, que está super preocupada com a prova de ontem. Ela não contou nada a mãe dela. Chegamos na escola. Felipe já estava na sala de aula, e tenho a leve impressão de que ele está sorrindo. Sento ao seu lado. As aulas de Química e Espanhol passam rápido.  Entrego o trabalho em dupla de Espanhol. Estava super ansiosa pelo intervalo, para ter aulas com meu “professor particular”. 


Assim que toca o sinal, vou à biblioteca. Mila também vem junto, afinal, ela não quer levar bomba de novo em matemática.


Felipe começa pelo básico. Aquilo tudo parece grego para mim. Não consigo entender absolutamente nada! Mila faz os cálculos e Felipe a elogia. Fico com um pouco de ciúme. Faço os cálculos também e Felipe me olha sério:


— Clara, tem certeza de que isso está correto?

— Eu não sei, você é o professor! – Falo chateada.
— Está errado! Está prestando atenção pelo menos? Faça como a Mila, viu?! Ela está prestando atenção!

Aquela aula não estava saindo do jeito que eu queria! Era oficial: detesto Equações de 2º grau! E Felipe só estava elogiando a Mila! E eu? Ai meu Deus! Estou com ciúmes! Dele com a Mila? Tenho que parar com isso! Tenho que me concentrar no meu dever. O sinal toca, nos avisando que o intervalo acabou. Felipe elogia mais uma vez Mila.


— Muito bem, Mila. Gostei de ver que aprendeu tudo direitinho, exatamente o que ensinei. Você vai longe assim.

— Não lanchei hoje, mas, valeu a pena. Obrigado Felipe. Agora sim eu tiro um dez!

Fico zangada, mas, não demonstro. Será que a menina que Felipe gosta... É a Mila??? Tenho que parar com essas paranoias!


Voltamos para a sala. Não falo com Felipe em nenhum momento. Custava ele me ensinar direitinho? Depois de duas aulas, o sinal da saída toca e vamos para casa.


Chego em casa, faço meu almoço, tomo um banho e à tarde, assisto tevê. Adoro assistir ''iCarly''. Aproveito e abro um pote de sorvete de chocolate. Não quero saber de matemática, apenas de sorvete e da minha série favorita.


A campainha toca, nisso me espanto e deixo sorvete cair na minha blusa, a sujando.

 Abro a porta, sem nenhuma vontade, quando quase engulo meu coração: Era Felipe, carregando um monte de livros!

— Então, o que minha aluna está fazendo?




CAPÍTULO 20


Felipe estava ali, parado na minha frente, com uma pilha de livros em punho. Pergunto, totalmente desengonçada, do porquê de sua presença:


— Felipe? O que você faz aqui?

— Vim te ajudar em Matemática. Mas, não se preocupe. Não vim só.

Aparece na minha porta, duas figuras conhecidas. Uma menina com cabelos cor de canela e a outra, com o físico de uma jogadora de basquete:


— Surpresa! Olha eu aqui!  Falava com entusiamo a alegre Mila.

— Oi Clara.  Dizia Priscila, meio tímida, segurando sua bolsa com franja.
— Mas, se não tiver em condições para estudar, a gente volta amanhã.  Sugeriu Mila, olhando para a minha blusa suja.

Não estava em condições em receber ninguém. Só queria assistir minha série favorita e me entupir de sorvete. Estava toda relaxada, com a blusa suja de sorvete de chocolate. Desligo a tv e peço para eles entrarem e sentarem no sofá. Subo mais do que depressa pelas escadas. Tranco a porta do meu quarto e troco a minha blusa suja. Vou colocar uma camiseta bem bonita. O Felipe está aqui... de novo.


Desço as escadas. Mila está fazendo palavras-cruzadas e roendo o lápis, enquanto Priscila está com fones de ouvidos, ouvindo música em seu iPod. Felipe está lendo um livro de capa de couro, suponho que seja uma Bíblia. Ele fica tão lindo quando está lendo... Enquanto fico o admirando, mau percebo aonde piso e acabo tropeçando no tapete e caio. Felipe me levanta preocupado, e Mila pergunta:


— Tudo bem amiga? Se machucou?

— Não! Só tropecei nessa droga de tapete! Vamos começar a aula?

E assim foi a minha semana: Apenas estudos!


Estudamos durante o intervalo na biblioteca, e à tarde, as meninas e Felipe apareciam na porta de casa. Júlia sempre me dizia para eu aproveitar a oportunidade e falar logo sobre meus sentimentos para Felipe, mas, sempre que ia falar algo, eu sentia vergonha e mudava de assunto. Mas, no último dia de estudo, que seria em uma quinta-feira eu ia ganhar coragem e falar. Com certeza!


 Felipe parece ser o único que estava gostando daquele grupo de estudos. Depois de minutos, entre números, livros e muitos cálculos, crio coragem para fazer uma pergunta:


— Felipe... Posso fazer uma pergunta, que não tem nada a ver com Matemática?

Felipe assente. Mila percebe minhas segundas intenções e cutuca o ombro de Priscila:

— Hum... Nossa, me bateu uma fome agora! Como já sou de casa mesmo, posso abrir a geladeira né Clara. Vou tomar um suquinho. Vem comigo Pri?

— Oh... Sim, sim estou indo.

Mila pisca o olho para mim. As duas vão para a cozinha. Me sinto mais a vontade para conversar com ele. Meu coração está disparado:


— Felipe... Você já... Se apaixonou por alguém?

Felipe fica corado e passa a mão na cabeça, como alguém que esquece algo:
— Nossa! Me pegou desprevenido. Bem... Eu tive umas "paixonites" no Ensino Fundamental, mais logo eu perdia o encanto por elas. Diferente da garota misteriosa que eu amo.
— Garota misteriosa? Por favor me diga quem é ela!
— Calma, Clara. Um dia você vai saber quem é. Tudo tem seu tempo.
— Eu só não acho justo me esconder isso. Eu sou sua amiga.
— E você? Já se apaixonou por alguém.
— Eu? Eh... Não!
— Não? Mas e aquele tal de Nelson? Ele pareceu bem íntimo com você na igreja.
— Nelson é só um amigo de infância. Tenho apenas amizade por ele. É como se fosse um irmão para mim. Ao contrário de voc...  Me interrompo.
— Ao contrário de quem?
— Nada. Nada. Esquece. Vamos continuar a aula?

Folhe-o um livro depressa, tentando me distrair. Faço outra pergunta:

— Felipe, o que você vai fazer quando acabar o Ensino Médio?
— Sabe, sempre tive vontade de fazer faculdade de Direito. Quero ser advogado. Quero lutar pelos humildes. Odeio injustiças.
— Advogado? Que legal! Garanto que do jeito que você é inteligente, passa fácil, fácil em qualquer faculdade de Direito.

Felipe dar um sorriso para mim. Adoro quando ele sorri, isso deixa meu coração bastante alegre.

— E o seu pai? Falou com ele sobre isso?
— Clara, porque insiste tanto em tocar nesse assunto?
— Desculpa, Felipe, por favor, não foi minha intenção! Você tá me ajudando tanto e eu aqui, só atrapalhando sua vida!
— Não. A culpa não é sua. É que... Esse assunto é... Complicado!

Felipe se levanta do sofá, ficando de costas para mim, com os braços cruzados. Me levanto e fico atrás dele. "O que se passa em seu coração Felipe? Porque carrega tanta mágoa?"


Coloco minha mão em suas costas.


Queria tanto ultrapassar as muralhas, que isolavam Felipe de mim. Queria tanto que ele fosse feliz.

De repente, Felipe se vira e pega a minha mão. Ele se aproxima. Estamos tão perto, quase nos tocando. E meu coração, ali, dentro do peito, ardendo em brasas, ansiando por um beijo...

Fecho os meus olhos.


A porta da sala abre. Felipe se afasta bruscamente e eu, me sento de uma vez no sofá:

— Chegamos!  Anuncia meu pai, carregado de malas.
— Mãe! Pai! Já voltaram de viagem?
— E vocês? O que estão aprontando?  Pergunta minha mãe


CAPÍTULO 21

Desde que Felipe apareceu em minha vida, posso dizer com toda certeza, que ela se tornou mais cheia de emoção, mais bonita, mais viva. E naqueles dias, em que estávamos nos dando tão bem, estavam sendo os melhores. Minha mãe e meu pai chegaram de viagem e quase me pegaram no flagra, querendo beijar Felipe:
— Então, mocinha! Responda! O que estão fazendo?
— Mãe... Nós..Bem... — Novamente, eu estava me enrolando. Até Mila aparece da cozinha, com o meu pote de sorvete e explica tudo a mamãe.
— Dona Luíza, que bom que a senhora já voltou de viagem. Bem, a gente tem se reunido todo dia aqui na sua casa, para estudar matemática. É que eu ando meio fraquinha nessa matéria e a Clara e o Felipe tem me ajudado muito.  Mila só esqueceu de dizer que era eu a "fraquinha" em matemática.
— Estudando matemática? Isso é uma coisa boa.  Aprovou papai. — Felipe, já que está aqui, posso finalmente falar com você. Há tempos quero conversar contigo, mas, o tempo não deixa.
— Tudo bem senhor. A hora que o senhor quiser.  Disse Felipe.
— Que tal agora? Tudo bem para você? — Felipe assentiu. As meninas e eu fomos para a sala de jantar, com nossos livros e cadernos, enquanto papai batia um papo com Felipe. 

Depois de um tempo, o grupo de estudos se despediu. Era nosso último dia de estudo. Mila e Pri foram para casa. Dou um abração nas duas e agradeço a Mila, por ela não falar pra minha mãe que era por minha causa, que havia aquele grupo de estudo. Felipe estava na sala conversando com meu pai, e eu estava ajudando mamãe na cozinha. Como estávamos silenciosas. Logo eu, que sou uma tagarela. Júlia aparece em seguida, sorrindo para o celular. Devia estar enviando mensagens para alguém. Nem repara que mamãe e papai chegaram de viagem. Apenas bebe um copo d'agua e sobe as escadas correndo, para o quarto dela.
— Essa daí, vive no mundo da lua! —  Fala mamãe.  Começo a rir. Finalmente era quebrado o silêncio.
— Concordo, mamãe. 
— Então, o grupo de estudos era só pra ajudar a Mila?  Mamãe estava desconfiada.
— Sabe mãe, não posso mentir! Tô uma negação em matemática e o Felipe e a Priscila vieram durante essa semana ensinar nós duas. Mas, pelo visto, só Mila aprendeu alguma...
— Filha paciência. Vai ver, matemática não é seu forte. Achei muito legal da parte desse menino ensinar vocês.  Dizia minha mãe com um sorriso no rosto.
— É... Ele é muito gentil. O que tanto o papai conversa com ele? 
— Não sei minha filha. Há dias que seu pai quer conversar com Felipe.

Vou de pontinha de pé, sem fazer barulho, escutar a conversa deles. Um fracasso. Não consigo ouvir absolutamente nada. Logo após, Felipe vai embora. Dessa vez, ele não se despediu de mim. Vou até a sala perguntar ao papai, o que tanto eles conversaram:
— Então, pai, o que vocês estavam falando?
— Nada demais. Perguntei a ele sobre sua vida antes daqui, como é no trabalho, essas coisas. E reafirmo o que sempre pensei: esse menino tem um grande peso em seu coração.
— Papai, ele falou algo sobre o pai dele?
— Não filha. Porquê?
— Parece que ele e o pai não se dão muito bem.
— Esses assuntos sempre são sérios. Ele precisa abrir o coração, e fazer as escolhas certas. Guardar mágoa é sempre, uma escolha ruim. — Como meu pai é um homem sábio, as vezes até eu fico de boca aberta com as coisas que ele fala.

Essa noite, teríamos novamente um jantar em família. Oramos juntos e desfrutamos de um belo ensopado de verduras. Júlia parecia mais brilhante, com as bochechas rosadas. Antes de dormir, fui perguntar à ela, o porquê de tanta alegria. Entro sem bater no quarto dela, e acabo provocando a onça:
— Sai daqui menina! Sabe bater não?
— Desculpa Ju! Só queria te perguntar uma coisa. Mais já que tá de mau humor, eu vou embora.
— Não, não vai não. Pergunta o que você queria.
— Me diz... Porque ultimamente você vive sorrindo à toa?
— Pelo mesmo motivo que tu. Eu estou amando! 
— Amando? Quer dizer, apaixonada?
— É! Achou que eu ia deixar minha irmã mais nova, namorar na minha frente? O nome dele é Leandro, 21 anos, alto, meigo e super engraçado.
— Como conheceu ele?
— Ele é um cliente lá da loja onde eu trabalho. A princípio eu achava estranho ele frequentar muito a loja, mas, depois descobrir que era só pra se aproximar de mim. Fico até arrepiada quando falo nele.— Vocês já se beijaram?
— Tá louca menina? Lógico que não! O máximo que fizemos, foi um passeio pelo shopping onde trabalho e ficar mandando mensagens um para o outro. Se ele quer me beijar, tem que falar com meu pai. Quero namorar à moda antiga, e se ele não gostar, que procure outra. Comigo é assim!
— Ai, Júlia, você é meio doidinha, he he he. 
— Ahhhh, me bateu um soninho. Acho que vou dormir. Hei, nada de contar pro papai. Quero trazer o Leandro na sua festa e apresentar ao papai. Tudo bem?
— Tá, se você não desencalhar antes, eu também não desencalho!  Nisso Júlia joga um travesseiro que acerta a porta. Saio correndo do quarto dela, antes que ela jogue outro.

Fui para o meu quarto. Amanhã seria sexta-feira e no sábado seria o grande dia! Meu aniversário! Lógico que eu tava nervosa! Ainda nem havia comprado um vestido!!! Ia ser uma festa simples mesmo, então nada de coisas exageradas. Fiquei pensando no que quase eu ia fazendo na sala. Eu estava decidida a beijar Felipe! E se meus pais não tivessem chegado? Eu não devo me comportar assim. Isso não é certo. Queria saber porque ele não vem a minha festa de aniversário. 

Mamãe entra no meu quarto. Ela está com um embrulho nas mãos:
— Clara, está dormindo?
— Não, porquê?
— Eu sei que seu aniversário tá perto, e isso não nenhuma surpresa. Passei por uma loja na viagem, e vi um vestido e vi que era sua cara. 
— Mãe, não precisava. Eu já tinha um dinheiro guardado para comprar.
— Pois trate de deixar seu dinheiro guardado. Ora essa. Toma. Abre.

Abro o embrulho. Era um vestido rosa salmão, tomara-que-caia, na altura dos joelhos. Ela tinha razão. Era a minha cara.
— Obrigada, mamãe! É lindo! 
— Queria tanto te dar um vestido, porque quando eu tinha quinze anos, não tive festa e muito menos vestido, e eu quero que minha filha tenha lembranças boas dos seus dezesseis anos.
— Te amo mamãe!
— Também te amo, Clara. Bom, agora vou deixar você dormir. Amanhã tem escola. Boa noite.

Aquele momento mãe e filha foi algo tão mágico. Há tempos que eu não conversava com minha mãe.  Coloco minha cabeça no travesseiro. É tão aconchegante. O sono vem devagar...

Amanheceu! Caramba! Parece que foi ainda pouco, que eu acabara de dormir! Escovo os dentes, tomo meu banho, visto o uniforme da escola. Papai está lendo jornal, enquanto beberica uma xícara de café, mamãe está esquentando umas torradas, e Júlia continua no bendito celular, enviando mensagens para o "amado" dela. Dou um beijo nos meus pais e saio correndo para a casa de Mila.

Mila e eu conversamos um monte de bobagens e rimos de coisas que fazíamos quando éramos crianças. Chegando na escola, Felipe estava na sala de aula, com uma cara de quem viu um fantasma. Sento perto dele:
— Tudo bem, Felipe?
— Tudo. Só não tomei café direito.  Ele dá um sorriso torto.

As aulas passam rápido. Até que chega a aula de Educação Física. Eu detestava essa aula. A professora (que carinhosamente apelidamos de Sargenta) obrigava a gente a usar short curto e a ficar correndo que nem umas baratas tontas em volta da quadra. E eu te pergunto, qual a lógica disso?
Felipe pelo visto, não veio para a quadra. Assim que acaba a aula, as meninas vão para o vestiário trocar de roupa. Shirley passa por mim com seu scarpin azul (ela era a única garota da escola, que usava salto alto na hora da Educação Física) e me dar uma ombrada. Eu não seguro minha raiva e dou um berro:

— QUAL É A TUA GAROTA?
— Ui, pelo visto a ''santinha'' perdeu as estribeiras. 
— Shirley você me enche a paciência desde a segunda série! Afinal, o DIABOS VOCÊ QUER COMIGO?  Mila e Priscila me olham com uma cara de espanto. Elas nunca me viram tão zangada. Eu já estava ficando cheia da Shirley. Cheia da sua zombaria contra a minha fé. — Me responde! — Perguntei zangada
— Não perco meu tempo com fracassadas, como você! — Nisso uma voz se intromete. Era Fany, uma das seguidoras de Shirley, uma menina morena, incrivelmente bonita, com cabelos cacheados exuberantes:
— Chega Shirley. Para com isso. A Clara não fez nada.
— Vai ficar do lado dela?
— É... Que... Sim! Eu já cansei de você querer mandar nas pessoas! Ninguém merece!
— Ótimo. Então fica do lado dela então. Não preciso mais de você no meu grupo. Arrumo outra garota num estalar de dedos. 

Shirley se retira do vestiário, rebolando, com Becky sua seguidora. Mila elogia Fany:
— Garota, você enfrentou o dragão! Que coragem a sua!
— Eu cansei dela ficar humilhando as pessoas. Ela nunca foi minha amiga. Na prova de matemática, ela me deixou sozinha, e preferiu fazer dupla com o Otávio. 
— Sinceramente, ela nunca vai saber o que é amizade, se não parar de querer ser superior. - Completei.  Meninas, eu vou indo, tenho que...
...Achar o Felipe. Nós sabemos. — Falava Pri
— Então já vou.

O sinal da saída tocou. Shirley tinha razão. Ela realmente encontrou outra pessoa pra ficar no lugar de Fany. Era uma menina bem magrinha, que usava óculos de grau, com uma longa trança no cabelo. Não iria demorar muito pra Shirley mudar o visual da pobre menina. Precisava mesmo era encontrar o Felipe. Ele estava sentando em um banco. Pensativo:

— Felipe, oi! Você passou o dia calado.
— Tenho uma coisa, mas, não sei como te dizer...
— O que foi?
— Alberto... O meu pai. Ele tá chegando na cidade. Parece que é domingo. E eu não sei como vou encará-lo.
— E o que você quer que eu faça?
— Por favor eu te peço, fica perto de mim. É que não sei porque, você me deixa calmo...  Essas palavras fazem meu coração tremer.
— Tá bom. Eu fico perto de você, com uma condição: Vem na minha festa de aniversário?


CAPÍTULO 22

Estava ali, parada na frente de Felipe, esperando uma resposta:
— Então Felipe, você vem na minha festa?

Aquele silêncio era constrangedor. Felipe olhava profundamente em meus olhos. Um olhar que eu conhecia muito bem. Geralmente, ele me olhava assim quando se arrependia de ter uma atitude brusca. Não sei quanto tempo ficamos ali parados nos encarando, parecia uma eternidade. O olhar de Felipe era tão terno. Meu Deus, acho que vou ficar vermelha! Preciso fazer algo para quebrar esse clima!

— Felipe? Hello?  Depois de um tempo, ele pisca os olhos e solta um pigarro.
— Desculpe, eu fiquei distraído. Não sei se devo ver meu pai!
— Porquê não?
— Não sei... Eu nunca o vi. Nem sei como ele é...
— Ei, eu já não disse que vou junto com você? Prometo fazer minha parte! Agora, por favor vem na minha festa!
— Clara, eu... Somos outra vez interrompidos por um garoto da nossa sala.  Ele aparece do nada, com um celular na mão:
— Cara, você tem que ver esse vídeo é muito engraçado. — Fico um pouco sem graça, e aos poucos, vou me afastando e deixo eles sozinhos.

Que garoto mal educado! Será que ele não viu que eu estava conversando com Felipe? Sempre que Felipe e eu estávamos sozinhos, aparecia alguém, ou acontecia algo que separava a gente, e sério, isso já estava me irritando! Não tenho cabeça pra pensar isso agora. Tenho que relaxar e pensar no meu aniversário. Amanhã!


Fany e Priscila vão para casa juntas. Vou para casa junto com Mila:

— E aí, convidou o Senhor Felipe?
— Não conseguir!
— Francamente Clara!
— O que foi, Mila?
— Amiga, você tem que dizer o que sente! Só acho que isso é importante!
— Eu sei, Mila, mas, eu não consigo! Sei lá, eu travo, fico parecendo uma mula.
— (Risos) Gostei da parte da "mula".
— (Risos) Sua bobona!

Era ótimo conversar com minhas amigas. Desabafar um pouco. Era tão estranho o que eu sentia por Felipe. Chegava até a doer. Li certa vez em um livro, que não podemos guardar o amor, porque senão a gente fica doente. E do jeito que eu tava, eu ia acabar era morrendo!

Chego em casa. Mamãe estava na cozinha e Júlia estava novamente mexendo no celular. Ai, ai. O amor tem diversas formas. Subo as escadas para meu quarto. Abro o guarda-roupa. Fico admirando meu vestido novo. Nem acredito que daqui há algumas horas, terei 16 anos. Começo a dançar valsa com meu vestido que ia usar na festa. Queria tanto que Felipe aparecesse na minha festa. Por culpa daquele garoto mau educado, nem soube o que ele ia responder. Fico tão entretida dançando com meu vestido, que nem percebo que mamãe está na porta, me olhando e segurando os risos:

— Mamãe???
— O que foi? Você tem direito de dançar e ser feliz. Amanhã é seu aniversário não é?
— Sim, eu estou muito feliz.
— Bom, pelo menos posso conversar com uma de minhas filhas, já que a outra não desgruda do bendito celular! Clara, sente aqui. Eu quero perguntar uma coisa, desde ontem, sobre aquele menino, o Felipe.  Fico nervosa, minhas mãos ficam suadas e frias. O que será que ela ia falar sobre ele?
— Pode perguntar, mamãe.
— Filha, eu não pude deixar de notar... Você gosta dele, não gosta?  Mamãe também estava desconfiada.
— Mãe... Eu nem sei o que sinto. É esquisito, quando estou perto dele, fico sem fôlego e meu estômago parece está cheio de borboletas, sem contar que fico quente.
— Filha, você gosta mesmo dele?
— Eu gosto muito dele mãe! Mas, acho que ele só me ver como amiga.
— Porque acha isso?
— Mãe, olha pra mim! Sou baixinha, infantil, choro por qualquer coisa e nem sei matemática. Felipe é tão maduro, tão inteligente, tão lindo. Jamais que ele iria se apaixonar por uma boba como eu.
— Clara meu amor não diga essas coisas. Não se coloque para baixo. Deus sabe o que faz sempre. Deixe tudo nas mão de Deus. Eu sei a vida difícil que ele passou e tudo isso tem um propósito na vida dele. Nada é a toa.
— Como a senhora sabe?
— Um passarinho me contou. Eu já vou indo. Tenho que preparar o jantar.
— Mamãe, por favor, não conta pro papai!
— Minha boca está selada.  Faz sinal de que fechou a boca com zíper.

A tarde passou muito rápido. Fiquei um tempo no computador, vendo blogs de garotas cristãs. Achava muito legal o modo de como elas escreviam, falando de Deus através da internet. A noite chega. Papai aparece cansado do trabalho. Oramos e jantamos. Mau podia esperar para o dia seguinte!

O dia amanheceu cheio de trabalho. Assim que acordo, e desço as escadas, me deparo com a sala cheia de bexigas. Júlia e papai estavam enchendo as bexigas. Vou para a cozinha e lá estava mamãe, Dona Flor e Mila, preparando os quitutes da minha festa. Mamãe me aborda e pede para mim, fazer os brigadeiros. Fala sério! Minha mãe queria me escravizar na minha própria festa? Júlia faz um lindo arco com os balões e mamãe enfeita a mesa. Logo após, tudo pronto, todo mundo se arruma para a festa que seria daqui a pouco.

Fico alguns minutos me admirando no espelho. Aquele vestido era mesmo LINDO! Calço meu scarpin preto. Queria tanto que Felipe viesse... Enfeito meu cabelo com uma flor. Deixo meu cabelo solto.

Hoje é um dia especial!


Desço as escadas. Todo mundo está lá na minha festa: meus pais, minha irmã mais velha chata, os irmãos da igreja, Mila, Priscila e a Fany:

— Espero que não fique zangada... Eu convidei a Fany para sua festa.  Explicava Priscila
— Tudo bem! Tem sempre lugar para mais um! Fique a vontade Fany.
— Amiga, esse vestido está lindo! Você está linda!  Mila me enchia de elogios.
— Obrigada. Ele não vem né?  Perguntei por Felipe.
— Calma amiga, vai que ele aparece né?

A festa estava envolvida em um clima maravilhoso. Até que chegou a hora de cortar o bolo. Lógico que o primeiro pedaço era para a minha mãe. Todos ali, cantando parabéns. Estava tão feliz. Não pude conter as lágrimas. Só faltava Felipe para minha alegria está completa. Depois de uns minutos, papai e eu dançamos valsa. Era tradição em festas de debutantes.  Meu pai era ótimo valsando.
Escuto uma voz, sobre o ombro do meu pai:

— Com licença, pastor César, posso dançar com sua filha?  Meu Deus! Ele veio! Era Felipe em carne, osso e smoking. Papai solta a minha mão e coloca em cima da dele. Fico gelada na mesma hora. Uma música começa a tocar:

♫  "Heart beats fast
Colors and promises
How to be brave
How can I love when I'm afraid to fall
But watching you stand alone
All of my doubt suddenly goes away somehow"

Começamos a valsar uma música linda. A melodia era perfeita com aquele momento. Não havia ninguém na sala, apenas ele e eu:
— Pensou que eu não viria?
— Sim, achei que não viria. Você não me deu uma resposta! Não precisava vim tão chique. É uma festinha de família.
— Desculpe, não queria chamar atenção. Trouxe o seu presente.
— Não precisava. Sua presença é meu presente.  Ele sorri para mim.

 Depois disso, começo a dançar com dois pés esquerdos, não sei o que deu em mim. Piso no pé dele constantemente, pela cara de Felipe, seu pé estava dolorido. Damos uma pausa e vamos até a mesa, beber um refrigerante. Felipe me entrega o presente. Uma linda caixa embrulhada rosa, com uma fita amarela em cima. Abro o presente. Era um lindo ursinho de pelúcia. Tão fofo:

— Feliz aniversário, Clara.
— Obrigada Felipe. Ele é muito fofo!  Dou um abraço apertado no Felipe. Aquele momento ficaria perfeito com um beijo, mas, eu não queria estragar as coisas entre nós.
— Muito obrigada mesmo!
Nisso, uma pessoa conhecida, de cabelos ruivos, chega e me abraça de repente:
— Feliz aniversário, Clarinha! — Era Nelson, tão bem vestido quanto Felipe. O cheiro da sua colônia fica empesteado no meu vestido. 
— Ruivo? O que faz aqui?
— Olá? Toc, toc.  Ele dá leves cascudos na minha cabeça. — Seu pai é amigo do meu pai, e ele me convidou para vim na sua festa. Achou que eu ia esquecer da minha amiga. Toma. Seu presente!
— E você viajou de tão longe só para vim aqui? Obrigada por ter vindo!  Seguro o presente dele. É meio pesadinho. Percebo que Felipe está meio desconfortável:
— Clara, eu já vou indo. Minha tia tá sozinha em casa e eu moro longe. Tchau a gente se vê amanhã.
— Tá bom. Tchau Felipe!  Vejo o garoto que amo ir embora de smoking.
— Carinha esquisito né?  E você é um chato. Sério, pensei em falar isso.
Não, eu não acho.

Assim que dá, onze horas, todo mundo se despede da aniversariante aqui. Lógico que eu não ia escapar de arrumar a bagunça que ficou. Júlia e eu arrumamos tudo. Ela comenta comigo:

— Você viu como o Felipe tava um gato! Uhuull. Arrasou! Vocês pareciam o casal perfeito dançando valsa, ai meu coração (risos).
— Ele tava lindo mesmo. Agora para de gracinha e vamos arrumar tudo isso!
Termino de limpar tudo e vou para meu quarto. Abro o presente do Nelson. Era uma caixinha de música, com uma pequena bailarina, que girava enquanto tocava a música. Tenho que admitir: Nelson tem um bom gosto em dar presentes. Deito na minha cama, e abraço o ursinho do Felipe.

De uma coisa eu tinha certeza: Nada mais na minha vida, seria a mesma coisa depois de hoje.


CAPÍTULO 23 (NARRADO POR FELIPE)

Domingo, 6:43h

Hoje será um dia que digamos, que eu não queria que tivesse chegado: meu pai vem me visitar hoje... E não estou nem um pouco alegre! Vou me arrastando até chegar no banheiro. Estou cansado, com muito sono. Cheguei tarde em casa, devido ao aniversário da Clara... Clara! Como ela estava linda naquele vestido. Se ela soubesse que eu...

Ligo a água do chuveiro. A água morna caindo pelo meu corpo me dá um pouco de ânimo.
Lembranças da minha mãe doente no leito do hospital, invadem minha mente, lentamente, como névoa. Era meados de fevereiro de 2010. A lembrança se torna tão real, a ponto de eu achar que ela está bem perto de mim:

''Vai ficar tudo bem filho. Olha pra mim. A mamãe vai para um lugar melhor..."
"Não fale isso como se fosse uma coisa boa! A senhora está morrendo e fala essas coisas com um sorriso no rosto!"

Mãe... Por que me abandonou? Não sabe o vazio que deixou no meu coração... Lembro também, da vez em que, tomado de desespero, por ver minha mãe em estado avançado da doença, liguei para meu pai em um telefone público implorando por ajuda. Os remédios de minha mãe eram extremamente caros. Apenas salário do meu trabalho no mercadinho da esquina, era insuficiente. Quando ligava para ele, automaticamente alguém desligava o telefone do outro lado da linha. Por que, pai? Por que você me rejeitou? Não sabe a raiva que tenho de ti! Abandonou minha mãe e a mim, no momento mais difícil das nossas vidas.

Dou um soco tão forte no azulejo da parede, que acabo machucando minha mão. Agora ela está sangrando! Droga!  Meu Deus me dê forças para aguentar olhar para a cara desse cínico! Estou orando de todo coração, para que Clara apareça logo. Quando ela está por perto, me sinto mais calmo, mais tranquilo...

Já são 7:19h. Saio do banheiro. Pelo visto, Clara não vem! A campainha da porta toca. Minha tia vai atender enquanto estou me vestindo no quarto. Escuto uma voz masculina vindo da sala. Meu Deus, eu não quero ter que ir naquela sala!

Um homem alto, moreno de olhos esverdeados, olhos iguais aos meus, vestindo terno e gravata, mexendo em um Smartphone está sentado na poltrona da sala. Minha tia oferece café ao sujeito. Ele puxa assunto. Sento no sofá, em frente à ele, ao lado da minha tia:
—  Então Felipe, não vai cumprimentar seu pai? -Sua voz era idêntica a minha.
—  Oi. —  Digo entredentes.
—  E a escola? Como vai as notas? —  Ele realmente não sabia puxar assunto.
—  Bem.
—  Ah! E a namorada? Você tem namorada né?!
—  Não.
—  E futebol? Qual o seu time favorito?
—  Desculpe senhor, eu não gosto de futebol.  Fala sério! Que sem-noção. Não estava parecendo conversa de pai e filho, mas, de dois estranhos que se encontram em uma parada de ônibus.

Minha tia me cutuca para eu puxar assunto com meu pai. Vendo que eu não abro a boca, ela começa a tagarelar assuntos aleatórios.

Não me sinto nenhum pouco a vontade em conversar com meu "pai". Eu nunca nem tinha o visto antes. Depois de uns dez minutos, peço permissão para me retirar. Não consigo dividir o mesmo ar com ele. Não podia acreditar no quanto eu parecia com ele fisicamente. A única diferença era na cor dos cabelos. Os cabelos dele eram castanhos. Fecho a porta do meu quarto. Deito na minha cama. Porquê esse cara não dá logo o fora e finge que eu não existo! Não foi isso que ele fez durante esses dezoito anos? Alguns instantes depois, minha tia entra no quarto, muito chateada:

—  Que coisa feia Felipe! Você nem conversou com seu pai direito! O que ele vai pensar?
—  O que queria que eu dissesse? ''Oi, meu nome é Felipe. Prazer. Lembra de mim? Sou o filho que você abandonou. Tudo bem?'' Me poupe tia... Se ao menos a Clara estivesse aqui...
—  O que a Clara tem haver com isso, Felipe?
—  Nada.
—  Agora você vai falar! O que a Clara tem haver com isso?

Não poderia esconder esses sentimentos para sempre. E a minha tia já estava desconfiando.

—  Tia, ela é só uma amiga! Eu gosto muito dela. Como amigo...
—  Ahã! Sei! Olha Felipe, eu gosto muito da Clara também. E naquele dia que você a trouxe aqui em casa, eu pensei que era sua namorada. E eu ficaria feliz se ela fosse. Tô orando para que vocês fiquem juntos!
—  Tia! Não diga bobagem!
—  Bobagem? Quando você perder a chance com ela aí sim, você vai ver o que é bobagem!

De repente, minha tia fica séria.

— Ainda está pensando em ingressar no Exército?
— O que está feito, está feito.
— Mas e a Clara, Felipe?
— Clara nada tem a ver com isto.
— Diga a essa menina o que realmente sente, ou quem vai mais sofrer será ela.

E se a minha tia estivesse certa? Será se estou perdendo as chances em dizer logo o que sinto? Como se a Clara, a filha do pastor, fosse amar um zé-ninguém como eu! E cá entre nós, existem caras melhores do que eu.

—  Já ia me esquecendo. O seu pai pediu para te dá isso.

Ela me entrega uma sacola com uma caixinha de papelão dentro. Era um celular, desses de última geração, Galaxy alguma coisa, sou péssimo em gravar modelos de celular:

—  Pelo menos, ganhei alguma coisa dessa vez hein?! —  Digo com sarcasmo.
—  Da última vez em que ele te ligou, você disse que não tinha celular. Aí ele resolveu comprar um.
—  Não precisava me dá nada. Eu trabalho é para isso! —  Coloco o celular em cima do travesseiro.
—  Felipe pare de ser tão orgulhoso! Que coração de pedra!
—  Eu? Coração de pedra? Chega! Vou dá uma saída!
—  Vai onde rapaz?
—  Andar por aí! A presença do meu pai, deixou esse ambiente insuportável!

Abro a porta e saio. Cubro minha cabeça com o capuz da jaqueta. O dia de hoje não estava sendo legal. Ai, Clara. Se ao menos eu visse seu rosto... Tenho tanto medo de te perder. Meu coração dói quando estou longe de ti... Eu te amo Clara. Eu te amo. Porquê essas palavras não saem da minha boca quando estou perto de você? Que raiva!

Avisto uma coisa no beco. Era um gatinho preto com a patinha machucada. Muito magrinho e maltratado:
—  Calma amiguinho. Vai ficar tudo bem... Vou cuidar de você.

Tiro minha jaqueta e protejo o gatinho com ela. Levo ele para casa. Vou cuidar dele. Assim como eu, aquele gatinho foi abandonado, esquecido por muitos. Ninguém levava em consideração sua existência. Porém, eu vou dar um lar para ele.  Caminho para casa.

Clara, aonde você está?


CAPÍTULO 24

Impressão minha ou o dia hoje está mais bonito?

Ah, é mesmo! Finalmente já tenho 16 anos! Ainda não dá para tirar carteira de motorista, mas, já é um passo. Hoje, prometi ao Felipe que iria para a casa dele. O pai dele vai o visitar. Meu Deus, por favor, que ocorra tudo bem. Quero tanto que Felipe abandone essa raiva que ele tem do pai. Eu sei que o que seu pai fez foi errado, mas, devemos perdoar, por mais doloroso que isso seja.

Ai, só de lembrar que dancei valsa com ele ontem! Ahhhh! Parecia um sonho! Pena que aquele momento não voltará nunca mais.

Escovo os meus dentes. Penteio meus cabelos. Vou vestir um vestido branco estampado com borboletas. Desço as escadas. Tomo meu café. Minha família e eu, vamos para a EBD. Mamãe está radiante naquele vestido azul com margaridas. Entro no carro. Papai puxa assunto comigo:
—  Então filha, gostou da sua festa de aniversário?
—  Ah, papai, eu amei! Foi simples, mas linda. Amei o vestido também mamãe.
—  E aquele rapaz? o Felipe? Não achei que ele viesse?
—  Também não.
—  Ele valsou muito bem com você. Admito que fiquei um pouco enciumado.
—  Que isso papai? Ele é só um amigo. —  Ah pai, se o senhor soubesse...
—  Júlia, pelo amor de Deus, larga esse celular. —  Dizia papai rigidamente para ela.
—  Tá bom. Não precisa brigar. Affs!
—  Bom, (pigarro) fiquei feliz em vez o Nelson ontem. E como ele cresceu. Meu Deus. Espero vez ele mais vezes. —  Falava meu pai com alegria. Pois eu não! O Nelson era muito chato!!! Ele estragou o meu papo ontem com Felipe.

Chegamos na igreja. Que estranho! Felipe não está aqui. Será que aconteceu alguma coisa? Mila corre em minha direção desesperada. O que aconteceu Senhor?
— Clara! Aconteceu uma coisa grave com a Fany!
—  O que foi que aconteceu com ela?
—  Ela sofreu um acidente, quer dizer um motorista bêbado atropelou ela! Ai meu Deus! Eu não sei como ela tá! A Priscila acabou de me enviar uma mensagem! Ai, me ajuda amiga tô desesperada! —  Mila estava se tremendo. Seus olhos cor de mel estavam marejados.
—  Calma Mila. Vou pedir para meu pai levar a gente no hospital aonde ela está. Pergunta para a Priscila qual é o endereço.
—  Tá bom. Vou ligar agora para ela!

Me perdoe Felipe. Não vou poder está com você. Por favor não me odeie!

Papai dá carona para mim e para Mila. Ela está nervosa e está chorando muito. Seguro a mão.
—  Calma Mila. Tenho certeza de que Deus está com Fany!

Ela assente com a cabeça. Também estou nervosa. Por favor Deus, que a Fany esteja bem!

Papai estaciona o carro a poucos metros do hospital. Entro e Mila se informa na recepção.  Ninguém do hospital, nenhum enfermeiro, nem mesmo a recepcionista sabia em qual quarto se encontrava Fany. Mila e eu nos separamos para encontrá-la com mais facilidade. Pego o caminho da esquerda e Mila o da direita.

Depois de muito andar e bater na porta de cada quarto procurando Fany, avisto uma pessoa. Uma senhora idosa morena, de cabelos grisalhos, portando uma bengala, está sentada do lado de fora do quarto:
—  Essa menina só me dá desgosto! Maldita hora em que os pais dela morreram!
—  Com licença! Uma menina com aproximadamente a mesma idade que a minha, mais ou menos do meu tamanho e de pele morena, se encontra nesse quarto?
—  Tem uma menina de 15 anos nesse quarto sim. E quem quer saber?
—  Ufa! Deve ser ela... Sou uma amiga de escola dela.
—  Tenho um azar danado! Aquela peste não serve nem para morrer!
—  Senhora, como pode falar coisas tão horríveis!
—  É fácil me julgar! Não é você que a cria desde bebê! Maldita hora que meu filho casou com aquela mulherzinha! Ela só o levou para o túmulo! E ainda me deixou com essa coisa que chamo de neta!
—  Meu Deus, como a senhora pode ser tão amarga assim? Devia estar feliz por ela estar com vida!
—  Pois eu queria, é que ela estivesse morta e enterrada! Você é crente não é?! Deu para perceber o seu jeito! Me dê licença! Tenho mais o que fazer! Vou para minha casa!

Ela vira as costas e vai embora se apoiando na bengala. Nossa! Que mulher mais sem coração! Meu Deus do Céu! Se ela for mesmo a avó da Fany, então, coitada da menina. Bato na porta. Uma voz lá dentro diz para entrar. Finalmente encontrei Fany. Priscila estava lá, sentada em uma cadeira branca ao lado da cama. Envio uma mensagem pelo celular para Mila com o número do quarto. Quarto 101. Fany estava com a perna direita quebrada em três lugares, segundo o raio-x. Um enorme gesso cobria a perna. A cabeça e o braço esquerdo enfaixados. Algumas escoriações pelo rosto. Os olhos estavam vermelhos e inchados, provavelmente por ter chorado:

—  Fany tudo bem com você? - Pergunto
—  Mais ou menos. O que importa é que estou viva, né?!
—  Aquela senhora na porta era sua avó? —  Pergunto com um pouco de vergonha
—  Infelizmente sim! Ela é a minha tutora responsável para cuidar de mim. Meus pais morreram quando eu era bem pequena. Ela odiava minha mãe. Sempre dizia que foi ela a culpada por meu pai ter morrido. E ela me odeia por isso e eu... Ahhhh! Ela veio aqui só pra me perguntar porque eu não morri no acidente! Já jurei que quando fizer 18 anos vou embora daquele inferno que chamo de casa! Minha cabeça dói tanto...
—  Descanse, Fany. Não vale a pena ficar com raiva dela agora. O importante é suas amigas estão aqui! —  Falei motivando-a.

Mila aparece correndo com lágrimas pela face e abraça Fany, que se contrai devido as dores. Uma enfermeira aparece e pede para fazermos silêncio. Assim que a enfermeira sai, Mila mostra a língua. Fany parece esta emocionada:

— Te machuquei Fany? - Pergunta Mila
—  Não, não é que vocês são tão gentis e... São tão unidas... Acabei de conhecer vocês e já me tratam como se fossemos "velhas amigas"... Isso me deixa tão... Eu não sei explicar... Eu não sei o que estou sentindo...
—  A gente valoriza os amigos Fany! E a gente já te considera de casa! —  Explicava Mila
—  Eu quero mudar! Eu quero ser como vocês! Vocês três tem um brilho, é tão lindo! Eu tenho certeza que foi Deus quem me livrou da morte hoje. Eu quero mudar... Eu quero aceitar Jesus na minha vida!

Lágrimas caiam pelo rosto de Fany. Lágrimas de alegria. Ela estava sendo sincera. Ela queria aceitar a Jesus como Salvador de sua vida. Admito que fiquei muito emocionada também. Viro para o lado e vejo Priscila e Mila com lágrimas nos olhos.

— O que podemos fazer? —  Pergunta Priscila
—  Só Deus pode te ajudar Fany! Vamos orar por você! Meninas, vamos dá as mãos.
—  Clara, sua fé é tão linda. Eu quero que orem por mim! Eu quero acreditar em Deus.
—  Vamos te ajudar Fany! Amigas são pra essas coisas! —  Falo com um sorriso no rosto.
—  Só um lembrete meninas: Fany é o apelido que a Shirley me deu. Meu nome verdadeiro é Rosane.
—  Rosane... Vamos orar por você. —  Digo com um sorriso ainda maior no rosto.

Oramos por Rosane. Foi um momento de fé. Sentimos a presença de Deus ali naquele quarto de hospital. Depois da oração, conversamos bastante. Priscila, então, se lembra de algo importante:

—  Meninas... Sai de casa tão apressada... Hoje tenho que cuidar do meu irmãozinho... Minha mãe vai precisar sair para uma reunião urgente do clube... E meu pai vai demorar para chegar em casa, por conta da hora extra do trabalho... —  Falava Priscila calmamente. Incrível como ela conseguia ser tão calma.
—  Você tem um irmãozinho Pri? Qual o nome dele? —  Pergunta Mila
—  Ele se chama André e tem seis anos... Hoje vou ficar no hospital com a Fany, quer dizer, Rosane. Não se preocupem. Eu já avisei papai e mamãe, e graças a Deus, eles deixaram. —  Dizia a Pri
—  Priscila, eu vou ser a babá do seu irmãozinho! —  Falo com firmeza.

Felipe, por favor, me perdoe...


CAPÍTULO 25

Assim que eu disse que tomaria de conta do irmãozinho da Priscila, ela me passou o endereço de sua casa. Ela liga para a mãe dela, para confirmar que uma amiga iria cuidar de seu irmão. Me despedi da Rosane, dando um abraço nela e disse que segunda-feira faria outra visita. Mila também se despede e deixamos Priscila e Rosane no quarto de hospital. Alguém teria que ficar com ela, enquanto estivesse em observação por causa do acidente.

Falo para o meu pai que me candidatei à ser babá do irmão da minha amiga. Meu pai não disse nada. Só ficou preocupado porque eu faltaria o culto da noite. Mila e eu entramos no carro. Meu pai daria carona para ela ir para casa. Mostrei para ele o endereço da casa da Priscila. Ele sabia aonde era e me leva até lá. Uma tal de Vila Violeta.

Partimos para achar a casa da Priscila. Eram duas horas de viagem. E o trânsito também não estava ajudando em nada. Chegamos lá e era uma casa branca, enorme, de dois andares, com um lindo jardim de rosas na frente e grandes janelas de vidro, que deixava a casa com um ar mais chique:

— A Priscila é rica? —  Perguntei.
— E, amiga, você não viu nada. E olha que eu já vim aqui umas vezes e sempre me impressiono com o tamanho dessa casa. —  Dizia Mila
—  Bom, acho melhor eu ir. Tchau pai, chego em casa assim que eu puder. Tchau, Mila.
—  Tchau, filha. Que Deus te acompanhe.
— Tchau, amiga e juízo!

Dou tchau para os dois enquanto vejo o carro sumi no horizonte. Juízo? Sério, Mila? Até parece que eu sou desmiolada. Bato na porta e uma mulher alta, de cabelos curtos castanho-escuro, olhos cor de avelã, vestindo um terninho branco, abre a porta com um sorriso nos lábios vermelhos:

—  Oi.Você deve ser a menina, que a minha filha disse que viria. Ai como você é lindinha. Meu nome é Fátima, prazer. —  Ela era falante e muito enérgica. Priscila não parecia nada com sua mãe.
— Sou a Clara.
— Venha, entre. A Priscila ia cuida do irmãozinho dela hoje, porque a Nana ficou doente. Uma gripe terrível e eu não quero que ela contamine meu anjinho.  Mas, como a amiga dela sofreu um acidente, ela foi correndo para o hospital cuidar dela. Ai como minha Priscila é bondosa.

Entramos na casa. As paredes brancas deixavam o ambiente maior e mais arejado. Havia pinturas nas paredes, e réplicas de obras famosas. Reparo na mesa com vaso de lírios. A mãe da Pri devia gostar muito de decoração. O irmão da Pri estava deitado no sofá bege, usando uma camisa com o escudo do Capitão América e, com um chapéu de pirata na cabeça, assistindo "Piratas do Caribe: a maldição do pérola negra". Parecia totalmente entretido assistindo o filme:

—  Esse é o meu filho, André. Ele tem seis anos. Desde que ele assistiu esse filme, não para de assistir. Não sei como não enjoa. Querida estou atrasada para minha reunião do clube. O almoço já está pronto. Se ele ficar muito entendiado, é só dá um passeio pelo bairro, tá amore. Meu marido vai demorar muito hoje. Hora extra na empresa. Ai olha só essa hora. Fiquem com Deus, beijo, beijo, tchau.

E ela saiu apressada e entrou no seu carro fiat uno preto. Meu Deus! Como a mãe da Priscila era falante. Não lembrava em nada a filha calma e quieta. Me sento no sofá menor e assisto ao filme com Andrézinho. Ele se vira para mim meio confuso:

—  Oi! —  Ele diz
—  Oi. —  Retribuo
— Quem é você?
— Sou a Clara. Vou cuidar de você hoje?
—  E a Nana?
— Hã... Sua mãe disse que ela tá muito doente.
— Tô com fome, Clara.
—  Ah, tá... Vou colocar seu almoço viu?!
— Clara, você é amiga da minha irmã?
—  Sou sim.
— Você é muito "binita"! —  Acho que ele quis dizer "bonita", mas, não conseguir pela falta dos dentinhos.

Aquele garotinho além de ser mega fofo, era um mini-conquistador. Não sabia se sorria, ou se apertava as bochechas dele. Vou até o fogão e tiro a tampa da panela. Macarronada. Hum. Parecia deliciosa. Ponho a macarronada no prato de porcelana. Vou até a sala levar o prato do André. Ele faz um sinal negativo para mim:

— O que foi, Andrezinho?
— A mamãe disse que a gente não pode comer nesses "plato". Só no dia "especilau".
— Xi, é mesmo. Deixa eu trocar senão ela pode ficar brava.

Vou novamente na cozinha e vejo um prato e um copo de plástico do Mickey Mouse. Coloque a macarronada no prato. Aproveito e coloco suco de uva que havia na geladeira, no copinho.

André come o macarrão e bebe o suco entretido olhando para a televisão. Logo após, ele me avisa que fez algo:
—  Oh, oh. Clara eu "susei" o sofá da mamãe. Ela vai "bigar" comigo!

E agora? O sofá chiquérrimo estava sujo com suco de uva. E a culpa era minha. Era óbvio que André comia sentado na mesa e não assistindo tv na sala. Eu ia levar uma bronca logo no meu primeiro dia como babá! Precisa pensar em uma solução rápido. Lembrei: o removedor de manchas que a minha mãe sempre usava quando ia lavar roupa. Acho que tenho algum dinheiro aqui na minha bolsa. Tenho R$ 11,50. Acho que dá.

Troco a camisa suja de suco do Andrezinho, e visto ele com uma camisa com o raio do Flash. Céus, esse menino só tem roupa de super-herói? Pego a mãozinha dele. Tranco a porta. Coloco a chave da casa na minha bolsa de franja. Orando para que os pais dele demorassem a chegar em casa:

—  Andrézinho vamos fazer um pequeno passeio. Não conta nada para os seus pais viu?
—  Tipo missão "secleta"?
—  É, tipo missão secreta!

Andamos algumas quadras, acho que foram umas 20 quadras, minhas perninhas finas já estavam doendo até que avisto um supermercado. Aleluia senhor! Entramos e quase me perco de tão grande que era. Vou correndo para a ala de limpeza. Removedor de manchas, removedor de manchas, removedor de manchas, removedor de manchas. Ah achei. R$ 9,80! Isso é um roubo! Mas fazer o quê? Ou era isso ou levar bronca da mãe da Pri.

Andando mais um pouco pelo imenso supermercado, escuto uma voz me chamando. Como alguém poderia me reconhecer naquela imensidão:
—  Clara! Clara!

Era a tia do Felipe, dona Vanusa. Ela abriu um sorriso enorme quando me viu:
—  Clara, amada, como você tá? Faz tempos que eu não te vejo. Quem é esse menino lindo?
—  É irmão da minha amiga. Estou cuidando dele. E a senhora, o que faz aqui? Esse supermercado não é muito longe de onde a senhora mora?
—  É filha, é muito longe. Mas, é o único que faz entrega a domicílio. Sabe não posso carregar peso, e o Felipe tem estado tão cansado ultimamente.

Fiquei com vontade de perguntar sobre o Felipe, mas ela respondeu meus pensamentos:

— Eita que o Felipe demorou com essa carne. Como sempre homens! Optando pelo mais barato. Quer vim comigo?
—  Eu--Eu!- Pergunto surpresa. Acho que ele nem vai querer me ver. Eu furei com ele. Deve está zangado comigo.

Vamos com a tia Vanusa até a seção das carnes. Felipe estava olhando para carnes penduradas no gancho, como quem escolhe um filme para assistir. Assim que ele me vê, por incrível que pareça, ele abre um sorriso enorme:

—  Oi Clara, tudo bem?
— Tu--Tudo bem.
—  E esse garotinho quem é?
— Sou o André. Sou o ''namolado'' da Clara! —  Esse Andrezinho é mesmo um fofo.
— Puxa namorado da Clara. Então tome de conta direitinho dela. —  Brincava Felipe.
— Sim senhor! - Andrezinho fazia continência.

Fomos ao caixa. Tia Vanusa pagou as compras. Eu paguei meu removedor de manchas e de quebra, Andrezinho ainda ganhou um bombom da tia Vanusa.

Voltamos para a casa dele, apressadamente. Já havia passado da hora de voltar. Tava orando para que os pais ainda não estivessem em casa. Uma voz me chama. Esse eu reconheço. Felipe!

— Clara, espera. Nossa, que pressa é essa?
— É o seguinte, Felipe, Andrezinho derramou suco de uva no sofá da dona Fátima, e se ela chegar em casa e vê o sofá sujo, eu morro!
— Calma, garanto que não vai acontecer nada de ruim. Deixa comigo eu te ajudo. Tenho uma receita caseira na minha mente.
—  Jura? E cadê a sua tia?
—  Ela foi para a casa de uma amiga aqui perto. E como elas falam... Não se preocupe. Ela sabe ir sozinha para casa. Resolvi vim atrás de você.
—  Eba! Mais um amigo pra mim "blincar". Tô feliz! Tô feliz! —  Comemorava Andrezinho.


Aquela tarde foi mega divertida. E eu pensando que o Felipe iria ficar chateado comigo. Ele estava alegre. Ele brincou o Andrezinho de pega-pega, brincou com os carrinhos de brinquedo dele, e até jogou vídeo-game, deixando Andrezinho ganhar todas. O Felipe dava para ser um ótimo pai! Meu Deus! O que eu estou falando?

Felipe diz que vai limpar o sofá. Ele tira a jaqueta, ficando apenas de camiseta preta. Eu coro. Ele consegue retirar a bendita mancha de suco do sofá! Deus te abençoe meu amor!

Logo após, sirvo um lanche para Andrezinho, só que dessa vez na cozinha. Chocolate Nescau com biscoitos de aveia.

Assistimos tv juntos e logo, a mãe de Priscila, dona Fátima, aparece. Andrezinho corre até a mãe. Ela o pega nos braços:

—  Mamãe! Mamãe!
— Oh, meu amor. Que saudades! Vejo que não tem nada quebrado! Então foi tudo bem! Se divertiram?
—  Muito mamãe! A Clara é muito boa!
—  E quem é você? - Perguntou a mãe da Pri, olhando para o Felipe
—  É o Felipe. Ele é meu amigo mamãe! A gente "blincou" a tarde toda!
— Ai, Clarinha, muito obrigada pela ajuda. E muito obrigada também Felipe. Nunca vi o André tão feliz. —  Se ela soubesse a estória do sofá.

— Bom, eu tenho que ir. Já anoiteceu e preciso ir para casa.
— Tudo bem querida. Pode ir. E, ah, obrigada de coração por cuidar do meu anjinho. Tchau.

Felipe e eu nos retiramos. Acenamos para Andrezinho de longe.

Depois de tomar a decisão de tomar de conta do irmãozinho da Pri, e passar a tarde toda com aquele menino fofo, fiquei feliz por Felipe ter me ajudado com ele;

— Então, como você se meteu nessa? Clara, a babá! Quer dizer que o Andrezinho é seu namorado?
— Pára, Felipe. É uma longa estória.
— Se quiser pode contar enquanto eu te acompanho até em casa...
— Não precisa, Felipe, sério! Você já fez muito por mim hoje e desde sempre! Tem sido uma amigão para mim!
— Você acha? Minha tia disse que eu tenho coração de pedra.
— Ah quanto a isso, eu acho que ela esta errada! E por falar nisso, você não devia ir pra casa com ela?
— Clara a essa hora, ela já deve ido sozinha para casa. Impaciente do jeito que é. Te contei sobre meu pai. Ele é muito cara de pau..
— O que foi?
— Me deu um celular novo, só para se desculpar pelas coisas que fez no passado. É mole? Sabe Clara, não tenho mais raiva dele. Tenho, sei lá, acho que é pena.
— Fico feliz que não esteja mais zangado com ele. Veja o lado bom. Agora a gente pode conversar pelo telefone.

Rimos juntos com o que eu disse. Ficamos um bom tempo ali, conversando. Era muito bom conversar com Felipe.

Pegamos o ônibus juntos. O ônibus estava lotado. Ficamos de pé. Descemos no terminal e pegamos outro ônibus para minha casa. Finalmente em casa. Fico em pé do lado de fora. Eu fico tentando falar o que sinto por ele, mas, não sai nada da minha garganta. Enfim, consigo falar:

— Felipe, manda um abraço para a sua tia.
— Vou sim. Tchau Clara. Durma com os anjos.

Tchau Felipe... Sonhe comigo... Até amanhã...



CAPÍTULO 26

Queria poder passar o dia inteiro na cama. Meu corpo todo está doído. Deve ter sido por causa das brincadeiras exaustivas do Andrezinho. Nossa! Que canseira aquele menino me deu. Ainda bem que o Felipe me ajudou. Esses dias ele estava um doce comigo. E eu estou adorando. Não posso faltar aula essa semana. Já começou a semana de provas, ou como costuma dizer, "A Infernal Semana de Provas". Hoje seriam as matérias mais fáceis, como Arte e Geografia. Conversei demais com a Mila ontem por mensagens no WhatsApp. Acho que isso explica o ardor dos meus olhos.

Lentamente olho para o visor do meu celular. Meus olhos ainda se negam a abrir. Tomo um espanto quando vejo as horas: 7:30h.

7:30h? Isso significa que estou atrasada pra dedéu! Cacetada! Dormi demais. E esse bendito celular não tocou o despertador. Pulo da cama que nem uma doida e visto meu uniforme escolar, uma camiseta branca com o brasão da escola e um laço vermelho, uma saia azul acima dos joelhos, meias brancas e minha sapatinha preta. Me sentir indo para a guerra. Se bem que, ir pra escola e ter que enfrentar a Shirley já era um campo de batalha. Visto meu uniforme, escovo meus dentes. Nem penteio os cabelos. Desço as escadas desesperada. Vou cobrar a mamãe. Porquê ela não me acordou? Assim que chego na cozinha, escuto os meus pais conversarem. Não era nada bom:

— Como assim César? Vender o carro? As coisas estão mal assim?
— O que você quer que eu faça, Luíza? O meu trabalho não é suficiente. O seu, muito menos,  e o que a Júlia ganha, ela gasta com ela. As dívidas começaram desde que reformei a igreja. Agora tenho que pagar tudo de volta!
— Calma meu amor. A gente vai pensar em alguma coisa...
— Não conte nada para as meninas Luíza. Elas vão pensar que eu sou um pai fraco e sem fé.
— Prometo não contar César. Prometo.

A situação na minha casa não estava boa. Meu pai gastara o último centavo reformando a igreja. Quando viu que não era suficiente, ele pediu dinheiro ao banco para continuar a reforma. Agora o banco queria o dinheiro de volta, ou senão, meu pai poderia perder o carro... Pior: a gente poderia perder até a casa! Apareço devagarinho na cozinha. Assim que meus pais me veem, mudam de assunto. Pego uma maçã e digo para eles que estou muito atrasada. Minha mãe tenta falar alguma coisa para mim, mas, já estou muito longe para escutar.

Caminho depressa. A escola não ficava tão longe. Apenas alguns quilômetros. Ando tão rápido que acabo sem querer, chutando uma pedra. Ai, aquilo doeu. Mesmo eu estando de sapatilha, sinto a dor que a pedra me causou como se eu estivesse descalça. Não tenho tempo para ver se meu pé ficou roxo. Tenho que ir para a escola!!!

Para minha decepção, não houve aula. Segundo o porteiro, era reunião dos professores sobre planejamento das provas. AAAHHHHHH! E eu acordei que nem uma maluca, não penteei meus cabelos, nem tomei café e de quebra, ainda machuquei meu pé, tropeçando em uma pedra! Que raiva! Se pelo menos uma alma caridosa tivesse me avisado... Bom, ainda está cedo para voltar para casa... Vou andar por aí. Quer saber? Vou passear por aí. Decidi: vou arrumar um emprego! Meus pais estavam falando algo que me deixou preocupada! Não quero perder nossa casinha, não!

Ando feito uma condenada, até que vejo um aviso em uma parede: 


"Precisa-se de funcionárias!" 

Amém Senhor! Corro para ver de mais perto. Vai que aquele aviso era uma miragem
Era a sorveteria do Senhor Garcia. A mesma que Felipe, me levara para tomar sorvete. Foi naquele mesmo lugar que ele fizera revelações da sua vida para mim. Pego o aviso que está no vidro da janela e entro. Lá dentro, o Senhor Garcia disse que estava contratando novas garçonetes. Ele disse que as mulheres eram mais gentis. Porém, ele diz que meus pais precisam assinar o contrato, já que eu era menor de idade. Levo a cláusula para casa.

Poxa, tava tão animada para ajudar meus pais e agora teria que pedir permissão para poder trabalhar. É mole? 
Em casa, subo as escadas de fininho. Minha mãe estava na cozinha. Suponho que meu pai tenha saído. Entro no meu quarto. Ligo o computador. Queria falar com Mila e do porquê ela não ter me avisado sobre a escola.

Mila: Desculpa amiga, estava no hospital, visitando a Rosane.
Clara: É mesmo! Prometi que visitaria ela!
Mila: Vc vem?
Clara: Lógico né boba? Só vou trocar de roupa.


Troco de roupa. Visto uma t-shirt azul-bebê com uma estampa de Minnie e uma calça jeans preta. Olho para o relógio. 10:56h.  Aviso minha mãe que estava lavando louça, que iria visitar uma amiga no hospital. Coloco meus fones de ouvido. Seria uma longa viagem de ônibus.



CAPÍTULO 27

O caminho para o hospital era tranquilo. Encosto minha cabeça na janela do ônibus. A brisa toca meu rosto. Os fones de ouvido estão no volume máximo. Eu sei que muitas pessoas dizem que faz mal para a audição, mas eu gosto! Fazer o quê né? Quando coloco os fones, minha mente viaja. Só assim consigo sair desse mundo caótico. A cada dia que passa, fico mais confusa! Quero falar para o Felipe, o quanto eu o admiro! Tá, tá! ''Admiro'' é uma palavra fraca. Quero dizer o quanto gosto dele. Não! Quero dizer o quanto eu o amo. Viu? Não disse que sou confusa... E pra completar, sou uma completa abobalhada! O Felipe é tão inteligente, tão sério. O jeito como os cabelos negro dele caem por cima dos olhos... Ah! Melhor eu parar antes que meu coração pare de vez!

Escuto a rádio. Está tocando a mesma música que tocou no meu aniversário. A música que dancei com o Felipe. Tudo o que faço ou penso sempre vai parar nele. Não sei o que faço. Acho que vocês devem pensar "Ah, a Clara é uma bobona! Porque ela não diz logo?" Não é fácil! Juro que tento, mas, tenho medo de estragar nossa amizade e principalmente, tenho medo de partir meu coração!

Desço do ônibus. Dou uma caminhada até o hospital. Diminuo um pouco o volume da música no meu celular. Melhor ficar atenta, do jeito que as coisas estão. Todo instante um roubo acontece. Chego no hospital. Pergunto a recepcionista sobre uma menina chamada Rosane. Eu já sabia o número do quarto, só queria saber se havia muito visita. Tem um limite de visitantes para cada quarto. Ela informa que tudo bem que eu fosse, desde que fizéssemos silêncio.

Aparece no quarto e as meninas dizem ''olá'' para mim. Faço um biquinho de raiva para Mila, porque ela não avisou que teria não aula hoje:

— Ah, não amiga. Não faça esse bico de raiva não! Eu juro que não sabia também. Tava tão preocupada com a Rô, que esqueci de ligar para você. Perdoada?
—  Hum... Vou pensar! 

As meninas e eu caímos na gargalhada. Rosane diz que quarta-feira ela iria para casa. Um homem aparece na porta do quarto. Muito educado. Era o tio dela, que viera para ficar com ela como acompanhante. Rosane abre um sorriso para o tio. Ao meu ver, ela gostava muito mais do tio do que da avó. Priscila estava exausta por ficar a noite toda acordada. Olho para minhas amigas. Nossa amizade vale ouro. Não quero perdê-las jamais. Assim que o relógio dá 17:00h, a enfermeira diz para sairmos do quarto, pois a hora das visitas acabara. Priscila se levanta da cadeira de plástico, abrindo um bocão de sono. Mila dá mais um abraço em Rosane. Abraço Rosane também. Vamos as três para casa. 

Priscila pega o ônibus para ir para a casa dela (eu já disse o quão longe é a casa da Pri?). Mila e eu acenamos da parada. Conto para Mila um segredo. Acho que minha família está indo para a falência. Conto também que pretendo arrumar um emprego:

—  Tá, mas, garçonete?
— O quê que tem, Mila? É um emprego honesto como qualquer outro!
—  Tá, mas e os clientes pervertidos? Você sabe que eu odeio homem que fica com gracinha! Dá vontade de quebrar os dentes da boca!
— Calma, menina! Que raiva é essa? Então? Vai me ajudar?
— Vou né? Quer que eu trabalhe junto com você?
— Não! Só quero que convença a minha mãe! A gente inventa e diz que é para um trabalho da escola, sobre ''Estudos Sociais''.
— Só não sei quem vai engolir essa mentira cabeluda!
— Não é mentira! Eu quero ajudar meus pais! Eu sinto que eles estão com problemas... E dos grandes!
— Tá, amiga! Eu convenço a sua mãe! Talvez quem saiba eu também não trabalhe contigo como garçonete?
— Ahhhhhh! Obrigada! Obrigada! Obrigada! Você é uma amigona! —  Digo exultante abraçando a Mila em público, que fica vermelha como um tomate.
— E se a gente se empaturrar de doces? —  Sugiro.
— Não, não. Deixo passar. Tô de regime sabe? Quero perder uns quilinhos... E eu sou besta de rejeitar essa proposta? Vamos lá se empaturrar de doces.

Compramos um pacote de jujubas, mais um pacote de MM'S e um tablete de chocolate. Preciso admitir: somos duas formiguinhas!

Assim que voltamos para casa, mamãe me avisa que meu pai viajara de novo, só que ela não disse o motivo da viagem. Mila conversa com a minha mãe. Parecia uma negociação de mafiosos. Mamãe concorda em a gente trabalhe na sorveteria. Ela ainda diz que isso seria bom para meu aprendizado como pessoa e que eu saberia valorizar todo o serviço que ela faz em casa e deixaria de ser tão preguiçosa! Poxa mãe! Valeu por me deixar pra baixo! Levo a cláusula para ela assinar. Ela ler tudo e assina. Eu trabalharia as 14:00h logo após as escola. Eu não disse para minha mãe que estava trabalhando por ela. Não contaria. Seria uma surpresa! No dia seguinte, levaria aquele papel ao dono da sorveteria. 


No dia seguinte, levei a cláusula para o Srº Garcia, logo após as aulas. Não contei para o Felipe sobre meu novo emprego. O Srº Garcia contratou Mila de imediato porque a achou muito extrovertida. Recebemos o uniforme no mesmo dia. Mila adorou o novo uniforme. Era um vestido rosa com babados, com lacinhos vermelhos, típico de anime. Eu achei bonitinho, mas podia ver coraçãozinhos nos olhos de Mila.

A minha semana foi mega estressante e corrida. Agora, eu sei o valor de cada centavo que a gente ganha! Sempre que o sinal da saída tocava, Mila me arrastava para irmos o mais rápido possível para a sorveteria, deixando todo mundo com cara de paisagem. Levávamos o uniforme nas mochilas e trocávamos no banheiro dos funcionários da sorveteria. Não havia apenas nós de funcionárias. Havia o cara que fazia os hamburguês, a menina do caixa, a menina dos panfletos e a outra garçonete que nem olhava na nossa cara. Ela desprezava a gente.
Tinha impressão às vezes, de Mila está gostando mais do trabalho do que eu própria.

 Rosane voltou a escola. Todos queriam assinar o gesso dela. Shirley se roía de raiva. Ela não falava com Rosane e nem Rosane falava com ela. Ela me confessou que pela primeira vez, estava sendo livre, pois Shirley nunca deixava ela fazer nada. Rosane adorava jogos de video-game e revistas em quadrinhos porém a "poderosa'' Shirley dizia que, se ela quisesse ser parte do grupo, teria que ser descolada, não geek. Eu disse a Rosane, que jamais diria para ela ser uma coisa que não é. Ela sorriu.

A semana de provas foi mesmo infernal, porém mais infernal que isso, foi aguentar meu novo trabalho: Atender clientes irritantes, colocar medidas exageradas de sorvetes nas taças, ouvir gente reclamando que levei o pedido errado. Mila sempre se saía melhor do que eu nisso! Pensava as vezes em desistir, mas, lembrava da conversa dos meus pais. Iria aguentar até ter dinheiro suficiente para eles. No entanto, aquela ainda era minha primeira semana. Pagamento somente no fim do mês! 

Ufa! Fim de expediente! Ainda tinha que lavar as louças. Não sei como Mila conseguia se divertir tanto. Essa minha amiga é um miolo mole. Depois, íamos limpar as mesas, recolher o lixo e varrer o chão. Terminamos de limpar a sorveteira. Deixamos tudo nos trinques. 

Estava tão cansada. Parecia que meu corpo havia sido pisado por um elefante raivoso! Estava muito exausta. Tinha preguiça até para trocar de roupa. Meus cabelos estão desgrenhados, meu uniforme de trabalho estava sujo de cobertura de morango, As sapatilhas apertam meus pés. Mila troca de roupa no banheiro. Pego minha mochila. Trancamos a sorveteria. Caminhamos juntas. Mila bota a mão na cabeça:

— Droga, amiga! Esqueci meu celular na sala dos funcionários! Me dá a chave. Vou buscar rapidinho.
— Tá, Toma aqui.

Ela sai correndo para buscar o precioso celular. Espero ela embaixo da luz do poste. Não havia uma viva alma passando naquele momento. Você já teve a sensação de que a qualquer momento o Jason vai surgir de algum lugar? Preciso parar de ver filmes de terror!

De repente uma voz conhecida agita meu coração. Felipe estava segurando uma sacola de papel, vestindo uma camisa verde-escura sem mangas, uma calça jeans desbotada e os seus adorados All-Star:

— Vai a alguma conferência de cosplayers?
— Felipe? Não, não esse aqui é o uniforme do meu novo emprego.
— Não sabia que estava trabalhando.
— Desculpa não te contar... É que essa semana tem sido muito corrida.

Mila aparece correndo sem fôlego. Ela para e coloca as mãos nos joelhos arfando:
— Aqui ó. As chaves. Oi Felipe.
— E essa é a cúmplice? —  Pergunta ele
— Pois é. A Clara é muito nova nesses lance de emprego, então vim dá umas dicas para ela. — Se gabava Mila. —  E você Felipe? O que faz aqui?
—  Acabei de voltar do meu trabalho também. Minha tia pediu para comprar comida chinesa no caminho.
— Ai, que legal. Podemos ir para casa juntos. —  Falo saltitante.

No caminho para casa, Felipe e Mila conversam sobre as maravilhas de ter um emprego na adolescência, ou algo assim, não prestei muita atenção. Tá bom gente! Eu não sou a melhor ouvinte do mundo! Mas, não pude deixar de notar que Felipe não tirava os olhos do meu uniforme. Fiquei vermelha. Era constrangedor está vestida com aquela roupa. Tá! Ela era uma roupa bonitinha, mas, só no trabalho. Fora dele, parecia que eu tava fazendo cosplay! Como Mila era a minha vizinha, Felipe não me leva até em casa. O vemos ir embora. Lindo e totalmente responsável:

— Pensa que eu não vi? O Felipe tá caidinho por você!
— Ah, pára! Tá nada. Ele deve tá rindo por dentro, desse uniforme ridículo.
— Amiga, você vai me matar, mas eu fiz uma coisa...
— O que você fez? 
— Eu dei o seu número para o Felipe!
— O QUÊÊ????
— Desculpa, ele pediu com carinho. Se ele não estivesse afim, não teria pedido né? Bom, vamos andando. Nossas mães podem estar preocupadas.

Mila poderia ter razão. Se ele não estivesse interessado, não teria pedido o meu número... Eu acho. Apareço na sala de casa, e Júlia que tava no celular, olha para mim e cai na risada. Affs! Irmã mais velha sem noção! Fico vermelha de raiva e subo as escadas. Mamãe estava na igreja. Reunião do Círculo de Oração.

Deito na minha cama! Ah, como era confortável. Parecia que estava há uns 100 anos longe dela. 

Meu celular toca. Se era a sem-noção da Júlia com mensagens maldosas, ela ia ver só! Espera. É um número desconhecido! 987*********! Nunca vi esse número antes. Deslizo a tela para ler a mensagem:

*Boa noite “menina do vestido de babados”.
*Boa noite, pessoa do número desconhecido.
*Ainda não sabe quem é? Dica: Tenho cabelos negros e no começo das aulas te dava gelo!
*FELLLIIIPPEEE!!!
*Não precisava gritar rsrs
*kkkkk  desculpa. Vou nem perguntar. Eu sei que a Mila te deu esse número.
*Eu pedi para ela. Você vivia fugindo de mim na escola.
*Não é que eu fugia. É mais é questão de pontualidade no trabalho. Ou chego na hora ou meu salário é cortado! =(
*Sei como é...
*Mais enfim, porque você tá me enviando mensagens? Aproveitando o presente do papai hein?!
*É mais ou menos. O celular até que é legal, mas, não consigo ficar 24 horas por dia com ele na minha cara.
*Eu consigo kkkk
*Temos uma vencedora kkkkkkk
*Diz! por que está conversando comigo?
*Meu pai tem me ligado essa semana. Digamos que estamos nos entendendo.
*Que bom Felipe.:)
*Mas isso não quer dizer que eu o ame. Ainda sou receoso quanto a ele, mas é legal conversar com uma figura masculina.
*Ownt :3
*Ele quer que eu viaje com ele nas férias em dezembro.
*Nossa que legal.
*Esse é o problema Clara. Estamos em novembro. Ou seja no próximo mês irei embora.
*Embora? Tipo? Pra sempre?
*Eu não seu dizer, então eu preciso dizer, ou digitar, uma coisa para você. Eu---
SEM BATERIA

Droga! Meu celular descarregou no momento mais importante do nosso bate-papo. Procuro o carregador pelo quarto todo. Finalmente acho. Coloco apressadamente o celular na tomada.
Fico roendo minhas unhas desesperada com a mensagem de Felipe. Anda celular lerdo! Anda!!!! A tela acende. Procuro a mensagem. Uma surpresa nada boa.

*Eu--(Você usou 100% da internet. Sua navegação foi interrompida.)


A mensagem dele nem veio inteira! Que raiva! Jogo minha cabeça no travesseiro! E agora? O que o Felipe queria me dizer? Ele iria mesmo embora? Ele... Não pode embora! Não pode partir sem saber que eu o amo! Abafo meu choro no travesseiro. Ótimo! O amor da minha vida estava indo embora! Eu sou uma completa idiota! Ele tem que saber! Precisa saber!



CAPÍTULO 28

Meu celular descarregou na parte mais importante de uma conversa decisiva, e para piorar, minha internet chegou ao limite! Ah! Minha madrugada não podia ser pior! Acho que posso perguntar para ele na escola! É! Farei isso mesmo! Se eu conseguir não ficar tremendo perto dele. Por que eu sempre me meto nessas situações embaraçosas? Abraço o ursinho que Felipe me dera de presente no meu aniversário. Trocaria o abraço naquele urso, por um abraço em Felipe...

Acordei bem cedo, diferente de dias atrás. Penteei meus cabelos e passei um pouco de blush no rosto. Para completar um batom nude. Ponho meu fofo uniforme de trabalho na minha mochila. Desço as escadas, tomo meu café e parto para a casa de Mila.

Mila abre um bocão de sono. Acho esse emprego está acabando com nós duas. Mal vejo a hora de receber meu pagamento.

Chegando na sala de aula, vamos cumprimentar Rosane e Priscila, que estavam mexendo em seus celulares. Rosane está bem diferente de antes. Como Fany, ex-seguidora de Shirley, ela usava roupas indiscretas, super decotadas, calças justíssimas e salto alto. Agora, como Rosane, nossa amiga, ela veste confortáveis, comportadas e só a vejo de tênis. A mudança nela foi algo surpreendente. Sinto que ela está mais a vontade conosco. Ela caminha de muletas, por causa do gesso na perna quebrada, até Mila e eu:

— Bom dia meninas. Olha só quantas assinaturas tem no meu gesso! Tô me sentindo uma estrela agora (risos). Vocês parecem tão cansadas. Tudo bem no emprego de vocês?
— Ai, nem me fale disso! Nunca pensei que eu fosse odiar tanto ver sorvete na minha frente! —  Afirmo.
— Só se for você! Adoro sentir a fragrância da baunilha. Eu tô amando o meu emprego e sem contar que eu ainda visto aquele uniforme mega fofo. Fico me sentindo uma princesa! Ainda converso com o Juca, a Nanda, a Paty e a Roberta, apesar dela ser meio fresca...
— Quem é esse pessoal, Mila? —  Pergunto confusa
— Você é uma boba mesmo! São os funcionários da lanchonete Clara! Eu hein?! Você vive no mundo da lua mesmo!
— Ha ha! —  Dou um riso debochado. —  Melhor a gente sentar, o professor está para chegar e a primeira aula é matemática.
— Ah, os resultados das provas da semana passada! Tô mega nervosa! —  Falava Mila roendo as unhas.
— Acho que não fui tão mal. Mas também não fui tão bem. Estudei pouco. — Confessa Rosane.

Sentamos em nossas cadeiras. Felipe ainda não havia chegado. Que estranho! Ele é sempre o primeiro a chegar na escola. Deve ter acontecido alguma coisa! Tento me distrair. Os resultados das notas são entregues. Felizmente nenhuma nota vermelha. Tudo graças as horas de estudo que Felipe sacrificou por mim.

As aulas na escola correm como as areias em uma ampulheta. Logo, o sinal da saída toca, Sei lá, acho que só eu tenho essa sensação de que o tempo passou rápido. Deve ser porque o Felipe não veio hoje. Dou tchau para Rosane e Priscila que vão para um lado, enquanto Mila e eu vamos para o outro, para mais um dia estafante de trabalho.


No banheiro dos funcionários, enquanto trocamos de roupas, Mila inicia um bate-papo:

— Amiga, seu gato não veio hoje para a escola.
— Mila, ele não é meu gato! —  Mais eu queria que fosse.
— Em todo o caso, ele conversou contigo pelo celular?
— Conversamos bastante.
— Ai, conta, conta, conta!
— Mila, não! Esses assuntos do coração são embaraçosos de contar para uma amiga!
— Ai, sua chata! Quando eu tiver uma paquera também não vou contar!
— Sua boba! — Mostro a língua para ela. Apesar de discutirmos muito, sempre levávamos na brincadeira.

E fomos cada uma para sua função. A menina do caixa, a Nanda, pegou uma gripe terrível. Então a Mila iria substituir ela cuidando do caixa, ou seja, eu iria ficar sozinha anotando os pedidos e colocando o sorvete nas taças.

Os pedidos chegavam a me irritar! AHHH! Havia um garotinho chato e uma mulher chata que viviam pedindo para eu voltar na cozinha e trazer outro sorvete porque o filhinho fresco dela era alérgico a isso, alérgico aquilo! Affs! Não sei quantas viagens eu fiz. Sinceramente, minha cabeça não estava ali naquele local. Meus pensamentos estavam focados em Felipe. Aonde será que ele estava? Queria tanto conversar com ele, saber o que ele queria me falar por telefone. Será se ele acha que eu encerrei o bate-papo de propósito???

O Srº Garcia, no fim do expediente avisa todos os funcionários que vai precisar viajar por uns dias, para uma conferência de sorveteiros (Sim, isso existe! Imagina minha cara quando escutei isso?? Fiquei com uma baita vontade de rir!). A sorveteria ficaria sobre o comando do filho mais velho dele, um tal de Flávio, que tinha 17 anos. Bom, desde que isso não fosse atrapalhar o recebimento do meu salário!

Na escola, conversava bem pouco com Felipe, tudo por causa da correria do meu bendito emprego. Na quinta-feira, finalmente puder tomar um pouco de coragem, e conversar com ele no refertório:

— Oi! Desculpa está fugindo esses dias! O trabalho tá uma loucura. Meu chefe viajou então isso significa trabalho dobrado.
— Poxa, que chato isso. Ei, tentei conversar com você pelo bate-papo do WhatsApp esses dias e não conseguir.
— Ah, desculpa! A minha internet... Sabe... O pacote expirou!
— Frustante isso.
— Ei, porque você não apareceu na segunda-feira?
— Se eu te contar um segredo, você não conta pra ninguém? Nem pra Mila?
— Humm.... Prometo! - Falo levantando a mão direita para o alto
— Achei um gatinho de rua abandonado e o trouxe para casa.
— Ai que fofo! Essa é a coisa mais gentil que alguém poderia fazer... Mas, porque não posso contar para ninguém?
— Tenho uma reputação a zelar. A reputação do "lobo solitário".
— (Risos). Você é meio maluquinho Felipe.
— E você é uma fofura vestida de garçonete! Epa, acho falei isso muito alto!
— Falou sim... — Sinto meu rosto ficar quente. Então eu era uma fofura? — Mudando de assunto, você vai viajar nas férias de dezembro?
— Meu pai quer que eu viaje com ele. Ainda é estranho chamá-lo de pai.
— Com o tempo vocês vão se dá bem. Eu tenho fé em Deus que sim!
— É... Eu acho...


Talvez eu pudesse achar que meu trabalho na lanchonete iria ser as mil maravilhas, porém, logo me desapontaria. O filho do chefe era um tremendo babaca! Porque estou dizendo isso? Assim que fui para fora recolher o lixo mais a Mila e voltei para a cozinha, eu vi ele humilhando a Paty, a menina dos folhetos, tudo porque ela deixou cair cobertura de baunilha nos sapatos engraxados de couro dele. Ela parecia desconfortável com a situação, já ele estava adorando berrar em cima dela. Eles não me viram, pois me escondi atrás da geladeira. Aquele moleque era um tremendo idiota! Se o pai dele soubesse que ele usava a desculpa de demitir as funcionárias, ele estava perdido!

Alguns dias depois, Mila estava toda abatida:

— Algo de errada Mila? O que você tem? Tá toda estranha!
— Nada! Não tenho nada! É impressão sua!

Eu perguntava para ela o que ela tinha, e ela nada respondia. Isso me deixava preocupada. Logo, no banheiro da escola, ela confessou para mim e para as meninas, que quando ela estava lavando as taças sujas de sorvete, Flávio havia debochado dela por ela ser cristã e ainda a ameaçou dizendo que se ela contasse à alguém o que ele havia falado, ela estaria no olho da rua. Aquilo era a gota d'agua! Quem aquele riquinho metido a besta pensava que era? Estava decidida a enfrentá-lo! Eu iria enfrentá-lo!

No dia seguinte, depois da escola, entrei no escritório do Srº Garcia que o Flávio já havia se apossado. Ele se achava o "poderoso Chefão" pelo visto. Com toda educação do mundo, bato na porta e entro:

— Com licença, Srº Flávio!
— Entra! O que você quer??? —  Nossa, ele era um "poço de educação"
— Bom, (pigarro) eu vim falar sobre algumas coisas que o senhor anda fazendo que eu acho errado. As meninas ficaram magoadas com as suas atitudes.
— Lá vem uma reles funcionária dá uma de puritana. E você é quem? A minha mãe? Garota eu faço da minha vida o que eu quero! Vocês não passam de empregadinhos para mim! São todas incompetentes! —  Dizia ele com os pés em cima da mesa.
— O quê?? —  O cara era maluco de pedra. Além de abusar da autoridade, sendo filho do patrão ainda queria tratar a gente como lixo! Ah, aquilo era demais! Ele ia escutar poucas e boas! — Escute aqui Srº Flávio, eu não trabalho para você! Trabalho para o seu pai! E se você não parar com essas grosserias para cima das funcionárias, eu vou te denunciar!
— Talvez eu esteja facilitando as coisas para você! Por causa da sua desobediência, vai trabalhar no sábado também!
— Não pode fazer isso!
— Posso e vou! Clara você vai trabalhar no próximo sábado e se você pensar em faltar, demito você e sua amiguinha "crente"! — Aquele moleque metido a besta era mais imbecil do que eu pensava.

Ele transformou meu serviço em um tormento só. Pelo menos, ele deixou as funcionárias, incluindo a Mila em paz. Flávio me obrigou a limpar os banheiros, a recolher TODO o lixo da sorveteria, me obrigou a limpar o escritório do pai dele. Tudo sozinha! Tava quase perguntando se ele não queria que eu lavasse o carro dele!! E olha que isso foi tudo em uma noite de SEXTA-FEIRA!

No fim do expediente, ele mandou os funcionários sair mais cedo e me deixou sozinha na lanchonete limpando a cozinha. Quando fui ver aonde estava todo mundo, vi que estava só em uma lanchonete vazia. Aquele riquinho mimado!

Quando olho para o relógio do meu celular: 20:56h. Cacetada! Se eu não pegar o ônibus agora, sabe-se lá que hora vou chegar em casa. E sem contar que estava perdendo metade do culto! Não dá tempo nem de trocar de roupa. Vou vestida de cosplay mesmo. Chegando na parada, um aglomerado de pessoas! Todos me olhavam por causa daquele uniforme esquisito. Ai meu Deus! Aonde eu fui amarrar meu burro???

Subo no ônibus lotado para a Vila Margarida (meu bairro). Um espreme, espreme só! Sem contar o odor de catinga! Chega fico sem fôlego! Ai meu Deus! Socorro!!

Ouço uma voz familiar, vindo da porta traseira do ônibus. Deus me enviou um anjo cujo nome é... Felipe! Trajando uma camisa vermelha com a coroa do "Keep Calm", ele sorrir para mim assim que me vê:

— Felipe, o que faz aqui?
— Eu é que te pergunto: o que faz aqui? Não tá muito tarde para sair do trabalho?
— Ah é uma longa e irritante história. Fico feliz em te ver!

Nesse momento, alguém estava atrás de mim, se roçando em mim. Fiquei com vontade de gritar, mas, ao mesmo tempo com medo. E se ele estiver armado? Ai meu Deus. Me ajude. Nem a minha mochila consegue deixar esse cafajeste longe de mim! Estou me segurando no mastro do ônibus. Não dá nem para se esgueirar. Fecho os meus olhos, desejando que a pessoa que está atrás de mim se roçando, pare com isso. Escuto a voz de Felipe. Tão séria, tão rígida:

— Ei, cara. Se afasta dela. Não ver que está a incomodando??
— E isso é da sua conta?
— É sim! Ela é minha namorada!!
— Ah foi mau. Desculpa aí mano.

Naquele momento meu coração parou. Quem quer que seja, parou de fazer o que estava fazendo e se afastou de mim. Felipe põe o braço sobre os meus ombros, me protegendo.Senti perfume de sua fragrância. Não poderia ser o momento mais embaraçoso da minha vida! Felipe me defendeu de um tarado, dizendo que era meu namorado e ainda colocou o braço sobre os meus ombros!!! Meu Deus!! Meu rosto está pegando fogo! Ele se aproxima do meu ouvido e sussurra:

— Não vou deixar ninguém fazer mal à você!
— Promete?
— Prometo!

A viagem fora mais curta do que eu pensei. E a mais emocionante também. Descemos no ponto final. Queria tanto agradecer o Felipe, mas, não sabia como...:

— Eh...Obrigada... Me ajudou tanto lá no busão... (risos sem graça)
— Clara, eu disse que você era minha namorada, mas foi só parar afastar aquele mala-sem-alça...
— Eu queria que fosse verdade! —  Ponho a mão na boca. Eu não falei aquilo em voz alta! Falei?
— Clara... Tudo bem com você?
— Tudo. Eu só sei lá... Eu gosto muito de você...
— Gosta de mim??
— Gosto... Muito... — Meu coração palpita sem parar.
— Clara... Ah... Vou me arrepender disso... —  Diz ele suspirando enquanto joga os cabelos para trás.
— Arrepender do quê???
— Disso!

Felipe segura meu rosto com suas mãos... De repente, meu mundo gira. Não sentir mais nada. Apenas os lábios de Felipe nos meus. As borboletas em meu estômago não paravam quietas. Minha visão ficou turva. O meu rosto em brasa. Fora um beijo suave e arrebatador. Seus lábios eram doces e ternos. Nunca havia sido beijada em minha vida, e ser beijada pelo menino que amo, foi a melhor que me aconteceu:

— Boa noite, Clara.

Felipe se despede de mim, andando com as mãos nos bolsos. Ainda estava estática sob a luz do poste. Toco os meus lábios com os dedos para saber se aquilo era verdade...

Fogos de artifício explodiam dentro de mim.



CAPÍTULO 29 (NARRADO POR FELIPE)


Eu te amo. Foi apenas isso que digitei no celular. Fiquei com medo de enviar aquela mensagem para ela. Medo de como seria a sua reação no dia seguinte. Medo da rejeição. Não era hora para esses pensamentos negativos. Minha tia disse-me uma vez que se eu não agisse, iria acabar perdendo a Clara para sempre. Nunca sentir isso por ninguém. É estranho... Meu Deus! O que eu faço? Envio ou excluo? Vou enviar... O pior que pode acontecer é ela dizer um “não”!

Reúno toda a coragem que ainda me resta e envio a mensagem. E espero o retorno. E espero, espero, espero... Até ficar cansado. Ela não me respondeu! Bom, deve ter acontecido alguma coisa. O celular deve ter pifado, deve ter ficado sem bateria, deve ter caído dentro da privada, ou simplesmente, ela não me respondeu porque me ver apenas como amigo, ou não respondeu porque me acha um idiota. Prefiro acreditar nas primeiras suposições. São menos cruéis do que a última.

O gatinho sobe na minha cama. Passo a minha mão na cabeça dele. É amigo... Somos dois solitários nessa vida. 

Você deve está pensando: “O Felipe é um molenga! É só chegar junto e falar para ela!” Não é assim. Não posso forçar uma pessoa a ter sentimentos por mim. O que eu posso fazer é esperar a resposta certa de Deus. 

Lembro de uma certa conversa que tive com Mike. Ele não é meu amigo e tão pouco o considero como um, porém, ele me disso algo que concordo profundamente com ele:
“Se você não fizer nada, vai perder a garota que gosta e ainda vai ser obrigado a vê-la namorando alguém que você odeia!"

Por um lado ele tinha razão.

Devo agir. Parar de ser tão... idiota! Eu tratei mal a Clara nos primeiros dias de aula. Depois comecei a ignorá-la. Acho que não sou normal. Tenho que parar com essas atitudes. Não é a toa que a minha tia acha que eu sou bipolar!

Soube que a Clara arrumou um emprego. Bom, ela não me contou nada. Ouvi a Rosane e a Priscila conversando sobre isso. Essa semana ela tem estado muito agitada. Correndo de um lado para o outro. Melhor deixar ela em paz. O trabalho cansa a gente. Não quero dá mais preocupação à ela com meus problemas. E olha, vou te contar: são muitos!

O primeiro problema, é que meu pai quer que eu vá passar as férias com ele. Estou achando estranho, porque pensei que quando o visse, eu o odiaria, mas não! Eu tenho dó dele, sei lá. Meu pai é rico. Dono de uma empresa que faz engenharia. Ele é muito triste e solitário. Daí dá para ver que dinheiro não compra felicidade. Conversamos muito pelo telefone. Às vezes, falo de Deus para ele, porém, ele sempre foge do assunto. Acho que ele não gosta de evangélicos.

Na oficina aonde trabalho o Mike me perguntou como eu estava indo com o plano de me confessar para a Clara:
— Tô indo devagar, né? —  Falei com um pouco de tédio.
— Tá indo devagar? Mano, você tem que falar logo para essa mina o que tu sente! Lembra daquela nossa conversa!
— E como eu ia esquecer? Você mesmo disse que se eu não namorar com a Clara alguém vai namorá-la no meu lugar!
— Exatamente! Fico preocupado contigo. Só isso!
— Se está mesmo preocupado comigo, então porque não larga essa vida mundana e se entrega para o Senhor Jesus?
— Acho que não chegou a hora. Sabe eu sou jovem.
— Também sou jovem e tenho Jesus como Salvador. Um dia, ainda te convenço e te levo para a igreja!
— Sei, sei. —  Como esse Mike era convencido.

Assim que vou embora para minha casa, minha tia liga para mim, para que eu compre comida chinesa no restaurante.

Assim que saio, um garoto ruivo me aborda. Ele acena de longe em uma mesa, acompanhado de duas pessoas e uma criança pequena. Espera, acho que já vi ele em algum lugar... Ah sim! Agora me lembro. Ele estava visitando a igreja Acho que a outra vez que o vi, foi no aniversário da Clara.
Ele acena para mim. Dou atenção à ele ou finjo que não o vi e vou embora? Ah! Muito tarde para isso, ele já está se aproximando:

— Ei, acho que já te vi em algum lugar não?
— Sim, eu estava no aniversário da Clara.
— Fernando, não é?
— Na verdade, meu nome é Felipe.
— Ah, desculpe pela confusão. Sou o Nelson.
— Eu já sabia. O que você quer comigo?
— Conversar... Algumas coisas.
— Coisas? Desculpa cara, eu estou exausto do trabalho.
— Eh... Mas, tenho algo para falar sobre a Clara. Eu sei que você gosta dela. Não adianta mentir. Só que a conheço desde menina. Não vou deixar ninguém conquistá-la.
— Não sei do que está falando...
— Sabe sim. Eu gosto muito dela. Estou me mudando para essa cidade no próximo ano, e vou logo avisando: a Clara é minha! Sou um partido melhor para ela! E sem contar que sou filho de um pastor!
— Quem decide isso é ela!! Agora com licença. Estou perdendo meu tempo aqui!
— Contou para a Clara que você irá para o Exército.
— Se você contar pra ela...
— Isso não me interessa. Só mostra o quão covarde você é. 

Esse Nelson é um garoto muito problemático. Quem ele pensa que é? Ele quer tanto namorar com a Clara? Pois eu também estou disposto a lutar por ela! Não vou deixar esse mauricinho me humilhar! Deus me ajude nessa batalha! Não quero perder a garota que amo!

Vejo a Clara debaixo da luz do poste. Devia está esperando alguém. Ela estava linda naquele vestido. Era tão fofo quanto ela. Me aproximo e começamos a conversar. Devo falar que vi o tal do Nelson? Melhor não. Não quero irritá-la!


Eu não paro de pensar no que o Nelson falou! Estou para enlouquecer! Ele disse que vai lutar pela Clara! Ótimo também irei! Agora, estou com medo de viajar nas férias de dezembro e quando eu voltar, ter a péssima notícia de que ele e a Clara são namorados! Seria meu pesadelo!

Estou em um ônibus lotado, voltando do meu fatídico serviço. Vejo uma pessoa com o mesmo vestido fofo da Clara. Espere! É ela! Ela se aproxima de mim e eu abro um sorriso para ela. A única coisa normal no meu mundo turbulento.

Alguns minutos depois, vejo um cara se esfregar nela! Que cínico. Ele aproveitou que o ônibus estava lotado para fazer aquele ato repugnante. Aquilo me deixa furioso e eu acabo discutindo com ele. No fim, digo que a Clara era a minha namorada. Ele se afasta. Eu a abraço, protegendo ela desses maníacos sem caráter. Acho que não deveria ter feito aquilo. O rosto dela ficou vermelho!

Descemos no ponto final. Ela agradece pelo que fiz no ônibus:

— Eh...Obrigada... Me ajudou tanto lá no busão... —  Ela força uma risada. 
— Clara, eu disse que você era minha namorada, mas foi só parar afastar aquele mala-sem-alça...
— Eu queria que fosse verdade! —  Ela põe a mão na boca. O rosto dela fica corado.
— Clara... Tudo bem com você? —  Perguntei preocupado com ela.
— Tudo. Eu só sei lá... Eu gosto muito de você... —  Meu coração palpitou rápido quando ela disse aquilo.
— Gosta de mim?? —  Ainda estou duvidando
— Gosto... Muito... — Meu coração palpita sem parar.
— Clara... Ah... Vou me arrepender disso... —  Tomo uma atitude. Precisava tomar uma atitude.
— Arrepender do quê???
— Disso!

A beijo de surpresa. Não queria ter feito aquilo, mas, precisava. Eu a amo muito. Não quero machucá-la. Não quero magoá-la. Desculpe Nelson. Eu amo a Clara mais do que você. Os lábios dela eram tão doces. Olho para o rosto dela. Estava estática. Meu Deus por favor. Que ela não tenha entendido mal minha atitude! Digo boa noite e vou andando para minha casa.

Chego em casa e tranco a porta do quarto. Eu soco meu travesseiro. 

Burro! Idiota! Por que fez aquilo? 

Foi muito precipitado! É lógico que ela vai entender errado! Ahhhh! Como eu queria voltar no passado e não ter feito aquilo! Ela vai me odiar para sempre. Estraguei a nossa amizade.
Tenho certeza de que no dia seguinte, ela nem vai olhar mais na minha cara!

Não era hora para arrependimentos! Já estava feito!
Deus me ajude, por favor! Não quero perder a Clara! 
Vejo minha carta de admissão ao Exército. Não. Ela não precisava saber. Só seria 1 mês...



CAPÍTULO 30


***

Era sábado. Resolvi compartilhar minha novidade com a minha melhor amiga. A avisei por mensagem. Mila veio correndo como um leopardo para minha casa, e subiu as escadas até meu quarto como um foguete. Assim que entra no quarto ela pula na  minha cama, e a gente começa uma guerra de travesseiros. Conto para ela que Felipe havia me beijado. Sua reação não poderia ser outra:

— Como?? E--le, Ele te beijou??? E você me conta isso com a cara mais “lavada” do mundo?? – Gritava Mila exasperada. Ela ficava uma fofa naquele vestido florido. A expressão dela era de pura curiosidade.

— Shhh Mila! Não precisa gritar! Alguém pode escutar! Fale baixo!

— Clara sua malvada! AAAHHH! Me conta: como foi? Ele foi gentil? Vocês se olharam como nos filmes românticos? AAHHH! Amiga tô em êxtase! Conta por favor!

— Céus Mila! Assim vai sofrer um infarto! Ok! Ok! Te conto tudinho....

Contei a Mila todos os detalhes e do porquê ter ocorrido aquele beijo tão de repente:
   
— Ahhh!!! Deixa as meninas saberem! Clara sua “arrasa-corações”. Ai que inveja! Sou mais velha do que você e ainda nem tive a oportunidade de beijar alguém!

— Mila não conte para ninguém... Ainda não quero que ninguém sabe... E também, essas coisas tem seu tempo. Nunca é do jeito que a gente quer. Eu não esperava que o Felipe fosse me beijar...


— Hum... Sei... Você gosta dele há um tempão para falar a verdade!

—Ah! Tá me julgando! Te detesto sua chata! (risos)!

—Bobona! (risos) — Os momentos com a Mila eram sempre os mais divertidos. 

—Bom Mila agora tenho que me aprontar para o trabalho. Fui discutir com o filho mimado do patrão e aí ele me obrigou a limpar a lanchonete! SOZINHA!

—Que ridículo! Deixa o pai dele descobrir essas coisas! Ele está mega encrencado! Isso quer dizer que você não vai para o ensaio da igreja?

—Não. Infelizmente não vou pôder ir. Tome de conta do pessoal tá?

— Sabia! Clara é uma malvada! — E começamos nossa ''guerra'' fofa de travesseiros.



Mila não demora muito para ir embora. Assim que ela vai para a casa dela, eu me visto rapidamente. Estava em cima do horário! Ponho minha mochila nas costas, belisco alguma coisa que estava em cima da mesa (acho que eram torradas), dou um beijo na minha mãe e partiu trabalho!

Coloco os fones nos meus ouvidos. Odiava ter que ouvir as pessoas conversando dentro do ônibus. A música na rádio que tocava era linda demais:

♫...Eu estive observando você
Você foi também foi magoado
Você deu todo o seu amor
Não restou nada pra mostrar
Eu também passei por isso
Sozinho em desespero
Vendo a vida passar
Sem ninguém pra dividir...


Quase choro com essa letra. Era tão... A cara do Felipe! Ele sempre foi ressentindo às pessoas. Se mostrou frio e incompreensível na escola. Era super mal-humorado e agora, poderia afirmar com todas as letras: ele mudara. Deus o mudara para melhor! 

Melhor parar de ouvir essa música. Se eu começar a cantar o refrão, o pessoal do ônibus vai achar que eu sou doida de pedra. Abro a minha mochila e tiro de dentro minha Bíblia com capa cor de rosa bordada com flores.




O versículo não poderia ser mais intrigante:


O amor é sofredor, é benigno; o amor não é invejoso; o amor não trata com leviandade, não se ensoberbece.


1 Coríntios 13:4

Sim, agora tenho certeza! Deus está falando comigo!


Olho pela janela. Quase engulo meu coração com a figura que vejo na rua: FELIPE! Aperto lá o troço que do ônibus que avisa o motorista que a gente quer descer, e sai correndo que nem uma doida pela rua atrás dele. É, eu sei que meu trabalho não ficava por aquelas bandas, mas eu queria esclarecer as coisas com ele!


Não queria que a nossa amizade acabasse!


Porém, eu mal sabia o que estava por vir...

Duas semanas depois, Felipe desapareceu por completo. Não deixou nenhuma mensagem. Nenhum rastro. Nada. Apenas sumiu como se sua existência fosse apagada por completo da face da Terra.

Segundo os boatos, embora não acredite em boatos, dizem que Felipe se alistou no Exército. Meu coração dói só por pensar nisso. Meu amado Felipe em uma guerra, sujando suas mãos com sangue de inocente.

Outros disseram que ele mudou-se para a casa do pai.

Ainda sinto os beijos que ele me deu. Pareço uma tonta falando isso, mas, eu o amo. Vivo triste e chorando por qualquer coisa, acho que isso irrita a Mila às vezes. Ela reclama de que, eu ando sentimental demais e chorona demais. Se ao menos, Mila sentisse o buraco que carrego no meu coração, ela não falaria essas coisas. Ela só fala isso, porque nunca se apaixonou por ninguém.


Então, dois meses se passaram, e nada de saber sobre ele.

Sei que só se passaram dois meses, mas, ainda sinto sua falta Felipe. Falta da sua companhia, dos seus conselhos, do seu raro sorriso... Saudade de você.

Agora, estou na sala de aula, em plena aula de Literatura Inglesa, escondendo minhas lágrimas. Se a Shirley me ver chorando, tirará sarro de mim. Ah, Senhor! Faça esse ano letivo passar mais rápido! Não quero mais ter que ir para a escola e sentir a ausência de Felipe. Quero ficar em casa, com a cabeça enfurnada no travesseiro.

Pelo menos, essa será a última semana de aula. Logo, iremos para o retiro da igreja. Minha mãe e minha irmã sabem o motivo da minha tristeza. Meu pai nem desconfia. Ele acha que eu estou triste, porque as aulas estão acabando. Ah, pai. Minha tristeza foi ocasionada por um garoto.

Mila aparece no meu quarto e pula na minha cama. Priscila e Rosane estão paradas na porta do meu quarto, com mochilas nas costas e bonés na cabeça. Hoje é o nosso primeiro dia de acampamento.

Mal posso esperar! (sinta o meu sarcasmo!)

— Nãnaninão! Você vai levantar é agora, Clara! Não pode perder esse sol maravilhoso lá fora! Anda! Vamos! Hoje é o grande dia! Vamos para o retiro, finalmente. 
— Não sei se quero ir. — Falo com o travesseiro no rosto.
—Você vai é uma ordem.

Depois disso, ela atirou meu lençol para longe, enquanto ordenava às meninas para que fizessem minha mala. Mais que Mila mais chatinha! Eu não quero acampar! Porém, se eu não for, meu pai vai achar estranho...

Levanto-me da cama, com a maior preguiça do mundo, e mando as minhas amigas me esperarem na sala. Quando eu terminar de me vestir, eu desço e entro na van.

Me animo um pouco.... Que assim seja.

***

Assim que termino meu ritual de beleza, minha mãe coloca meu café e planta um beijo no meu rosto:— Espero que se divirta bastante e faça muitos amigos. Ah... Saudade de quando eu era jovem e acampava...

Minha mãe pirou? Pelo que me lembro, acampamentos são um tédio! Sem wi-fi, sem TV, sem shoppings, sem celular, sem computador, sem músicas. Eu já falei sem wi-fi? E principalmente, sem Felipe... Meu coração até dói ao pensar nele.

Termino o meu café e entro na van, que estava parada na porta de casa. Ao subir nela, todos os passageiros olham para mim "a filha do pastor". Como eu tenho raiva quando as pessoas ficam me encarando. Sento na cadeira, próxima a janela. Gosto de ver a paisagem. Distrai muito. Assim me desligo do mundo real. Um rapaz com uniforme de escoteiro fala algo na frente:

— Estão todos aqui?
— Siiiimmm!! — Foi a resposta que deram.
— Espere!!! Espere!!! — Uma voz desesperada podia ser ouvida ao longe.

Um garoto ruivo entra na van, sem fôlego e com o rosto completamente vermelho. Era Nelson! Perfeito! O garoto mais chato da cidade, vai acampar conosco! Me recuso a ir! Me recuso! Para piorar, Nelson acha logo de sentar perto de mim. Acho que esse garoto quer me tirar a minha paz de espírito:

— Oiiii Clarinha! Não é legal? A gente vai acampar??
— Oi, Nelson. É! É muito legal. Ficar sem eletricidade, sem wi-fi, sem assistir Tv e ainda ser picada por mosquitos! Que maravilha!
— Com certeza, vai ser massa! — Acho que o Nelson não sabe o que é "sarcasmo"!  — Ai, mal posso ver a hora de armar a barraca, e tostar os marshmallows e contar histórias de terror. e--

Sua voz é interrompida pelos meus fones de ouvidos. Coloca música ao máximo. Tô nem aí se vai me causar surdez. Só não quero ouvir a voz do Nelson. Ele é tão alegre, que às vezes chega a ser irritante. Mega, super, hiper, ultra irritante! Saudades do meu Felipe...

A música que tocava na rádio, não estava me ajudando nenhum pouco a esquecê-lo.
Fazia-me lembrar mais e mais dele:

So wake me up when it's all over
When I'm wiser and I'm older
All this time I was finding myself
And I didn't know I was lost♫

Melhor eu trocar de estação de rádio! Affs! Tudo está contra mim!

***

Chegando no retiro, que ficava perto de um imenso bosque, somos levados aos casebres. São até graciosos, devo admitir. Tem um certo charme rupestre. Vejo um lago com cisnes mais ao sul. Acho que vou gostar daqui. Talvez...

O nome do acampamento era: Anjos Guerreiros.

Depois das apresentações, o líder do acampamento dita as regras. Meu pai saúda os novos membros e depois fizemos uma oração, para que tudo ocorra bem conosco naquele retiro.
Fomos divividos em duas equipes: Os Lobos e Os Tigres. E adivinhem em que equipe o Nelson caiu? Sim! Na minha: Equipe dos Tigres!

Eu não tava nem um tiquinho empolgada com esse acampamento, mas, Mila, Rosane e Priscila estavam alegres até demais. Elas olhavam e revisam o folheto do retiro várias e várias vezes, entre sorrisos e planos ingênuos. Por quê não consigo me divertir? Eu esperava por isso, desde o começo do ano! E agora, estou aqui, mais triste do... Sei lá! Estou triste! Acho que o Felipe não iria querer me ver assim! 

Me aproximo das minhas amigas, e pergunto o motivo daquela alegria toda. Cada uma falava uma coisa:
—Mal posso esperar, para ir para a sala de música! — Falava Rosane.
— Eu quero participar... Das atividades de bordado e crochê. — Dissera Priscila.
— Pois eu, Mila Ferreira, quero fazer todas as atividades perigosas. Tais como nadar com tubarões e escalar o monte Everest, muahahaha! — Mila e seu senso de humor implacável.
— Isso nem tem no folheto, Mila! — Retrucou Rosane.
— Ué? Usa a imaginação! — Incentivava Mila.

Somente eu, não conseguia demonstrar minha alegria naquele retiro. Ai, Senhor! Faça-me, pelo menos, esboçar um sorriso. 
Nelson aparece do nada, e põe o braço no meu ombro, sugerindo suas ideias:
— Ei, garotas! Que tal uma caminhada até o lago?
— Com licença, Nelson? — Disse beliscando o braço invasivo dele.
— Eu quero dar uma caminhada! Aqui é um lugar tão lindo! — Os olhos de Mila estavam brilhando. As meninas estavam mesmo empolgadas com esse retiro.
— Vão vocês. Eu vou até o meu chalé, para trocar de roupa. — Eu sei. Esse foi a pior mentira que já disse.
— Ok. A gente vai na frente.— Mila agarrara no braço de Nelson, e o puxara para iniciar a caminhada.

Corri o máximo que pude para o meu chalé, e desabei na minha cama. 

Não queria mais estar ali. Estava tão mal. Acho que nem mesmo, com tanta coisa legal para se fazer, vou conseguir me concentrar. Felipe não sai da minha cabeça!

Felipe... Por favor... Volte para mim.

Durmo com o rosto molhado pelas lágrimas da saudade. Presa naquele retiro, tenho que aguentar as chatices do Nelson. Ah, Senhor. Me dê forças!


CAPÍTULO 31

— Acordem, suas preguiçosas!! — A voz berrava juntamente com um som que eu distinguia ser de uma corneta, ou talvez seja um elefante. 

Devem estar pensando porque eu estou pensando tais coisas confusas. Bom, eu fui acordada pelo som de uma corneta barulhenta pela nossa instrutora de acampamento, Lauriana, uma mulher de 1,80m de pura tirania e cabelos quase tão loiros quantos os meus, porém, tenho quase a impressão de que a coloração de suas madeixas sejam brancas. Seus olhos azuis em um tom escuro, revistavam o chalé das meninas.

Mais uma vez, Lauriana, toca a bendita corneta. Eu me levanto sem nenhuma vontade de fazer nossas tarefas. Mila e Priscila já estão de pé, enquanto Rosane relia as atividades do dia. Lauriana repassa para cada uma de nós, um pacote pardo. Assim que abro vejo uma linda camisa, com o logo do nosso acampamento na frente e atrás, o nome do nosso time: Tigres!! Mila adorou tanto quanto eu:


— Gente, essa camisa é um bafo! Olha só essas asas!! Mas, bem que poderiam ser cor-de-rosa.
—De qualquer jeito, é uma bela camisa. — Falou uma garota que dividia o quarto conosco.
— Anjos Guerreiros! Isso quer dizer "Arcanjos" no caso, certo? — Perguntou Mila.
— Sim, Mila. Arcanjos eram os anjos guerreiros. — Respondo tranquilamente para ela.
— Eu também gostei, mas, branco é uma cor que suja fácil e logo nós, que estamos em um acampamento. Vai ficar suja facilmente. — Ponderava Rosane.
— Vou fazer que nem aquela marca de sabão, Rô: Porque se sujar, faz bem! — Brincava Mila.

Depois da frase que ela disse, todas as garotas caíram na risada. A Mila sabia mesmo como deixar as coisas mais divertidas. 

Até que essa camisa, me agrada de uma certa forma, devo admitir!

Porém, ainda sinto falta do Felipe, (Até da chata da Júlia, eu sinto falta!) e digamos que ter um celular descarregado, não ajuda em nada nessas horas. Além, do fato, de não ter nenhum outro meio para me comunicar com ele.

Será se as pessoas ainda enviam mensagens via fumaça??

Brincadeira pessoal!

Hoje seria um dia cheio!

Primeira tarefa: iríamos nos reunir no grande pátio do casebre principal, para iniciarmos nossas orações.
Segunda tarefa: desfrutar de um delicioso café da manhã. Huuummmm...
Terceira tarefa: caminhada pelo monte. Affs! Caminhadas não!! Isso só pode ser ideia do meu pai!

Vou até o pequeno banheiro e escovo meus dentes. Reparo, pelo reflexo, as picadas dos mosquitos no meu braço e rosto. Se eu passar mais uma semana sendo picada por esses bichos, vou ficar sem sangue!

Olho mais uma vez para a minha camisa. Realmente era uma camisa bonita, mas acho que sugestão da Mila nas asas serem cor de rosa não caia nada mal. Caminho até a minha cama, desfaço a mala e procuro uma base para cobrir as manchas debaixo dos meus olhos. Aquilo era uma evidência viva, de que eu não havia dormido nada bem!

Segundos depois, amarro meus cabelos nos já famosos dois rabos de cavalos. As garotas do acampamento sorriam por causa do meu penteado exótico e ganhei o apelido carinhoso de "Sailor Moon". Bom, pelo menos é alguma coisa. Significa que estou me enturmando... Eu acho...

Calço os meus tênis de corrida e amarro o cadarço, enquanto dou um leve e profundo bocejo. Meu estômago ronca. "Já vamos comer, amiguinho!"  Visto a camisa e amarro a braçadeira laranja no meu braço direito e caminho até a porta.

Nelson me ver sair do chalé e acena para mim. Eu reviro o rosto, fingindo estar olhando para um ninho de passarinhos em cima do jacarandá, mas, na verdade estava olhando fixamente para o vazio.

Falar com o Nelson era a última coisa que eu queria fazer. Vocês devem estar achando que eu não gosto dele porque ele é chato e tais, mais não! Eu não quero falar com ele, porque eu sei que a Mila gosta muito dele, ela gosta dele desde o primário e eu não quero que a minha melhor amiga pense que eu estou afim do Nelson. Não quero ser uma "fura-olho".

Acho que ele ficou meio triste, por eu tê-lo deixado no vácuo. É melhor assim, Nelson. Não tente aproximação comigo, por favor.

Sim, esse seria um dia cheio!

***

Depois de uma linda oração, da leitura da palavra do dia e de um delicioso café acompanhado com frutas saborosas, todos nós caminhamos pelo monte. Heitor, o instrutor do Time dos Lobos, parece ser mais atencioso e carinhoso com a sua equipe, diferente de Lauriana, a instrutora do Time dos Tigres, que só sabe gritar e berrar sem motivos!!:

— Seus molengas! Vão deixar ser vencidos por uma pedrinha! Caminhem logo!

Pedrinha? Sério? Ela chamou esse monte GIGANTE  de pedrinha?? Lauriana só pode ter servido ao exército. Isso explicaria porque ela é tão rígida conosco.

Nelson não parece nem um pouco cansado. Olho para trás e vejo Mila com o rosto escondido pelo boné (Eu devia ter trago um boné também. Minha cabeça tá pegando fogo!). Priscila bebericando um cantil de água. Rosane tagarelava com um rapaz do Time dos Lobos, que parecia entender tudo de caminhadas. Ele parecia ser um rapaz bastante seguro. Acho que esse não é o seu primeiro retiro.

Após terminamos a caminhada da tortura pela "pedrinha", nos dirigimos aos chuveiros para tomarmos um banho, porque cá entre nós, estávamos fedendo!

Eu ainda não conseguia ver um lado bom nesse retiro. Estava saindo tudo errado, e agora minhas costas estavam gritando de dor.

Ah, Senhor! Tenha pena da sua serva!

Heitor e Lauriana disseram para nós, que deveríamos jantar junto a fogueira. Fazia parte das atividades e quem faltasse ia perder nota, não individual, mas a equipe inteira iria perder!!

Essa não! Preciso forçar um sorriso e caminhar até a bendita fogueira, senão, a equipe dos Tigres está frita!

Mas, o problema é que eu realmente estou com dor nas costas. Não quero ficar perto da fogueira e nem cantarolar canções de acampamento. Eu quero dormir! Minhas pernas estão me matando!

Nelson aparece na porta do meu chalé. Eu olho para ele e reviro o rosto, plantando minha cara no travesseiro:

—  A gente tem que ir, senão perdemos pontos! 
—  Até parece que você se importa!
—  Clara, o que há com você? Tem agido estranho comigo. O que eu te fiz?
—  Nada! Eu só quero ficar sozinha! Será se não entende isso, Nelson?
— É por causa do Felipe?
— Isso não é da sua conta!
— Tá, eu vou deixar você em paz. Você se tornou uma garota chata e amargurada. Vou avisar a instrutora que você não está bem de saúde, talvez assim, ela não retire nossos pontos.

Ele fecha a porta com cuidado. Acho que eu o decepcionei!

Incrível como Nelson me fez me sentir a pessoa mais idiota do mundo! E pra falar a verdade, eu tenho agido de forma antissocial, me excluindo das atividades, ficando reclusa e conversando pouco com todo mundo. Tô até parecendo o... Felipe!

Ele não iria querer me ver assim.

Não quero ser lembrada como a "garota chata do retiro!"

Com dificuldade, alcanço a maçaneta da porta. Caminho vagarosamente até a fogueira. As meninas estavam lá, tostando marshmallows, e um grupo de jovens tocavam violão enquanto cantavam "Efésios Seis" do Anderson Freire. Adoro essa música!

Estou começando a me animar!

Nelson estava sentando em um tronco, atirando pedrinhas em um lago. Me sento perto dele. Vou me desculpar. Não quero tratá-lo, porque afinal, ele tem sido legal comigo, de uma forma irritante, mas, tem sido legal. Acho que ele só quer se aproximar de mim. Ele ainda é o meu amigo de infância:

— Desculpa por ter sido uma otária com você...
— Tudo bem! Todos nós temos um dia ruim.
— Meu dia ficaria melhor se eu achasse uma tomada.
—  Tomada?
— É! Pra recarregar meu celular.
—  Clara, você é uma garota muito esquisita.
— E você é bobão.

Nelson me olha sério. Eu fico assustada, acho que ele não gostou do que eu disse. Do nada, ele solta uma risada, eu também rio, meio sem graça. Pego uma pedrinha e atiro no lago:

— Amanhã a nossa prova será contra o Time dos Lobos. Será uma caça ao tesouro.
— Acho que já estou cheia dessas atividades.
 Clara, se não gosta daqui, então porque veio?

Fico calada. Nelson não entenderia. A única razão que me fez ir para aquele retiro, foi para parar de pensar em Felipe, mas, nada estava dando resultado. Olho para a imensa lua cheia no céu estrelado.


...Ah, Felipe... Que saudades.




CAPÍTULO FINAL 

Finalmente o retiro acabou! Sinto-me mais aliviada. Chega de jogos cansativos, caminhadas malucas, ou acordar cedo. E principalmente: chega de picadas de mosquitos!

O lado bom: passei Natal e o ano novo em casa com a minha família.
O lado ruim: as aulas começam daqui há dois dias.
Enfim, farei o terceiro ano do Ensino Médio. O último. O tão esperado.

Nem tudo são flores. Pelo menos estou em casa, e desfrutei o máximo dessa "semana de férias."

Priscila viajou com a família para um resort nas regiões montanhosas e repletas de neve do Canadá. Bom, quero passar longe de montanhas. Mila e Rosane se auto convidaram para uma festa do pijama aqui em casa. Papai concordou, desde que nós não fizéssemos barulho. Mila, como sempre, trouxe vários DVD's com filmes românticos, daqueles em preto e branco:

 É lindo demais, gente. Eu quero viver um amor assim.  Falava Mila, com a boca cheia de pipoca.
 Não sei como você consegue assistir isso. Escuta só esse áudio! Que horror!  Dissera Rosane apontando para o visor da televisão.

Eu estava acomodada, sentada no chão, com a cabeça repousada no travesseiro, deslizando a tela do celular, tentando encontrar alguma mensagem nova de Felipe e nada. Parece que ele também decidiu ficar de férias.

Recebo uma mensagem de Nelson. O que será que ele quer?

"Estou ansioso para começar o terceiro ano e ser teu colega de turma."

Era só que me faltava. Tenho pena do Nelson. Será que ele não enxerga que a Mila é louca por ele? Mas, apesar de tudo, ele tem sido um bom amigo, e isso tem feito um certo bem a mim. Tem sarado certas feridas do meu coração. "Você não gosta dele, Clara! Está se esquecendo do Felipe?"

Porém, Nelson conversou muito comigo. Ele me disse, que se Felipe me amasse, não teria forçado um beijo, e partido sem dizer nada. E é isso que me deixa confusa. Nelson pode ter razão sobre isso.

Mas, eu amo tanto o Felipe...

Felipe. Talvez... seja melhor esquecer aquele beijo e, talvez, não acredito que vou dizer isso: Talvez seja melhor esquecê-lo!

Silencio o telefone, a fim de não conversar com Nelson.

Não demorou muito para eu cair no sono, afinal, o filme que Mila escolhera era monótono ao extremo.

***

Horas depois, mamãe aparece na porta, para nos dizer que o jantar estava pronto. Lógico que descemos para jantar, como malucas esfomeadas. Hum... Frango assado ao molho, com uma salada divina, e para completar: macarronada!

Fizemos a oração, agradecendo pela comida, e depois abocanhamos tudo.

Júlia contou para o papai, sobre o suposto namorado dela, que pretende pedir a sua mão em namoro. Papai concorda, enquanto enrola o macarrão no garfo. Júlia pisca para mim, vitoriosa. Ela disse que namoraria antes de mim.

Isso não me deixa nenhum pouco chateada. Não tenho pressa para essas coisas. Pra falar a verdade, eu tenho sim. Tenho medo de que Felipe, não apareça mais, e eu tenha que conviver com a minha solidão.

Logo, a noite chega, e as meninas e eu, vamos dormir. Enquanto isso, fico com o celular grudado na cara, na tentativa de ver se Felipe está online.

Meus olhos enchem de lágrimas. Evito escrever para ele de novo, evito. Não quero que meu coração se meta, e estrague tudo. Não quero amor apenas com atos, quero que ele demonstre isso.

Desligo o telefone, chorando baixinho, abafando o meu choro, para que minhas amigas não ouçam. O que há comigo? Por que não consigo ser madura o suficiente, para encarar meus problemas?

Tudo estava tão bem, até meu coração ver Felipe e se apaixonar... E agora, ele não está aqui para me consolar.
O dia amanhece, e minhas amigas vão cada uma para a sua casa. Parecem estar empolgadas pelo terceiro ano do Ensino Médio. Já eu... Bom, não estou tão emocionada. O terceiro ano, é uma etapa ainda mais difícil, pois preciso estudar mais para fazer o ENEM. E digamos, que eu não sou tão inteligente.

Passei a manhã no trabalho, a varrer o chão. Gosto de ajudá-la. Assim, esvazio a minha mente.
Por causa dos poucos clientes, acabei meu turno mais cedo do que pensava. Acho que só apareceram duas crianças para tomar sorvete. Nem o filho chato do chefe apareceu. Trabalhei até as 17:58h. Troquei de roupa, tranquei tudo e me mandei para a praça.

Ainda me sinto mal, pelo que sentir por Felipe. Eu o amei demais, mas meus sentimentos não eram recíprocos, e estou me odiando por isso. Deslizo a tela do telefone, procurando por uma mensagem dele, e nada. Suspiro, fechando meus olhos, sentindo a brisa bater no meu rosto.

Eu sou muito burra!

Sento no banquinho da praça, observando os transeuntes.

No entanto, uma surpresa me aguardava. Uma desagradável surpresa.

Um homem, com o braço enfaixado, vestido de soldado. As roupas muito desgastas e pálidas. Aproximou-se de mim, sutilmente, sentando-se ao meu lado.

— Você é por acaso Clara Maria da Silva? — perguntou a mim.
— Sim, sou eu.
— Graças a Deus, a encontrei — entrega-me um envelope.
— O que é isto?
— É para você. Felipe mandou lhe entregar.
— E depois de vários meses sem me dá uma resposta, ele me envia um menino dos recados?
 Moça, por favor, isso é importante. Foi o último pedido que Felipe fez a mim.
— Espere aí, último pedido?!
 Desculpe, mas preciso.

Dá as costas a mim, e sai andando como se estivesse com fortes dores.
O papel lacrado tremula em minhas mãos. Quero abrir e ler tudo que está ali, mas o meu coração está receoso. Abra-o de uma vez e não demora para as lágrimas molharem meu rosto pois enfim compreendi a situação que encontrava-me.

As palavras daquele papel marcaria a minha alma e a minha vida por toda a eternidade.



“Se essa carta chegar em tuas mãos, minha amada Clara, significa que estou morto. Fui ferido na guerra e uma enorme hemorragia está me matando aos poucos. Nando está escrevendo essa carta de despedida por mim, pois nem mesmo os meus olhos enxergam a luz outra vez.
Perdoe-me por não dizer que eu estava candidatando-me a guerra. Perdoe-me por esconder isso de você. Tudo foi tão rápido, foi antes mesmo de você entrar na minha vida e me mostrar uma nova razão para viver. 
Prometo que meu coração sempre será teu, e mesmo que Deus me leve, nunca a deixarei de amá-la. Você foi a minha luz, Clara. Meu único amor verdadeiro.
A melhor coisa que aconteceu na minha vida foi ter te conhecido... 
Deus colocou um anjo em minha vida: Você... 
Eu te amo Clara.
E peço, por favor, meu amor... Não chore por mim.
Logo estarei do lado do Senhor Jesus e de seus anjos.
Nunca esqueça que eu te amei.” 

Caio de joelhos ao chão. Meus olhos jorrando lágrimas, e meus lábios tremulando. Enquanto eu duvidava do amor de Felipe por mim, ele me amou em segredo. Fui tola e não dei valor a ele. Mas este erro eu não poderia reparar. Nossas vidas foram enlaçadas por alguma razão. Vivemos. Aprendemos. Sorrimos. Choramos. Amamos. 

Enxugo minhas lágrimas e olho para o céu, um sorriso brota em meu rosto. Tudo estava nos planos de Deus. Estava tudo nas mãos dEle.

Minha escolha foi amá-lo. Afastar a dor de seu coração. Felipe não morreu. Ele viverá em meus pensamentos para sempre. E por escolher amá-lo, disto não me arrependo.
  
FIM





Comentários

  1. Legal essa história. Quero o capítulo 4!

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  2. Amo essa história. to querendo cada vez mais e mais
    sempre venho aqui pra saber se tem capítulo novo.
    Nossa, super legal. Devia virar um livro. A Clara e o Felipe
    vão ficar juntos???

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  3. Oh My God, preciso ler imediatamente o capítulo 7!!!
    Essa história é demais!! Dava pra virar uma série d tv!

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  4. Dá pra perceber que vc tem muito carinho qndo escreve. Esse conto é seu? Ele é muito bom. Aprendo uma lição em cada capítulo.

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  5. Ana ჱƸ̵̡Ӝ̵̨̄Ʒჱ4 de dezembro de 2014 01:12

    Que história incrível! Quem desenha?

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  6. Que legal vc escrever!!! Deus continue lhe dando muita criatividade!!! ^^ bjinhos!

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